Música a Música, em análise

Música a Música é a última experiência cinematográfica de Terrence Malick, onde relações amorosas proporcionam uma odisseia musical de emoções transcendentes. Meio poema visual, meio álbum musical sob forma de cinema, este é um filme tão fantástico como é difícil de apreciar através de noções clássicas de qualidade narrativa.

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Nos anos 70, Terrence Malick saltou de uma carreira académica e filosófica para o mundo do cinema com o magnífico Badlands de 1973. Cinco anos a seguir, Malick estreou outro triunfo incontestável com Dias do Paraíso, depois do qual fez uma pausa de 20 anos antes de voltar ao panorama cinematográfico com A Barreira Invisível, um dos melhores filmes de guerra alguma vez feitos. Com o advento do século XXI, Malick tornou-se vagamente mais produtivo, estreando O Novo Mundo em 2005 e A Árvore da Vida em 2011, que ganhou a Palme d’Or e foi uma espécie de apoteose do realizador assim como o seu projeto mais pessoal até ao momento Depois de tal píncaro artístico, Malick parece ter decidido aumentar ainda mais o seu ritmo de trabalho com uma série de filmes que trocaram as ponderações cósmicas e espirituais da sua oeuvre anterior por melodramas românticos filmados como tours de force experimentalistas.

De certo modo, Malick sempre se veio afirmar como um cineasta preocupado em encontrar gramáticas cinematográficas de transcendência sensorial, mas essa pesquisa chegou à sua mais alienante apoteose na trilogia composta por A Essência do Amor, Cavaleiro de Copas e o recente Música a Música. Mesmo os fãs mais ferrenhos de Malick têm mostrado uma tendência para rejeitar estas novas propostas e os seus críticos mais ásperos já muito se desdobraram em acusações de pretensiosismo vácuo e estagnação estilística. Resumidamente, poderíamos caracterizar o primeiro desses filmes como um passo inicial, inseguro e carente de disciplina, ao que se seguiu o experimentalismo extremo de Cavaleiro de Copas, sendo que a obra mais recente constitui uma conclusão desta pesquisa, uma síntese das técnicas e linguagens de expressão que Malick andou a desenvolver com este seu peculiar projeto pessoal.

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Como muitos realizadores antes e depois de si, Malick criou uma gramática cinematográfica única ao longo da sua carreira e especificamente com esta trilogia. A diferença entre o trabalho do texano e os projetos de outro autor moderno como, por exemplo, Martin Scorsese, é que no cinema de Malick não existe a normal rede de segurança do classicismo narrativo. Indo mais longe, estes três filmes, apesar de terem claras bases narrativas, são motivados não pelo desenrolar de um enredo, mas sim pelo encadeamento de emoções expressas em estado puro pelo realizador. Eles veem todos os seus aspetos serem subordinados à representação exultante de estados emocionais, seguindo aleatórias correntes de sentimentos sem grande ponto de acesso mainstream, que tornam a forma dos projetos finais numa bizarra colagem meio incoerente de momentos montados sem nexo racional.

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Música a Música exemplifica tudo isso, ao mesmo tempo que nos conta a história de um quarteto de pessoas e suas ligações amorosas, nomeadamente a jornada emocional de Faye. Interpretada por Rooney Mara. Ela é uma música aspirante que vive em Austin e que teve uma relação ainda não totalmente resolvida com um abusivo produtor musical, Connor interpretado por Michael Fassbender, quando conhece outro charmoso músico numa festa. Faye e BV, trazido ao grande ecrã por Ryan Gosling, depressa começam uma relação amorosa, mas a ligação emocional e profissional que ambos têm com Connor acaba por erodir a sua união. Depois de se separarem, eles têm uma série de relacionamentos amorosos, até que os caminhos das suas vidas se voltam a cruzar e o seu amor floresce mais uma vez. Paralelamente, Connor, cujo nome nunca é proferido durante o filme, casa-se com uma antiga educadora de infância tornada empregada de mesa. Ela, interpretada por Natalie Portman, torna-se na principal vítima dos abusos emocionais diretos e indiretos do marido, estando economicamente dependente dele e por isso incapaz de escapar. À medida que tudo isto se desenrola, o filme vai saltando de concerto em concerto, passando interlúdios no meio de verdadeira parada de estrelas musicais como Iggy Pop e Patti Smith a interpretarem versões ficcionadas de si mesmos.

