8 1/2 Festa do Cinema Italiano: Suburra, em análise

Um grande projeto imobiliário nos arredores de Roma serve como pano de fundo de ‘Suburra’, um thriller político que conta uma história mafiosa, sobre um político corrupto, um criminoso romano, um animador noturno sem escrúpulos e as instituições à volta deles.

Stefano Sollima, o realizador da série Gomorra (apresentada na totalidade o ano passado na 8 1/2 e depois na RTP2) sobre a mafia napolitana, voltou a colaborar em Suburra com os seus dois argumentistas de eleição, Carlo Bonini e Giancarlo De Cataldo (autores de Romanzo Criminale e A.C.A.B.: All Cops Are Bastards). Suburra é um thriller político  e uma história ambientada no mundo das instituições romanas e das suas promíscuas relações com o mundo do crime.

Suburra

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Conhecido como Samurai (Claudio Amendola), um poderoso mafioso quer transformar a orla marítima de Ostia, uma pequena cidade perto de Roma numa nova Atlantic City, repleta de casinos, apartamentos e espaços de lazer. Um político corrupto (Pierfrancesco Favino) viciado em prostitutas e cocaína, fornecidas por um homem da noite (Elio Germani), acabam por proteger o criminoso com a ajuda de um poderoso cardeal do Vaticano. Os chefes da mafia local concordam com o projeto de requalificação e trabalham para esse objetivo em comum, porém, algo inesperado acontece e uma guerra entre familias rivais parece abanar com os futuros sonhos de Samurai.

Suburra

Suburra é um retrato que não deve andar muito longe da realidade sobre uma Roma pejada de políticos, criminosos, figuras das instituições, da Igreja e mafiosos, todos envolvidos em escândalos de corrupção, que são recorrentes seja quais forem as forças partidárias ou governos que estejam no poder. No entanto, esta ficção carregada de realismo, procura chegar não apenas à realidade italiana, mas antes refletir o fim de uma era global, de um mundo político e do crime que se espalhou e está agora tornar-se outra coisa, que não sabemos exactamente o que será. O que sabemos é que esta situação nos deixa impotentes e revoltados pela impunidade dos actos praticados. E que estes vão deixando com a sua passagem por todo o lado, rastos de violência, aumento das desigualdades, insegurança nos cidadãos, que deixaram de acreditar nas instituições e vivem numa expectativa de uma nova ordem e valores democráticos, que não sabem se serão (e com o fim destes), necessariamente melhores

A cidade eterna (também da eterna corrupção) é de facto mostrada como nunca antes vista, nem por realizadores tão críticos e activistas da esquerda italiana. Em Suburra, os protagonistas são políticos da pior espécie, que negoceiam em seu benefício comissões ilegais para requalificar terrenos, homens de Estado (do pior Estado que se pode imaginar…e sem um mínimo de ética) que negoceiam votos a troco de lugares em empresas públicas ou cargos políticos (onde é que eu já vi isto????), num trama complexa de favores escondidos e tráfico de influências. A Igreja está no meio disto tudo a defender os seus interesses nada espirituais e bem mais terrenos, assentes na especulação e lavagem de dinheiro.

Suburra

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No filme há ainda delinquentes que sobrevivem numa harmoniosa colaboração com políticos, para que se ocupem da satisfação das suas perversões sexuais e do fornecimento da cocaína, a troco de negócios de fachada sobretudo ligados à noite (discotecas, bares e prostitutas de luxo). No fundo Suburra é um terrível retrato destes esquemas de corrupção generalizados onde circulam milhões por ‘debaixo da mesa’, que vão assombrando o nosso sistema político democrático, ao vários níveis. 

Praticamente filmado à noite com uma fotografia belíssima, e rodado nos exteriores com uma chuva miudinha a cair sobre as ruas, as luzes e os monumentos da bela Roma, ou no cinzento invernal de Ostia, Suburra é sem dúvida um filme espectacular que deixa o espectador pregado à cadeira do principio ao fim. Os actores são extraordinarios sobretudo os protagonistas: Pierfrancesco Favino,Claudio Amendola e Elio Germano (A Nossa Vida). Êxito da crítica e do público italiano, Suburra vai ter em 2017, igualmente uma adaptação a uma serie de televisão de 10 episódio, produzida pela Netflix. Depois da  8 1/2 Festa do Cinema Italiano, estreia nas salas nacionais a 21 de Abril.

Suburra

O MELHOR: O realismo do filme, que dá a sensação ao espectador de pensar: onde é que já vi isto?

O PIOR: No filme nada, mas a ideia de pensar que afinal de contas não podemos confiar nas instituições que nos governam.

 



Título Original:
 Suburra

Realizador:  Stefano Sollima
Elenco: Pierfrancesco Favino, Claudio Amendola, Elio Germano

Filmes4you | Thriller | 2015 | 130 min

Suburra

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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