LEFFEST ’16 | O Herói de Hacksaw Ridge, em análise

Em O Herói de Hacksaw Ridge, Andrew Garfield dá vida ao primeiro objetor de consciência a ser condecorado com uma Medalha de Honra na história do exército americano.

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Na sua carreira como realizador, Mel Gibson tem-se mostrado um cineasta obcecado com a representação de violência, sua visceralidade e potencial para ser usado como elemento choque e, recentemente, êxtase religioso. Em 1996, Gibson chegou mesmo a arrecadar o Óscar para Melhor Realizador pelos seus sanguinários esforços em Braveheart, um filme que, apesar da sua carnificina, parece um programa infantil quando comparado com o torture porn bíblico que foi A Paixão de Cristo. Tudo isto para esclarecer que não haverá em Hollywood um realizador menos apropriado para retratar a vida do mais famoso objetor de consciência na história militar americana que Mel Gibson.

Dermot Doss foi um adventista do sétimo dia que, durante a 2ª Guerra Mundial, se alistou voluntariamente no exército americano mas que, aquando do seu treino, se recusou veemente a sequer tocar numa arma. Nas suas convicções morais e religiosas, matar era imperdoável e, por isso, Doss recusou ser parte ativa de qualquer tipo de violência física, escolhendo ser um médico de campanha e acabando assim por ser o único soldado americano que foi para o inferno da frente no Pacífico sem qualquer armamento para sua proteção. No final, depois de ter sido ostracizado pelos seus colegas, Doss provou-se um herói quando conseguiu salvar, sozinho, mais de setenta homens que tinham ficado caídos no campo de batalha em Okinawa.

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Portanto, é fácil entender por que razão um cineasta seria levado a filmar a história deste honroso herói. O problema não está na intenção de criar uma obra biográfica, mas sim na sua execução. Basta vislumbrarmos alguns momentos do terceiro ato de O Herói de Hacksaw Ridge para nos apercebermos de uma contradição que rasga toda a ideologia do filme. Enquanto estamos a ver uma defesa e celebração do pacifismo de Doss, Gibson coloca todo o seu esforço e considerável talento cinético em construir um autêntico inferno de carnificina gráfica, levada a extremos de horror.

É como se o cineasta australiano tivesse decidido repetir a proeza que Spielberg fez na célebre abertura de O Resgate do Soldado Ryan só que, ao invés de criar uma experiência de desconcertante imersão sensorial, o trabalho de Gibson é demasiado polido e teatral na sua extravagância, sugerindo algo mais próximo do grand guinol do que do trauma psicológico. E isto é sem sequer contarmos com a nojenta desumanidade com que Gibson reduz as tropas japonesas a monstros cujo único propósito é serem assassinos animalescos ou morrerem de forma vistosa e em pornográfica câmara lenta.

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No entanto, num ato de perfeita incoerência tonal, o filme constantemente corta de pormenores de vísceras a serem devoradas por ratazanas ou japoneses a gritarem enquanto são consumidos por lança-chamas, para a face horrorizada de Doss. Em momentos assim é como se Gibson se estivesse a recriminar a si mesmo e seu impulso de tornar violência numa comodidade de entretenimento, que é, no seu âmago, uma abjeta contradição dos valores de Doss. Ao longo da narrativa, vários colegas de Doss olham para ele com incredulidade e um ódio que é tão direcionado para ele como para si mesmos, cristãos que recontextualizaram as suas crenças como modo de defenderam os seus atos na guerra. Na sua forma final, o filme não é tanto um retrato de Doss, como um retrato do sentimento desses outros soldados que, quando olham para Doss, sentem tanta admiração como incompreensão e hostil autorrecriminação.

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E não há dúvidas que Gibson admira o seu protagonista pois, até um certo ponto, O Herói de Hacksaw Ridge é mais próximo de A Paixão de Cristo do que de Braveheart, apontando para Doss como uma figura quase messiânica ou, no mínimo, santa. Veja-se, por exemplo, a imagem de Doss suspenso numa maca segurada por cordas, quando a câmara sobrevoa a sua figura e o olha de baixo, simulando o movimento do seu corpo a ascender aos céus. De facto, mais do que um herói humanista e pacifista, Doss é reduzido a uma figura de inflexível fé e superioridade moral face aos seus colegas que, na sua feia inferioridade, nunca são exaltados com o mesmo tipo de pureza angelical com que Doss é capturado pela câmara de Gibson.

Mesmo as cenas passadas na pacífica quietude da sua terra natal são pintadas com uma pátina de glorificação quase canónica. O diálogo, terrivelmente irreal e afetado, é de uma inocência e pirosice que levariam até Frank Capra acusar os argumentistas de serem demasiado sentimentais. Os visuais não ficam longe, emulando os tons de domesticidade dourada das pinturas de Norman Rockwell. Em tal contexto, é difícil não imaginar Doss como um Jimmy Stewart renascido e sua amada enfermeira como a sua Donna Reed com corações nos olhos – é certo que as suas interações são tão castas como as desse icónico par do cinema americano no rescaldo da guerra.

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Aliás, a única razão pela qual o edifício do filme não cai imediatamente por terra face à imperdoável mediocridade simplista do seu texto é Andrew Garfield no papel de protagonista. Como Doss, o ator britânico consegue o milagroso logro de tornar a sua personagem num ser humano coerente e não meramente num símbolo de piedade cristã. Se nas cenas iniciais é o seu carisma de estrela de cinema que carrega o grande peso da sua tarefa, no campo de batalha é a sua capacidade e para incluir momentos de negrura psicológica no esforço sobre-humano de Doss que realmente marcam a diferença entre um humano em heroico sofrimento e um símbolo de santidade a ser canonizado por um cineasta jingoísta.

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O Herói de Hacksaw Ridge acaba por se provar um filme em guerra consigo mesmo, uma conflagração de contradições ideológicas tão complicadas e voláteis como a imagem pública do seu realizador. Se Gibson se continua a provar um mestre da violência no grande ecrã com a montagem, efeitos visuais e sonoplastia a merecerem particular ênfase, os seus talentos para o drama humano continuam a deixar muito a desejar.

Com tudo isso em consideração, assim como a fabulosa prestação e Garfield, mesmo assim o que fica na mente da audiência é como, nesta sua celebração de Desmond Doss, Gibson fez um filme que trai as crenças e ideias que estiveram no centro do seu heroísmo e valor. O mais triste de tudo é que, pelo modo como as cenas de guerra estão editadas, o próprio cineasta parece estar a criticar a sua ineptidão face à complexidade deste herói de carne e osso.

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O MELHOR

A heroica prestação de Andrew Garfield que quase consegue redimir os mais problemáticos aspetos do filme e contrariar os impulsos mais simplistas do guião, forçando alguma coerência e complexidade humana a uma personagem que, no papel, é pouco mais que um símbolo de fortitude e superioridade moral.

O PIOR

 A contradição ideológica entre o herói celebrado e o modo como a sua vida e experiências no campo de batalha são retratadas.



Título Original:
 Hacksaw Ridge
Realizador: Mel Gibson
Elenco:
 Andrew Garfield, 
Teresa Palmer, Hugo Weaving, Vince Vaughn, Rachel Griffiths
NOS | Drama, Biografia, Guerra, Ação | 2016 | 131 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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