LEFFEST ’18 | The House That Jack Built, em análise

The House That Jack Built” leva todos os aspetos mais problemáticos do cinema de Lars von Trier à sua hedionda apoteose. O filme foi exibido como parte do programa do Lisbon & Sintra Film Festival de 2018.

Pedimos desculpa aos nossos leitores habituais e a qualquer alma perdida que aqui venha procurar uma crítica do mais recente filme de Lars von Trier. Entenda-se que, face à obra em questão, elaborar uma crítica seria tanto uma perda de tempo como uma clara perversão das intenções autorais de “The House That Jack Built”. Como tal, aqui se apresenta uma mensagem sentida para o mestre von Trier. Como o realizador compôs com o seu filme uma mensagem quase direta a todos os seus críticos e admiradores, seus críticos e antigos admiradores tentam responder com a mesma frontalidade.

leffest novidades roma suspiria
Isto não é uma crítica.

Caro Lars von Trier,

Apesar da aparência deste texto e das palavras “em análise” no título da página, isto não é uma crítica. É necessário reforçar a ideia, pois tentar criticar um tão grande “mestre da Arte” seria uma traição de tudo aquilo a que “The House That Jack Built” se propõe a fazer. Se há um filme que não queremos apresentar de modo injusto é esse, preferindo deixá-lo mostrar o que vale aos infelizes que se tenham condenado a si mesmos a serem reféns de tão pérfida criação.

Considerando que, neste filme, o senhor se compara a um serial killer em conversa com Virgílio no caminho para o Inferno, julgamos que o uso da palavra “pérfida” não deverá ser nenhuma ofensa. Presumimos até que seja o tipo de reação esperada para este exercício em cinema do choque. Que outra razão haveria para nos mostrar a diversão cómica que é uma mulher estrangulada a contorcer-se nos últimos momentos de vida? Ou para a gráfica escultura taxidérmica do cadáver de uma criança para que esta sorria eternamente? Ou para a cena em que uma mulher é insultada e denegrida antes de os seus seios serem cortados do corpo, um deles deixado num para-brisas da polícia e o outro tornado numa carteira?

Seus fãs podem prestar vassalagem ao altar de tais choques, mas admitimos que começa a existir uma pátina de antagonismo juvenil nestes trabalhos assinados pelo autocoroado rei da polémica. Isto não é uma crítica, mas confessamos estar tristes quando exploramos as profundidades destas provocações e só encontramos um vácuo mesclado com uma terrível falta de originalidade. Afinal, referenciar Blake nestes contextos e inserir imagens de caça, de presas e predadores, é o tipo de analogia que esperaríamos de um estudante universitário pretensioso sem grandes referências, que acredita ser portador da verdade e sofre de uma necessidade crónica em ser o centro das atenções.

Atenção, isto não é uma crítica nem um diagnóstico. Somente uma lista de observações. Por exemplo, observamos que, se queremos ver um homem dinamarquês masturbar-se durante duas horas e meia, existem sites gratuitos na internet que possibilitam tais experiências. É uma opção mais simpática para a carteira que ver a sua nova magnum opus e nem temos de sair de casa. Oxalá a fotografia do grande Manuel Alberto Claro nos mostrasse algum interesse visual, mas tirando o uso meio amador de zooms e câmara tremida em pose de realismo, não há grande oferta visual a justificar o grande ecrã. Isto não é uma crítica.

Talvez, Claro tenha ficado tão aborrecido com o festim de provocação ofensiva como nós. Uma Thurman certamente parece estar aborrecida, oferecendo o seu pior desempenho desde há anos como a primeira vítima do assassino titular que, além do seu fado, tem de ser retratada como um poço de irritação e estupidez sem fundo. O próprio texto do filme chama a atenção para a misoginia de tais retratos e torturas sobre psiques e corpos femininos. Contudo, perdoe-nos se não aceitamos tais jogos como uma inoculação à crítica. Há quem diga que não é um filme misógino, mas sim um filme sobre misoginia. Nós não engolimos a mentira.

