Da Vinci’s Demons T1 – Em Análise

 

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  • Título Original: Da Vinci’s Demons
  • Produtores: Starz| BBC
  • Criadores: David S. Goyer
  • Elenco: Tom Riley, Laura Haddock, Lara Pulver, Ian Pirie, Blake Ritson, Elliot Cowan, James Faulkner, Alexander Sidding, David Schofield, Tom Bateman
  • Género: Drama, Aventura, Fantasia, História
  • 2013| EUA | FOX HD 

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“A Simplicidade É O Último Grau De Sofisticação”

                  Leonardo Da Vinci

 

Tom Riley in "DaVinci's Demons" on Starz

Do quartel-general da “Starz“, a mesma cadeia televisiva responsável pelo aclamado “Spartacus”, chega-nos das brumas da memória a nova estrela cintilante da companhia: “Da Vinci’s Demons“. Sim, estamos a invocar o “ragazzo geniale” que pintou o famoso quadro da “Mona Lisa” ou o inesquecível fresco “A Última Ceia”, e que completaria quinhentos e sessenta e um anos de existência terrena se tivesse descoberto o “Santo Graal” da vida eterna. O corpo original até pode continuar sepultado na capela Saint-Hubert no castelo de Amboise, mas o seu espírito vitruviano irá renascer novamente através da visão inspiradora de David S. Goyer, produtor da série “Blade” e argumentista da trilogia “Batman”.

E se Leonardo já tinha deixado um legado cultural impossível de rivalizar, só após quatro meses de audições extenuantes surgiu um candidato digno de honrar a sua fama e de mimetizar apenas a superfície do seu génio inigualável. Tamanha responsabilidade recaiu sobre os ombros desconhecidos de Tom Riley (Leonardo Da Vinci), o britânico corajoso que ousou preencher o vazio histórico pré-trintão do diário secreto de Leo.

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Foram-se as barbas do Pai Natal e as rugas pesadas do velhote reformado nas páginas do tempo, agora “remasterizado” na sua versão mais juvenil e contemporânea: cabelo estilizado com gel que dá para os dois lados, abdominais esculpidos com o cinzel da luxúria, cabedal do último grito da moda florentina, e umas passas de ópio para libertar o conhecimento proíbido por Deus. Claro que o “Homem do Renascimento“, para álem do pedigree de garanhão italiano possui ainda uma panóplia de talentos igualmente cativantes, seja pela sua técnica apurada como pintor perspicaz, seja pela sua capacidade criativa como inventor vanguardista, entre um punhado de tantas outras habilidades fascinantes.

Numa sociedade elitista governada pelo braço de ferro bancário entre os Médici e os Pazzi, subjugados ao domínio opressivo da Igreja Católica de Roma, emerge uma “carta imprevisível” que irá agitar as águas turvas da liberdade e da razão pré-concebidas pela religião. É neste contexto que Tom Riley abraça com paixão e pujança a veia prodigiosa do “Artista“, que faz a leitura do mundo nas entrelinhas e absorve a máquina da natureza como uma esponja de novos conceitos iluminados. Um exemplo dessa magia analítica tem lugar no mercado lá do sítio, quando Leo ordena o seu fiel aprendiz Nico (Eros Vlahos), a destrancar a portinhola da gaiola atiçando os passarocos na sua direção, como se o tempo travasse deleitosamente o seu ímpeto para o mestre conseguir rabiscar os detalhes mudos do presente e futuro.

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E se Leo foi escolhido para ser o intérprete semântico dos bastidores físicos e materiais do Universo, não é menos verdade que o capricho de tal dádiva só poderá ser compreendido pela sua imanente maldição. É sobretudo neste segmento narrativo, que Riley irá arrebatar com o seu charme perfumado de impertinência e o virtuosismo de uma personalidade egocêntrica, alimentada pela dicotomia emocional que advoga a poesia louca dos seus devaneios mais tangíveis, e os demónios que engolem a genealogia da sua identidade renegada à nascença. Até mesmo na heresia das suas convicções anacrónicas, o “Artista” luta ferozmente para esbater a distância que o separa do seu derradeiro destino, revelado nas estrelas por um xamã turco Al-Rahim (Alexander Sidding), crente no misticismo do “Livro das Folhas” e da sua ligação íntima com Da Vinci.

