MOTELX Hagazussa critica

MOTELx ’18 | Hagazussa, em análise

Hagazussa” é talvez o filme mais perturbador em exibição no MOTELx deste ano, pervertendo uma história de bruxas medievais com psicoses bem reais e a força demoníaca da gramática cinematográfica virada para a representação do Mal na Terra.

Face à magnificência de “Hagazussa”, é difícil crer que esta se trata da primeira longa-metragem do seu realizador. De facto, não só é este miasma de atrocidades quatrocentistas a primeira longa-metragem de Lukas Feigelfeld, como também se trata do filme-tese com que o cineasta austríaco concluiu os estudos superiores. No panorama do cinema de terror, é difícil encontrar uma estreia tão segura e ambiciosa como esta obra, onde, mais do que assinar uma dramatização comum de uma história horripilante, Feigelfeld parece ter decidido construir um manifesto sobre o terror em si, sobre o medo, sobre aquilo que nos perturba a psique e faz o coração palpitar.

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Partindo de temas que lhe são queridos como os efeitos da solidão e uma crítica da sistemática demonização da sexualidade feminina ao longo da História, o cineasta situa “Hagazussa” nos Alpes austríacos do século XV. Aí, a sua câmara documenta a vida de Albrun, que nos é apresentada como a pequena filha de uma pastora que vive isolada da comunidade local. Não há grande meditação explícita sobre esta dinâmica social, sendo que qualquer tipo de verbalização é uma raridade imensa neste filme, mas o isolamento de Albrun e sua mãe depressa encadeia vários horrores na vida da menina, que é forçada a testemunhar o definhar da mãe face ao flagelo da peste negra.

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O inferno na Terra.

Muitos anos passam e Albrun é agora adulta, tendo há muito preenchido o lugar da sua mãe como pária da comunidade local, rejeitada por aldeões e clero com igual desdém e umas quantas acusações de bruxaria. O facto de Albrun, tal como sua mãe antes de si, ter uma filha com um pai ausente não ajuda de todo à situação. Por momentos, parece que uma das aldeãs se quer aproximar da nossa protagonista, mas depressa isso causa mais violações físicas e psicológicas, humilhações e atos de extrema crueldade que fazem com que a mãe solteira caia numa espiral de psicose muito auxiliada pelas qualidades psicotrópicas de cogumelos selvagens. Daí floresce pura loucura.

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Mais do que um conto de horrenda bruxaria, este é um filme sobre horrores mais viscerais, diferenciando-o em muito de “A Bruxa”, outra obra cinematográfica com que “Hagazussa tem sido comparado de modo enfático.  O horror aqui é o horror da morte, da doença, de ver os nossos entes queridos definhar, o horror da podridão, o pesadelo de uma comunidade que nos rejeita, do vento e das sombras da floresta, da escuridão e do desconhecido. Há tanto horror no nosso mundo que não são precisas bruxas para nos fazer gritar, cobrir os olhos e suplicar por algo que nos apazigúe a alma. Chamarmos a esses medos obra de Satã, de bruxas, de demónios, é somente uma pueril tentativa de impor narrativas racionais num universo onde a razão não tem lugar.

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No entanto, dentro do filme de Feigelfeld, que segue o exemplo cinematográfico de autores como Ingmar Bergman, não há ficção humana mais obscena ou destrutiva que a religião. Nesta história, onde sacerdotes apenas atiçam as labaredas do preconceito contra Albrun, a religião é a ordem que impomos no mundo, marca máxima da arrogância humana que, não conseguindo entender toda a grandiosidade que nos envolve, tenta impor uma explicação que também abre caminho para a salvação. Esta é a tirania que permite a pessoas imporem sua superioridade artificial às outras, hierarquizando a humanidade, pervertendo-a. Pelo menos, assim o é no inferno terreno de “Hagazussa”.

