Fotografia por Margarida Ribeiro

“Cortado por todos os lados, aberto por todos os cantos”

A propósito do festival Alkantara, a criação de Gustavo Ciríaco “Cortado por todos os lados, aberto por todos os cantos” estará em cena no Teatro nacional D. Maria II de dia 29 a 31 de Maio.

O público espera no átrio do TNDMII, olha em volta e procura a performance. Esta está já a tomar lugar mesmo ao seu lado: atores fazem o reconhecimento do local e dos espectadores. Com figurinos mundanos, percorrem o átrio e olham os visitantes nos olhos, sorriem cumprimentando silenciosamente e continuam o seu caminho por entre o edifício forrado a mármore. A estrutura do teatro é, em “Cortado por todos os lados, aberto por todos os cantos”, o centro da diegese: o espaço é tomado como o sujeito sob o qual a ação teatral se debruça.
O teatro é incorporado na criação não como um edifício icónico que marca a paisagem lisboeta desde o século XIX, mas antes como uma escultura, sendo o título da peça a descrição proposta. O espectador é então convidado a deslocar-se pela estrutura e a observa-la sob diferentes ângulos e perspectivas. Os atores quebram a divisão entre o que é estar “em cena” e “fora de cena” através de coreografias que culminam em imagens fortes (principalmente as que tomam lugar na sala de cenografia) e que despoletam a memória particular e coletiva do público. A interação com os visitantes, seja esta direta com a ação representada ou indirecta _através da posição corporal individual de cada espectador quanto ao objeto artístico_ é então incentivada e necessária para desfrutar da peça. Somos envolvidos na criação sob a forma de diversas ações performatizadas. Apesar de por vezes poderem parecer fragmentadas, o objectivo não é, no entanto, o alcance da unidade da narrativa, mas antes a unidade do espaço. A teatralidade vai para lá das bambolinas ou das cortinas de boca de cena e a escultura, ou arquitetura, e a sua funcionalidade são ampliadas e trazidas para o campo da performance num jogo de transposição do tempo para algo fixo: o espaço. O momento e a vivência são repensados em “Cortado por todos os lados, aberto por todos os cantos” e a relação interpessoal e o mundo quotidiano trazidos para um teatro que se concentra nas pessoas e na partilha da ação e do lugar.

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A criação de Gustavo Ciríaco junta 15 bailarinos e atores, entre estagiários da Escola Superior de Teatro e Cinema, elementos do elenco do teatro nacional e a cantora Carla Gomes numa visita guiada pela performance que explora o TNDMII. A circulação pelo espaço com o intuito da fruição e apreciação é movida pelas formas corporais escultóricas numa relação de simbiose entre o local e os intervenientes.

“Cortado por todos os lados, aberto por todos os cantos” de dia 29 a 31 de Maio, no TNDII, às 19h, com preços dos 6€ aos 12€, havendo também a possibilidade de comprar assinaturas que concedem o ingresso a vários espectáculos do festival Alkantara.

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