Gotham | Primeira temporada em análise

 

Gotham até começou bem. Logo no primeiro episódio vimos uma das melhores cenas da temporada assim como uma das cenas mais icónicas deste universo: a morte dos pais de Bruce Wayne. O momento trágico que marca o princípio da lenda. O maior problema de Gotham, no entanto, é que não é uma série sobre Batman.

O Bruce Wayne de Gotham é uma criança sem muito carisma ou personalidade. De fato, é difícil acreditar que, em pouco mais de uma década, “este” Bruce Wayne se transformará num dos maiores heróis alguma vez concebidos pela mente humana.

gotham bruce wayne

Vivemos num mundo repleto de sequelas, prequelas, remakes, spin-offs, franchises, reboots, adaptações e universos partilhados e Gotham consegue ser praticamente tudo isso ao mesmo tempo, mas apesar de ser tantas coisas Gotham parece vazia, incompleta. Ver a primeira temporada desta série foi como ver a Argentina jogar um mundial sem Messi. Gotham é uma tentativa de fazer uma série sobre o Batman sem o Batman, e a verdade é que não funciona bem.

Na ausência do cavaleiro das trevas, os escritores decidiram entregar o protagonismo da série a um jovem Jim Gordon, recém chegado a Gotham. Não é uma má ideia. Dar o protagonismo a Jim Gordon converte Gotham em uma série policial passada numa das cidades fictícias mais interessantes da cultura popular. Numa época em que o mundo dos super-heróis está mais em voga do que nunca esta iniciativa até faz sentido… o problema é que, como praticamente tudo nesta série, embora a ideia seja razoável a execução não o é.

O comissário Gordon apreciado pelos fãs de Batman é um veterano. Um homem debilitado por décadas de deceções e traições. Um homem honesto habituado a viver num mundo irreversivelmente corrupto. O comissário Gordon dos comics, assim como o excelente Gordon de Gary Oldman, é um sobrevivente, um cético, um homem ao borde do desespero até que Batman aparece.  Jim Gordon é uma alma torturada, tal como Bruce Wayne. Ambos são homens íntegros dispostos a fazer o necessário para impedir que Gotham perca a esperança, que Gotham caia para sempre no abismo do mal, da corrupção e do caos. Tanto Jim Gordon como Bruce Wayne são personagens sombrios, mas o Jim Gordon da série é um detetive novato, ingénuo, sempre empenhado em fazer a coisa certa da forma certa. Este Jim Gordon é um homem jovem, bonito e idealista, o oposto do Jim Gordon de Oldman ou dos comics. Em outras palavras, este Jim Gordon é terrivelmente desinteressante, tal como a própria série.

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Jim Gordon Gotham

Esta série poderia chamar-se perfeitamente Gotham: 15 anos antes de Batman, ou algo assim. Temos o protagonista, um jovem Jim Gordon. Temos um Bruce Wayne pré-adolescente traumatizado pela morte recente dos pais. Temos um jovem Alfred, que na série deve ter por volta de cinquenta anos. Temos um jovem Harvey Dent, um promotor idealista a estrear cargo. E temos praticamente todos os vilões deste universo em versão júnior, do Pinguim à Mulher-Gato, passando pelo Espantalho, Carmine Falcone, Poison Ivy e outros.

A verdade é que, com a excepção do Pinguim, nenhum destes personagens é realmente interessante nesta versão. Por um lado, tal como Jim Gordon e Bruce Wayne, a grande maioria destes personagens carecem das características e das habilidades que os tornarão interessantes no futuro. A Mulher-Gato é aqui simplesmente uma Menina-Gato, e portanto consideravelmente menos sedutora e letal. O mesmo se pode dizer de Poison Ivy. O Riddler passa a primeira temporada inteira a trabalhar como CSI para a polícia, a ser maltratado por toda a gente e a correr atrás de uma miúda que não está minimamente interessada nele. É um personagem tão patético que se torna francamente difícil imaginá-lo como um futuro vilão famoso e temido. O Espantalho é um miúdo traumatizado que só teve direito a um ou dois episódios…

Apenas o Pinguim conseguiu cativar realmente o meu interesse. Oswald Cobblepot foi a única personagem da série capaz de alcançar o seu potencial. De fato, a história da sua ascensão de lacaio a senhor do crime foi, de longe, o melhor arco narrativo da série.

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Pinguim Gotham

Precisamente, uma das maiores fraquezas da série reside justamente na sua incapacidade de gerar histórias interessantes. Com a excepção da história trágico-cómica do Pinguim, nenhum arco narrativo foi capaz de contribuir decisivamente para converter Gotham em uma série à altura do seu material de base.