Claro que a demanda súbita e urgente por tal artefacto poderoso, começa a suscitar a cobiça doentia do Papa Sisto IV (James Faulkner), que relega os contornos da sua mente retorcida no seu sobrinho sanguinário, o conde Girolamo Riario (Blake Ritson), interessado em esquartejar o traseiro demasiado inteligente do mestre jeitoso. Com um olhar penetrante sequioso de consequência e uma indumentária com etiqueta gótica avant-guarde, perfilar-se-á como um dos vilões mais adorados de sempre. Mais ainda, Ritson consegue ser brilhante na injeção daquelas octanas de malvadez apenas ao nível dos intérpretes mais experimentados na arte lúgubre dos caixões para ratos armados em espertos.

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E como qualquer bom artífice de ratoeiras competentes, não é por mero acaso que a inteligência costuma atrair a beleza como uma necessidade magnética, bastando fitar a nudez do olhar paradisíaco de Lucrezia Donati (Laura Haddock), para o banqueiro aristocrata acenar com as notas e o artesão do povo realizar uma demonstração gratuita dos seus brinquedos mais recentes. Na verdade, Haddock poderá ser vista como uma espécie de agent provocateur com queda para o swing, servindo-se proveitosamente de Leonardo por receio de represálias, enquanto permanece camuflada no lençol missionário reservado à amante oficial de Lorenzo Médici (Elliot Cowan), o magnífico patrão de Florença. Obviamente que a sofisticação da atuação sublime da senhora Donati não passará facilmente despercebida, afinal de contas por detrás de uma grande mulher existe sempre um grande homem.

A grandeza de tal personalidade “sui generis”, só poderia sentar-se numa poltrona de cifrões com vista panorâmica para o cofre europeu, aguardando que os seus inimigos gananciosos lhe batam à porta com um mandato de captura perpétuo.  E quando a fricção das relações comerciais com o Vaticano começa a sugerir uma renovação repentina de ares, talvez um certo engenheiro militar possa engendrar uma ou duas geringonças bélicas, só para afugentar os abutres pretorianos mais persistentes. Como humanista e patrono das artes, Cowan não poderia ter adotado um rosto mais austero que impusesse o respeito devido a “il Magnifico“, nem uma língua mais temperada com a doçura eloquente da oratória, argumentos convincentes que atestam uma exibição a todos os níveis magnífica.

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Da Vinci´s Demons, talvez possa ser demasiado arrojado e pretensioso num primeiro contacto mais superficial, asfixiando com uma poção mágica demasiado intensa visualmente, mas que vai lentamente destilando a sua essência em algo genialmente percetível e agradavelmente viciante. E uma vez processada toda essa avalanche sensorial, é inevitável não ser aspirado para o vórtice daquela época fantástica, algures entre a vastidão paisagística do País de Gales e a imponência monumental do Palácio Médici ou a Catedral Duomo que ainda existem na atualidade. O vestuário liberal de hoje é que não se compadece com aquele recorte requintado da alta-costura, mas ainda assim não deixa de apresentar um certo twist de modernidade e uma ligeira distorção herdada das novelas gráficas de que é fã o produtor americano, envolvendo o enredo num espalhafato quase provocante mas credível, parcialmente desconstrutivo da complexidade modeladora da personalidade de cada interveniente. No plano sonoplástico, Bear McCreary promove a fusão temporal do agora vivido antigamente, permitindo a coexistência harmoniosa da suavidade dos instrumentes clássicos com a eletrização da sonoridade hodierna, como complemento dinâmico da intenção e direção da narrativa.

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O “Tony Stark” do renascimento comprou casa para se estabelecer definitivamente nas nossas vidinhas monótonas, reinventando a fórmula mainstream do storytelling com imaginação e fantasia, catapultadas para uma nova dimensão artística que bebe tanto da realidade como dos seus artíficios visuais, atingindo frenéticamente a jugular em grande estilo.


P.S – Genius Cannot Be Contained…

MS

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Miguel Simão

Jurista e Poeta em algumas horas vagas. Cinéfilo incurável com forte pancada pelo sci-fi, que se perde algures pelo vício noturno de umas quantas séries televisivas de renome; amaldiçoado pelo perfecionismo estético de uma resma de palavras mais ou menos caras. Podem encontrar-me a divagar entre a Terra e o Espaço no meu blogue premiado Última Transmissão Humana.

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