Her Smell - A Música nas Veias | © Cinemundo

Her Smell – A Música nas Veias, em análise

Elisabeth Moss é uma supernova de caos e loucura em “Her Smell – A Música nas Veias” de Alex Ross Perry, um filme que é tão mais interessante pelas suas monstruosas imperfeições.

Desde que “Mad Men” provou ao mundo que Elisabeth Moss é uma das melhores atrizes da sua geração, a atriz tem vindo a cimentar essa mesma reputação com uma panóplia de projetos ousados e papéis transformativos. Se é na TV que Moss tem encontrado maior aclamação, é no grande ecrã que a atriz tem confrontado os seus projetos mais desafiantes. Entre essas muitas aventuras cinematográficas, que incluem duas instâncias em que a atriz teve de interpretar mais que uma personagem (“The One I Love” e “Nós”), há que se dar destaque às colaborações de Moss com o realizador americano Alex Ross Perry. Em certa medida, podemos declarar que Moss é a grande musa de Perry, ou então a sua atriz fetiche.

Alex Ross Perry, que parece decidido a revitalizar as estéticas do cinema dos anos 70, certamente sabe tomar proveito da flexibilidade interpretativa de Elisabeth Moss e, quer seja em papéis secundários ou principais, está sempre pronto a confrontá-la com autênticas montanhas russas de variação tonal e vários registos de estilização. Realizador e atriz parecem estar em perfeita sintonia e nenhum deles encontrou, até agora, outro colaborador melhor. Com isso dito, “Her Smell – A Música nas Veias” é facilmente caracterizado como a magnum opus desta parelha, representando tanto um epíteto de ambição para o realizador como um píncaro de loucura camaleónica para Moss.

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Neste ensandecido estudo de personagem, Perry centra as suas experiências cinemáticas em volta de uma roqueira em devaneio e metamorfose. A artista em questão é uma narcisista monstruosa que dá pelo nome de Becky Something e a sua banda alternativa é a “Something She”. Por entre os fumarentos labirintos de bastidores e estúdios de gravação, vamos observando esta caótica personagem desde os píncaros do sucesso, passando pela desintegração da banda, o declínio pessoal e profissional, até um momento de momentâneo renascimento. É uma redenção depois de Becky ter passado pelo inferno e ter forçado todos à sua volta a acompanhá-la na viagem.

Antes desse final esperançoso, contudo, temos de ver Becky no seu pior e, graças aos esforços de Perry e Moss, tal experiência consegue ser ainda mais cativante que testemunhar a evolução da cantora. Quando a encontramos pela primeira vez, nos bastidores do último concerto de uma digressão trabalhosa, a vocalista das “Something She” é uma tempestade de movimento irrequieto, ela é o caos personificado. Os seus cabelos são uma juba emaranhada, a cara está coberta de maquilhagem esborratada e a postura projeta a arrogância de uma estrela que sabe o poder que detém sobre aqueles que orbitam em seu redor. Moss é feroz e instável, prende-nos a atenção com seu carisma e afugenta-nos com sua interpretação abrasiva.

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Sob o efeito de inúmeras substâncias e intoxicada pelas palavras pseudo espirituais de um xamã de Hollywood, Becky serpenteia pelos corredores e camarins e com ela vai a câmara de Perry. Os takes são longos e o seu movimento é errático, tão pronto a estabilizar em momentos de observação pausada como a explodir em repentinas corridas. Moss como que enfeitiça o próprio ponto de vista que a audiência tem do ambiente e subjuga o espectador aos ritmos de Becky. O realizador, pela sua parte, deixa-se subjugar à criação da atriz sem oferecer qualquer resistência, fazendo de “Her Smell” um reflexo de uma pessoa instável e com uma presença sufocante, alguém que não está interessado em ouvir mais ninguém que não ela própria e que tem tendência a deixar-se levar por pânicos paranoicos.

Como já dissemos, Perry faz isso através do movimento da câmara, mas esse é somente um dos seus muitos truques. Há uma atenção imensa dada a detalhes aparentemente inócuos como o fumo de cigarro que forma abóbadas cancerígenas dentro de camarins claustrofóbicos ou o verniz lascado nas mãos de quem toca guitarra. O próprio som parece querer imergir à força o espectador na subjetividade das personagens, na subjetividade de Becky, num mundo de gritaria abafada e testes de instrumentos na distância. É ensurdecedor e sufocante, mesmo nos poucos instantes de calma no universo desta cantora.