Lê Também:
71º Festival de Cannes (8): Koreeda, Lee e Von Trier

De facto, se há algo que o excelentíssimo mestre von Trier parece odiar mais que mulheres é a sua própria pessoa, ou talvez seus fãs. Por muito que o filme se esforce para ofender feministas e críticos do seu trabalho, é o próprio von Trier que se mostra como o alvo máximo do ódio e asco, assim como aqueles que dizem ver arte nas suas façanhas. Por isso mesmo, tentamos conter nosso desprezo. Entenda-se que não queremos participar no jogo do autor desta sessão de terapia extrapolada em forma de filme. Isto não é uma crítica, somente uma aceitação de derrota e ofensa face a estes horrores

Enfim, considerando o caráter frontal e vagamente insultuoso deste texto, é possível que tenhamos caído no seu jogo de provocação vácua. Somos meros humanos e certamente não chegamos aos calcanhares do mestre que tanto gosta de desenhar tormentas sem fim para as suas personagens, que acha que o niilismo é rei e que agora se compara a Botticelli, Hitler, Mussolini e tem a ousadia de colocar imagens das vítimas reais de genocídios ao lado de passagens dos seus antigos filmes. Como se os horrores se comparassem!

É precisamente nesse ponto que queremos oferecer um gesto de simpatia e conforto. Não diga que não somos simpáticos e compreensivos. Por muito importante que o Sr. von Trier se considere, asseguramos que a sua obra nunca terá a mesma relevância que os horrores da História a que se tenta comparar. Esteja calmo, Sr. von Trier, o seu trabalho não é tão importante assim. Se julga que o Mal existe concentrado nos seus filmes, desengane-se, pois é impossível que tais jogos de ofensa meio infantis tenham tamanha relevância.

Nós, por aqui, reduzimo-nos à nossa irrelevância e falta de importância e aconselhamos a que o cineasta faça o mesmo, mesmo que saibamos que nunca vai ler estas palavras. Pelo menos, parece ser um bálsamo para alma mais eficaz que subjugar as pessoas a monstruosidades como “The House That Jack Built”, onde o metacinema finalmente se torna numa serpente a comer o seu próprio rabo. Outro conselho que damos é que ninguém leia este texto e decida não ir ver o filme. Há obras que têm de ser vistas para se acreditar que existem e esta é uma delas. Atenção que isto não é uma crítica.

Além do mais, garantimos que há pessoas que se vão rir das piadas misóginas do filme e que até na cena da tortura psicológica de uma mulher constantemente insultada por ser pouco inteligente existe aparente comédia. Pelo menos é o que as gargalhadas na sala de cinema indicaram. Isso ou as pessoas não sabem como a reagir a tais coisas senão com um riso nervoso. Em todo o caso, não queremos julgar ou criticar o público que possa encontrar prazer na cena. Ficamos felizes por tais pessoas que consigam aguentar esta experiência melhor que quem aqui escreve.

Essas audiências não merecem, não há interesse em tal acusação e o filme já o faz de modo bastante explícito e moralista. Pelo menos, o riso é uma reação e se há algo que os artistas detestam é a indiferença. “The House That Jack Builts” não deixará ninguém indiferente. Aborrecido, insultado, ofendido, enojado, jubilante, entretido, castigado, ensinado, derrotado, vomitado, intelectualmente frustrado, violentado e moralizado talvez, mas nunca indiferente. Parabéns?

Cumprimentos de quem antigamente defendia o seu trabalho e finalmente desistiu de tais folias.

PS: Isto não é uma crítica.

the house that jack built critica leffest
Isto não é uma crítica.

The House That Jack Built, em análise
melhores posters the house that jack built

Movie title: The House That Jack Built

Date published: 2018-11-24

Director(s): Lars von Trier

Actor(s): Matt Dillon, Bruno Ganz, Uma Thurman, Siobhan Fallon Hogan, Sofie Gråbøl, Riley Keough, Jeremy Davies, Ed Speleers, David Bailie, Ji-tae Yu, Cohen Day, Rocco Day, Osy Ikhile

Genre: Drama, Terror, Thriller, 2018, 152 min

  • Cláudio Alves - 1
  • José Vieira Mendes - 3
2

CONCLUSÃO

Isto não é uma crítica. O filme não merece uma crítica. Perdoem-nos o pretensiosismo de tais afirmações e a repetição redundante, mas assim é a situação e só seguimos o exemplo do mestre von Trier quando nos desdobramos em repetições redundantes.

O MELHOR: Como isto não é uma crítica, não vale a pena apontar o que é melhor no filme que não estamos a criticar.

O PIOR: Como isto não é uma crítica, não vale a pena apontar o que é pior no filme que não estamos a criticar.

CA

Sending
User Rating 2.33 (6 votes)
Comments Rating 0 (0 reviews)

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Sending