Em realidade, depois de uma temporada completa continua a ser complicado destacar uma história central que dê sentido à série, embora o quadrado criminoso Falcone-Maroni-Fish-Penguin tenha acabado por monopolizar a atenção dos escritores durante boa parte da temporada, convertendo-se assim provavelmente no arco principal da primeira temporada. Este arco logrou entreter de forma moderada, mas esteve muito abaixo dos padrões de qualidade das melhores séries de gangsters e crimes em geral. Foi, ainda assim, bem mais interessante de seguir que a história da conspiração relacionada com o assassinato dos Wayne que, além de chata, não foi sequer minimamente concluída nesta primeira temporada.

Pais assassinados Gotham

 

Conclusão

 Gotham até começou bem… é uma pena que tenha acabado por ter se revelado como uma grande decepção. Uma galeria de personagens desinteressantes aliada a um enredo desordenado e pouco cativante condenou esta nova série de super-heróis a uma existência de mediocridade. A ideia por trás deste projeto não era particularmente boa desde um ponto de vista criativo mas, mesmo assim, os produtores, realizadores e escritores da série poderiam certamente ter feito um trabalho melhor com todo material à sua disposição. Ainda assim, nem tudo foi mau na primeira temporada de Gotham. As origens do Pinguim como um dos senhores do crime de Gotham proporcionaram-nos muitos minutos de bom entretenimento, salvando assim esta série de um destino ainda pior e, possivelmente, de um cancelamento prematuro (Gotham já foi  renovada para uma segunda temporada).

Aspetos Positivos

– Oswald Cobblepot aka O Pinguim

– Primeiro episódio

 

Aspetos Negativos

– Personagens desinteressantes

– Conspiração contra os Wayne

– Não faz jus ao material de base

 

Nota: 5/10

BV

 

Bruno Vargas

Cidadão do mundo, amante do cinema, da televisão, da banda desenhada, dos videojogos, da literatura, da história, da filosofia e da política. Acredito que o Fight Club é o melhor filme alguma vez feito, e que o Tarantino é o melhor realizador dos tempos modernos. O meu super-herói favorito é o Batman embora, se tivesse de escolher, preferisse sem dúvida ser o Super-Homem.

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6 thoughts on “Gotham | Primeira temporada em análise

  • Talvez tenhas sido um pouco duro demais com a série. Eles nunca venderam isto como um programa do Batman, mas sim da cidade onde ele existe e que tem uma bela mitologia por si só.

    A série, na minha opinião, terminou bem e o problema mesmo foi terem recebido a luz verde para mais dos 18 episódios que os criadores tinham planeados, e dessa forma, arrastam certos pontos. O “Penguin” foi muito bom, mas o próprio Gordon (Ben McKenzie) em dinâmica com o Harvey Bullock (Donal Logue) deram algum brilho. Infelizmente este programa também traz muito más personagens femininas. A Fish Mooney foi interessante, mas acho que falhou na sua essência.

    A nota mais correcta seria 7/10. É uma série porreira.

  • Olá Marcos,

    Obrigado pelo teu comentário e obrigado por ler o artigo.

    Talvez os produtores não tenham vendido isto como uma série sobre o Batman, mas dizer que esta série é só sobre Gotham é como dizer que Smalville não é sobre o Super-Homem, mas sobre a cidadezinha em que ele cresceu. Talvez os dois casos não sejam precisamente iguais, mas parece-me que o conceito das duas séries é bastante parecido. Ou seja, ganhar algum dinheiro explorando um franchise valioso de todas as formas possíveis. Como a Time Warner parece estar a reservar os seus dois melhores super heróis para o grande ecrã, não é de estranhar que tenham decidido fazer prequelas na televisão em vez de usar os personagens adultos. Na minha opinião isso não é uma boa ideia a nivel criativo, embora seja uma ótima ideia a nivel comercial. Por um lado preservam o personagem principal para usá-lo no cinema, e por outro ganham o apelo de um Batman ou um Super-Homem á mesma. Estes personagens vendem, não é uma casualidade que Smalvillle tenha durado dez anos. Provavelmente a Time Warner quer fazer a mesma coisa com Gotham, o que não é nenhuma surpresa. Se fizessem uma série do Batman agora, quando saísse o filme não teria o mesmo impacto.

    Quanto à qualidade da série, parece-me sinceramente que é uma série bastante fraca. Creio que provavelmente teria continuado a ser uma série fraquinha mesmo que só tivesse tido 18 episódios, ou até mesmo 13. Acho que a única coisa boa mesmo da sêrie foi o Pinguim, como disse na análise. Todas as outras personagens e arcos narrativas foram de “meh” a mau.

    Não quero dizer que Gotham é horrível. Tenho visto a série desde o principio com certo interesse, mas a verdade é que eu queria muito gostar disto mas não consigo. Parece-me que no máximo é uma série razoável, mesmo esquecendo a questão do Batman e analisando Gotham meramente como uma série de crime ou de super-heróis. Parece-me que não há comparação possível entre esta série e algo como Justified, True Detective ou, e esta é uma comparação ainda mais apropriada, ao novo Daredevil.