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Em termos técnicos, puramente formais, há muito que se admirar no trabalho que Alex Ross Perry e a sua equipa aqui produziram. Dividindo-se em cinco capítulos na vida de Becky, “Her Smell” é um estupendo exercício em imersão sensorial por meio da linguagem do cinema. Além disso, é uma estupenda montra para o melhor elenco que o realizador alguma vez reuniu. Contudo, existe uma intransponível superficialidade a marcar todo o filme. Perry é obcecado com Becky, mas nem ele nem a sua câmara parecem interessados em explorar quem ela é para além das mais espalhafatosas variações de imagem, emoção e energia. O filme é como uma visita a um jardim zoológico de divas punk, onde podemos admirar as criaturas exóticas, mas elas estão sempre atrás de um vidro. Ainda para mais, o realizador está curiosamente desinteressado em examinar a cantora enquanto criadora de Arte.

“Her Smell” seria assim uma experiência fascinante, mas fracassada, um estudo de personagem que se recusa a estudar a personagem. Seria assim, se não fosse Moss. Ao contrário de Perry, a atriz parece ter interiorizado as contradições e transformações de Becky, sintetizando as várias facetas da figura até obter uma personagem tão mais interessante pela batalha que se combate por detrás dos seus olhos, entre a incapacidade de mudar e a vontade de evoluir. Nas mãos de Elisabeth Moss, Becky Something não é uma ideia efémera ou um mecanismo estéril de um guião mal esboçado, ela é uma mulher dolorosamente humana. A estrutura episódica do filme faz com que a atriz não possa construir um arco narrativo coerente para a personagem, mas Moss sugere o que o filme se recusa a mostrar ao espectador.

Há quem se recuse a nomear um ator como autor de cinema, preferindo atribuir esse estatuto somente a realizadores. Contudo, neste particular caso, é óbvio que Elisabeth Moss é, no mínimo, uma coautora ao lado de Perry. Mais ainda, é da atriz que vêm as contribuições que tornam esta experiência em algo verdadeiramente imperdível. O filme é demasiado superficial e demasiado longo, pode ser aborrecido e as suas mirabolantes soluções formais impressionam ao mesmo tempo que asfixiam.  Apesar de tudo isso, o filme tem Elisabeth Moss no seu melhor e olhar para ela no papel de Becky Something é como olhar para uma supernova, algo tão magnífico que é quase incompreensível. Claro, é uma caracterização caótica e confusa, indisciplinada e excessiva, mas nada podia ser mais apropriado para uma diva punk. Becky Something é o caos e o caos pode ser maravilhoso.

Her Smell - A Música nas Veias, em análise
Her Smell

Movie title: Her Smell

Date published: 2019-07-11

Director(s): Alex Ross Perry

Actor(s): Elisabeth Moss, Agyness Deyn, Gayle Rankin, Cara Delevigne, Amber Heard, Dan Stevens, Eric Stolz, Virginia Madsen, Ashley Benson, Daisy Pugh-Weiss, Hannah Gross, Eka Darville, Lindsay Burdge, Dylan Gelula, Angel Christian Roman

Genre: Drama, Música, 2018, 134 min

  • Cláudio Alves - 70
70

CONCLUSÃO:

“Her Smell – A Música Nas Veias” é uma curiosa explosão de indisciplina e loucura formalista que rebenta pelas costuras em ambição. No entanto, a abordagem do realizador resulta num trabalho claustrofóbico e textualmente anémico que só chega aos píncaros que alcança devido a um elenco capaz de dar forma aos devaneios de Alex Ross Perry. Elisabeth Moss, em particular, brilha em longos planos sequências e cenas musicais que comovem e impressionam, que chocam e dão vontade de nos levantarmos das cadeiras do cinema e aplaudirmos a atriz.

O MELHOR: Elisabeth Moss.

O PIOR: A superficialidade com que Alex Ross Perry aborda a exploração de Becky enquanto personagem, protagonista, mulher, agente do caos, mãe e artista.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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