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Certamente que, com seus altares forrados a ossadas, cavalos que galopam pela neve como mensageiros do apocalipse e vestes negras, as figuras do clero parecem manifestações da Morte no contexto da narrativa. Contudo, aqui, essa demonização estende-se a tudo e todos. Uma mulher a morrer de peste bubónica, por exemplo, é, aos olhos da filha pequena, algo saído de “O Exorcista”. Auxiliado pelo som expressivo e pela prestação de Claudia Martini, Feigelfeld invoca algo verdadeiramente assustador, exumando medos ancestrais da nossa cultura e temores intrínsecos à nossa condição animal. É algo primitivo e horrendo em igual medida e, não querendo entrar em demasiados spoilers, nem é o pior momento de desespero de uma mãe dentro desta tortuosa experiência.

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Um filme de horrores viscerais.

Em suma, “Hagazussa”, mais do que uma história, é um catálogo de sofrimento humano que se desenrola a ritmo glacial, forçando-nos a ponderar os espetáculos de degradação humana e natural. A experiência geral é quase insuportável, mas não deixa por isso de ter mérito cinematográfico. Aliás, “Hagazussa” é um dos filmes de terror mais formalmente exímios dos últimos tempos, usando com astúcia as particularidades da gramática audiovisual da sétima arte como catalisadores e dissecadores do medo. Desde as paisagens alpinas até ao mais ínfimo detalhe da anatomia humana ou até mesmo o som da respiração, tudo na existência de Albrun é uma potencial fonte de pesadelos.

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Logo de início vemos como a fotografia de Mariel Baqueiro, não obstante a beleza dos Alpes, tudo faz para distorcer a realidade natural até dela obter o palco de pesadelos terrenos. A montagem hipnotiza-nos com a sua lentidão observacional, mas depois também se torna num instrumento de confusão. O mais formidável de tudo é o trabalho sonoro, com músicas amorfas que lembram o cântico de uma baleia que nada no inferno, suas vocalizações reverberando pelos quilómetros de terra entre o reino de Satanás e nosso mundo dos mortais. É o som da terra que treme com malvadez, mas também há o som do vento que uiva como se possuísse a voz de infinitas almas sôfregas. Não há salvamento ou fuga deste pesadelo, até o ar nos sufoca de medo.

Enfim, com tudo isto dito, é difícil recomendar “Hagazussa” sem nenhuma ressalva. Este não é um filme fácil de experienciar, sendo que toma posse do nosso ser e nos intoxica com inquietação. Trata-se do tipo de inquietação que pouco tem que ver com emoção ou racionalidade, existindo num patamar de visceralidade física. Ver “Hagazussa” é sentir os ouvidos doer e as vísceras a remexer-se no nosso corpo, é querer vomitar quando testemunhamos algo tão sacrilégio que o estômago se quer revoltar contra o que está a ser projetado diante dos nossos olhos. Para quem aprecie tais tormentos cinematográficos ou tenha interesse no modo como o cinema consegue causar tais efeitos, então este é o filme perfeito. Para outros espectadores, tenham cuidado e não digam que não vos avisámos.

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Hagazussa, em análise
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Movie title: Hagazussa

Date published: 7 de September de 2018

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Director(s): Lukas Feigelfeld

Actor(s): Aleksandra Cwen, Celina Peter, Claudia Martini, Tanja Petrovsky, Haymon Maria Buttinger

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Genre: Terror, 2017, 102 min

  • Cláudio Alves - 85

CONCLUSÃO

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Genialmente malévolo, um pesadelo, uma obra-prima que não queremos voltar a experienciar na vida. Assim é “Hagazussa”, uma maravilha formalista, cheia de audácia e horror que merece tanta admiração como repugna.

O MELHOR: A abordagem formal e seus efeitos viscerais no espetador.

O PIOR: Para além dos extremos de atrocidades cometidas ao longo desta experiência e da lentidão glacial que há de aborrecer muitas pessoas sem paciência para tais ritmos dramáticos, “Hagazussa” tem como principal fragilidade a sua condição enquanto um puro exercício de medo. Afinal, tanto sofrimento, mesmo que ficcionado, tem razão de existir se o único propósito da sua existência nem sequer é entreter pessoas, mas simplesmente refletir sobre o tema do medo?

CA

Overall
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  1. ALBERTO 17 de Dezembro de 2018

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