    Não digo que um 7 em 10 seja uma nota errada. Afinal, estas coisas acabam sempre por ter muito a ver com o gosto de cada pessoa. Porém, na minha opinião e tendo em conta a escala que costumo utilizar, um 7 seria uma nota bem mais alta do que a série merece realmente. Para mim é um 5 ou no máximo um 6, ou seja, uma série razoável que se pode ver para passar o tempo, mas que não está sequer perto das melhores séries da atualidade.

  • Bom para mim a serie não funcionou ela sempre ficava se detendo em explicar a origem de vários vilões e pior de forma superficial em vez de se concentrarem na cidade em se, concordo com você o pingui foi o único vilão bem aproveitado em relação a Bruce muitas cenas dele poderiam ser descartadas pois não acrescentam em nada a historia se queriam tanto mostrar sua evolução poderiam ter feito em poucos episodios de uma maneira mais madura em vez de dispor um pedacinho de 5 a 10 minutos a cada episodio.

  • Não concordo de todo com esta crítica. Respeito-a, mas acho-a errada de todo.
    A meu ver esta série é e tem sido até agora a explicação do que leva à criação do Batman e ao porque das personagens desse “universo” serem como são.
    O Gordon antes de poder ser um sobreviver amargurado tem de ter motivos para ser amargurado e um sobrevivente. O mote escolhido é o seu idealismo e rodas as desilusões e mágoas que isso lhe vai criar.

    O Bruce tem de ser um miúdo sem carisma neste momento. Ele já decidiu limpar a cidade, mas ainda não sabe como. A vida dupla de super herói e de milionário excêntrico para desviar atenções ainda não lhe competem.

    Já nos vilões, ainda é muito cedo para se tirar conclusões. A personagem do ridler e do joker para mim estão brilhantes. Estão a ser criadas para poder explicar como é que alguém “normal” chega ao nível de malvadez/loucura/crueldade do super vilão.
    A cat é ainda uma miúda, não faria sentido ela andar a tentar seduzir alguém, embora já lhe tenham passado essa lição.

    O pinguim tinha de ser o 1o mas estou confiante que os outros vilões e heróis tenham atinjam o pico de formas semelhantes.

    A 2a temporada tem sido espetacular até agora e só posso esperar que haja uma 3a e por aí fora

  • Olá Fernando, obrigado por ler e comentar o artigo. Bem, a verdade é que no fundo a avaliação de uma série não deixa de ser uma questão subjetiva. O que parece fantástico para uma pessoa (como o Gotham para si), pode parecer medíocre para outra (como o Gotham para mim). Eu não detesto a série, como aliás deixo claro na crítica. Parece-me que tem algum potencial e, felizmente, concordo consigo quanto ao fato da segunda temporada ter começado bem. Na verdade, a segunda temporada, ao contrário da primeira, tem realmente abraçado a noção que Gotham tem que ser um sitio realmente desolador, violento, decadente e a série tem que acompanhar esse registo. Parece-me que a primeira temporada nunca chega a fazer realmente isto e, pelo menos para mim, nunca chegou a ser uma boa série principalmente por causa disso. A série nunca abandonou essa estética e essa forma de contar histórias típica dos grandes canais americanos como a Fox, e que está dirigido ao público em geral, muito diferente da ficção de alta qualidade, tanto a nível de forma como de conteúdo, produzida por canais a cabo como a HBO, Showtime ou AMC. No entanto, a verdade é que esta é uma série da Fox, e como tal sempre terá limitações importantes e é preciso aceitar isso, mas espero que continue a ser pelo menos mais como o que tem sido nesta segunda temporada e menos do que como na primeira. Para terminar, volta a frisar que, no fundo, estas opiniões são subjectivas, já que têm muito a ver com as expectativas e os gostos de cada pessoa que são, obviamente, bastante variáveis. Seja como for, é uma série que vale a pena acompanhar para quem gosta de super-heróis. Obrigado mais uma vez mais pelo comentário e não perca os nossos próximos artigos sobre séries de super-heróis que abordam algumas destas questões.

  • Desculpe-me pela demora em responder Luana. Obrigado por ler o artigo e pelo seu comentário, e fico contente que tenha concordado com a crítica. Parece-me realmente que o Pinguim foi o única vilão bem aproveitado e continua a ser a grande estrela agora na segunda temporada. Infelizmente não se pode dizer o mesmo de Bruce Wayne que, apesar de ser uma criança, poderia ter uma história bem mais interessante. Toda a trama da conspiração relacionada com o assassinato dos Wayne é fraca e muitas vezes leva a longos pedaços de episódios chatos. Mas enfim, as coisas estão a melhorar um pouco na segunda temporada, por isso ainda existe (alguma) esperança que a série se torne realmente boa.

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