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A história é bem simples, mas a sua apresentação é tão estranha que será fácil acreditar em pessoas que saiam do cinema a protestar que não perceberam nada do que se passou no filme. Anteriormente referimos a estrutura de Música a Música como algo orientado por sequências de estados emocionais, mas isso não descreve bem o efeito de ver Malick e a sua usual equipa criativa tentarem replicar o efeito de música no espetador através de meios puramente cinematográficos. Tal como uma grande sinfonia experimental, Música a Música é pouco mais que um exercício centrado na montagem e manipulação de estímulos sensoriais abstratos para deles criar concretos significados emocionais, onde a audiência é imersa.

Todos os mais comuns toques estilísticos de Malick estão aqui, como a voz-off pseudo filosófica, a fotografia airosa e avassaladoramente bela de Emmanuel Lubezki, uma banda-sonora cheia de sobreposições e movimento de câmara constante, mas o seu propósito aqui não é tanto intelectual como intuitivo. Ou melhor, a sua aplicação é profundamente intelectual, mas a experiência que proporcionam é tão intuitiva, que Malick parece estar a pedir de joelhos ao seu público, que desligue a parte racional do seu cérebro e simplesmente se deixe levar pela sinceridade sentimental do projeto.

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Tudo isso é fantástico e resulta perfeitamente se apreciarmos Música a Música como uma peça de cinema experimental. O problema é que Malick, ao ancorar toda esta orgia formalista numa história com personagens, abre as portas a uma destrutiva apreciação narrativa e, como temos vindo a indicar, a esse nível estamos perante uma perfeita catástrofe. Resumidamente, um poema tonal sobre estados emocionais não necessita obrigatoriamente de personagens, mas Malick parece incapaz de evocar as realidades interiores que pretende sem usar a base humana de atores e de uma história dramática. Essa tem sido a sua desgraça.

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Tal como ocorreu no cinema de Godard e de outros vanguardistas célebres, a qualidade experimental dos projetos de Malick é incapaz de coexistir com a narrativa sem estropiar esta segunda. O trabalho dos atores é a maior prova disso, sendo que nomes tão luminosos como Ryan Gosling, Michael Fassbender, Cate Blanchett, Holly Hunter, Tom Sturridge e Val Kilmer veem-se incapazes de interpretar os seus papéis sem se desfragmentarem em vácuo abstracionismo antropomorfizado. Apenas Rooney Mara e Natalie Portman parecem ter dominado as demandas do realizador, evitando uma construção clássica de personagem em prol de prestações mutáveis e apoiadas sobretudo em expressão física e facial sem a pretensão de densidade psicológica.

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No final, a repetição estilística de Terrence Malick não é um problema a ser resolvido. Afinal, mais ninguém faz filmes como ele e mesmo o seu género de projetos, experiências tonais orientadas por expressões formalistas de emoção, são praticamente inexistentes no panorama do cinema contemporâneo. Música a Música continua uma pesquisa sobre uma gramática cinematográfica que não é contido por barreiras narrativas classicistas, apesar de ainda mostrar uma perniciosa dependência delas. Não é nenhum triunfo absoluto e incólume de críticas negativas, mas a maior parte das reações contra o filme parecem supor que o facto deste projeto evidenciar a continuidade de um discurso artístico em evolução, implica preguiça por parte do artista. Música a Música não é nenhuma autoparódia de Malick, não é nenhum triunfo narrativo, não é nenhuma montra para grandes estrelas de cinema, não é um filme fácil, mas também não é uma obra que mereça escárnio, mas sim admiração, pois mais ninguém está a fazer o tipo de ousadas experiências que Malick tão obstinadamente realiza.

 

Música a Música, em análise
Musica a Musica song to song

Movie title: Song to Song

Date published: 2017-05-16

Director(s): Terrence Malick

Actor(s): Rooney Mara, Ryan Gosling, Michael Fassbender, Natalie Portman, Cate Blanchett, Holly Hunter, Val Kilmer

Genre: Drama, Romance, Música, 2017, 129 min

  • Claudio Alves - 80
  • Rui Ribeiro - 80
  • Daniel Rodrigues - 45
68

CONCLUSÃO

Música a Música é uma gloriosa visão de imperfeita experimentação e primor formalista capazes de inebriar as audiências generosas o suficiente para se deixarem levar pelos devaneios de Malick e companhia.

O MELHOR: A fotografia, banda-sonora, sonoplastia e montagem em simbiótica e divinal conjunção.

O PIOR: Para além da perniciosa dependência numa base narrativa convencional, Música a Música padece de uma duração demasiado extensa. Para além disso, as narrações em voz-off típicas do cinema de Malick são aqui particularmente superficiais e anódinas, ocasionalmente tornando-se em algo reminiscente de poesia escrita por adolescentes pretensiosos a vibrarem com hormonas juvenis e imprudente imaturidade.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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