Fantasporto 2013 | Pieta, em análise

 

BNpm Título Original: Pieta

Realizador: Kim Ki-duk

Elenco: Min-soo Jo, Eunjin Kang, Jae-rok Kim

Género: Drama

2012 | 104 min

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A relação maternal é curiosamente um dos temas dominante neste Fantasporto.

Em “Mamã”, apesar do género em que se insere ser menos pacífico, a exaltação do amor de mãe era executada pela conexão quase mágica, carnal e harmónica. Em ”Pieta”, cujo género se distancia em larga escala do fantástico evidenciado em “Mamã”, o vínculo materno é feito pela via da visceralidade dessa ligação, pela dor ininterrupta, pelo sofrimento volátil.

Kim Ki-Duk conta-nos a parábola da mãe extraviada pela vida. Da mãe submissa, da mãe que é capaz de tudo para reparar os seus desacertos, da mãe que ama incondicionalmente um filho que não merece o seu retorno.

Tal como está patente no seu engenhoso título, “Pieta” é uma clara alusão à arte cristã cuja representação é a Virgem Maria com o seu filho, Jesus Cristo, falecido aos seus braços. E embora obra de Ki-Duk não prime pela evocação religiosa, fica bem explicito que o ensaio que acabamos de descobrir é uma tradução metafórica dessa arte. Ki-Duk pede que sejamos piedosos, mas primeiro deixa-nos sofrer.

E o enredo é isso mesmo: uma história sobre a capacidade do amor em alterar a nossa natureza e instinto atroz. “Pieta” conta a misteriosa história de um homem violento que trabalha como cobrador de dívidas, e que é capaz de se submeter aos limites mais cruéis que a humanidade possa conceber para fazer os clientes pagar. A fábula de Ki-Duk encontra um rumo espantoso quando esse homem conhece uma mulher que diz ser a sua mãe que o abandonou há 30 anos atrás.

Pieta

A admirável obra de Kim Ki-Duk consegue primar pela transversalidade de temas com que nos confronta, e em todos eles deixa uma marca bem vincada da amargura humana. Começa com o dinheiro. Sim, o dinheiro que é “o princípio e o fim de todas as coisas.” O dinheiro capaz de construir e destruir no instante imediato. O dinheiro que é a origem do amor e da morte, da felicidade e da vingança.

Apesar de ser sobretudo um conto sobre o amor e as suas influências, “Pieta” é também uma história de vingança. Não só a vingança literal (violenta e controversa, não haja dúvida), mas também a vingança psíquica. A vingança para com a vida injusta que transforma homens em mártires.

A câmara de Ki-Duk é o maior auxílio do seu argumento. Em algumas passagens, o realizador sul coreano fá-la tremer habilmente, outras vezes aproxima-a com zooms graduais. Formas subtis de mostrar o constrangimento da história que relata.

Os desempenhos de Lee Jung-jin e Jo Min-su contribuem para o carácter autêntico de “Pieta”, dado que mostram de forma competente as entranhas de uma relação entranhada. Onde um silêncio espelha mais dor do que um grito.

Não há forma mais cliché de o dizer, mas “Pieta” não é um filme para todos. A controversa exposição do amor poderá não agradar à larga maioria dos espectadores.

Aqui na Magazine.HD, podemos dizer que veneramos a sedução intensa e rigorosa com que Kim Ki-Duk nos mostra a miserável história que tem para narrar.

DR

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