Crimson Desert pode tornar-se no jogo do ano?
Com os upgrades, fazemos a nossa análise ao jogo do momento e questionamos: pode ser o jogo do ano? Primeiro devemos dizer o seguinte: a análise ao Crimson Desert levou-nos para mais de 100 horas de jogo, e durante este tempo, tivemos duas experiências bem diferentes. Uma inicial, e outra depois dos upgrades. E a primeira experiência não foi boa, ao ponto de, se continuasse assim, provavelmente não seria sequer nomeado para jogo do ano. Mas, de repente, tudo mudou…
A experiência em Crimson Desert pode ser definida por uma dualidade constante: por um lado, o esplendor de explorar as vastas paisagens de Pywwell; por outro, a confusão inicial de tentar decifrar uma miríade de sistemas e mecânicas que o jogo mal explica, dependendo muitas vezes de tutoriais que só foram adicionados numa atualização pós-lançamento, a que vos disse que mudou tudo. Contudo, é precisamente esta curva de aprendizagem acentuada que confere ao título algum do seu charme único e recompensa os jogadores dispostos a investir o seu tempo. No entanto, como disse, depois do update, o jogo torna-se noutro, acabando com muitos dos problemas iniciais.
O mundo do jogo é massivo e impressiona pela quantidade de atividades disponíveis. A integração destas mecânicas com o ciclo de progressão da personagem é notável, criando um mundo aberto que reage de forma convincente à presença do jogador, dando a sensação de que as nossas ações têm um impacto positivo e tangível nas regiões que ajudamos. Durante as mais de 100 horas de jogo, encontrei tantos detalhes do mundo a mostrar que está vivo, que achei que estava a olhar para um jogo da Rockstar (melhor elogio é difícil). E o mais impressionante, é que quando ando pelas redes sociais, tenho visto dezenas de vídeos em que jogadores entraram detalhes que a mim me escaparam por completo. O resultado é este: a menos que GTA 6 seja lançado este ano, duvido que em 2026 jogue algo com um mundo aberto tão bom.
Gráficos deslumbrantes
No que toca à performance, o título oferece três modos gráficos: Desempenho, Qualidade e Equilibrado. Na PlayStation 5 base, a taxa de fotogramas é globalmente sólida, embora existam relatos de dificuldades em manter os 60 fps no modo de desempenho, acompanhados por instâncias notórias de pop-in (elementos do cenário a surgirem repentinamente), algo que notei, mas que aos poucos deixaram de acontecer com a mesma frequência de no início. Para um jogo deste tamanho, nada de especial. A versão para a PS5 Pro, no entanto, apresenta-se muito mais robusta. O modo Qualidade entrega uma resolução 4K a 30 fps estáveis, o modo Equilibrado ronda os 40 fps e o modo Desempenho é substancialmente mais fiável do que na consola base. Ainda assim, vale notar que a experiência foi muito boa em qualquer uma das consolas da Sony.
E a história vale a pena?
O protagonista, Cliff, apresenta-se inicialmente como uma figura interessante, mas a sua caracterização vai perdendo força e torna-se algo aborrecida à medida que a história avança, o que é pena, porque não acompanha o deslumbramento que vamos tendo deste mundo aberto. A verdade, é que o enredo é, provavelmente, o ponto mais fraco (diria que antes do update o ponto mais fraco era a jogabilidade) e é pena, porque este mundo e as mecânicas de jogo e de combate têm muito para dar. Mas as personagens, as missões secundárias e a história principal, não conseguem acompanhar a qualidade na maioria do tempo.
A história principal acaba por ser meramente funcional. É, na sua essência, um pretexto para colocar Cliff em situações de perigo e empurrá-lo para a exploração do mundo. É inevitável que o jogador acabe por esquecer os objetivos principais para se perder nas muitas distrações que surgem pelo caminho, e que são, na maioria das vezes, melhores e mais entusiasmantes do que a história. Sendo o mundo o grande atrativo de Crimson Desert, este acaba por compensar uma narrativa algo fraca e de ritmo inconstante, ao ponto de me esquecer do que tenho de fazer, porque o prazer de explorar é maior.
Ainda no campo da narrativa, o jogo sofre com algumas quebras de imersão no seu design de mundo aberto. O título peca por não adaptar os diálogos às ações prévias do jogador. Se ajudarmos um NPC aleatoriamente pelo mundo e, horas mais tarde, o encontrarmos numa missão de história, ele irá agir como um completo desconhecido, ignorando totalmente o auxílio que lhe prestámos anteriormente. Detalhes de reatividade como este são cruciais num jogo desta envergadura. No entanto, novamente graças ao update, esta parte melhorou, mas ainda não está perfeita.
A melhoria no combate
O combate é, sem dúvida, um dos elementos que mais evolui durante a campanha e que deu um salto gigante com o update. Antes da atualização a jogabilidade era quase desesperante em alguns momento e, de repente, torna-se muito boa, graças a um pack extremamente rápido que os developers criaram. Aliás, a velocidade a que estão a resolver problemas encontrados pelos jogadores, é de aplaudir. Nas primeiras horas, o arsenal de habilidades é limitado e o número de inimigos no ecrã pode ser avassalador, obrigando o jogador a acumular grandes quantidades de comida e itens de cura antes de invadir qualquer fortaleza inimiga. Sinceramente, gostei desta sensação de escassez e até de desespero em alguns momentos, porque o jogo leva-nos a pensar mais, a treinar mais, a evoluir na fase inicial… ou a explorar, encontrar armas de sonho e, de repente, ficamos muito mais fortes.
No entanto, a experiência melhora exponencialmente à medida que novas habilidades são desbloqueadas. Cliff revela-se um guerreiro incrivelmente versátil, tornando-se mais letal e fluido a cada nova opção de combate. Há tantas formas de lutarmos, que é realmente impressionante. As batalhas contra os bosses, visualmente únicas e bem desenhadas, oferecem momentos de grande adrenalina. Algumas ficam na nossa memória durante muito tempo, porque deslumbram pela mecânica ou pelos gráficos. O único senão é que algumas destas lutas acabam por se arrastar demasiado, transformando-se num teste de resistência focado na quantidade de curas que o jogador carrega no inventário, em vez de recompensar a pura utilização tática das habilidades. Gostava de ter aqui um maior foco na estratégia e não no tamanho da nossa dispensa.
Falhanço ou jogo do ano?
Crimson Desert é uma recomendação fácil, apresentando visuais fortes e um combate sólido, mesmo que ainda precise de algum polimento para brilhar em todo o seu esplendor. As suas peculiaridades acabam por torná-lo ainda mais cativante para o público certo. É um jogo que chegou mal às lojas, e agora está a sair por cima. é realmente incrível como um jogo mediado se tornou muito bom no espaço de pouco mais de uma semana. Uma experiência que não é perfeita, mas que nos agarra, nem que seja para fazermos o que queremos, lutarmos da forma que quisermos, dando uma liberdade difícil de igual. Pensei em Red Dead Redeption 2, GTA 5 e The Wticher 3, tudo misturado num bolo, e o resultado é Crimson Desert. Com falhas, ainda abaixo do nível dos jogos que acabei de mencionar, mas muito mais perto do que estava há uma semana. A continuar assim, será um grande candidato a jogo do ano e provavelmente voltarei aqui lá para o fim do ano se continuarem a aparecer updates que melhorem o jogo.

