Maria Vitória: a crítica
Uma das maiores tragédias que assombra o nosso país nos últimos anos são os incêndios florestais. Pois todos os anos, no decorrer do verão, chegam-nos inúmeras notícias de florestas de norte a sul do país que ficam totalmente destruídas graças aos fogos. Porém, durante os meses seguintes, esquecemo-nos daqueles que perderam casas e familiares, que continuam a sofrer mesmo não aparecendo nas notícias diariamente.
É nesta direção que Mário Patrocínio aponta a sua câmara, mais especificamente para a jovem Maria Vitória, cujo nome dá o título a esta longa-metragem que se estreia hoje, dia 5 de março, nos cinemas portugueses. O filme conta-nos a história de Maria Vitória (Mariana Cardoso), uma rapariga que vive numa pequena aldeia afetada pelos incêndios, no interior do país, e joga futebol na equipa de futebol local. Determinada a tornar-se profissional, Maria dedica todo o seu tempo em cumprir o objetivo que ela e o seu pai (interpretado por Miguel Borges) tanto desejam. Porém, o regresso do seu irmão Bruno (Miguel Nunes) gera um conflito familiar que resgata memórias de um passado mais feliz, antes do falecimento da mãe de Maria.
O que é Maria Vitória?
A primeira cena é misteriosa, mas é uma ótima introdução para o que aí vem. Já que é a única cena que nos mostra realmente as personagens nos dias fatídicos do incêndio que marcou as suas vidas para sempre. O restante é o presente, mas o fantasma da tragédia está sempre lá para assombrar as personagens. É nisto que a câmara de Patrocínio para e reflete, através de momentos marcantes de silêncios em que somos chamados para a floresta queimada que assombra as personagens, sem qualquer palavra.
A forma como Mário Patrocínio trabalha a tragédia e o luto é o ponto forte do filme. Sobretudo quando as próprias personagens têm dificuldade em abordar o tema em palavras, mas o subtexto está presente e é muito forte. Isto dá-se em grande parte graças às boas atuações do elenco.
Miguel Borges faz um pai intenso e exigente, embora por vezes a sua personagem caia num estereótipo de homem alcoólico vindo do interior que vive para o futebol e não consegue falar sobre o que sente. O que acaba por ser mais culpa do argumento do que do trabalho do ator, que responde bem ao que a personagem pede nesse sentido.
Miguel Nunes interpreta um filho desalojado e desenquadrado com o contexto familiar que no passado recusou. Volta para Portugal após muito tempo emigrado e assume-se homossexual, outro tema que está presente em todo o filme e que Miguel Nunes é bem sucedido em trazer o peso necessário.
Porém, a grande revelação deste elenco é a protagonista Mariana Cardoso, que nos mostra que conseguimos encontrar talento jovem a atuar em Portugal. Já que Mariana entrega uma atuação sensível, física e complexa, convencendo em praticamente tudo, até na difícil tarefa de ser guarda-redes. A jovem atriz consegue a difícil proeza de trazer Maria Vitória à vida na perfeição, mesmo a personagem exigindo tanto da sua atriz.
Incêndios e futebol no interior do país

“Maria Vitória” é um filme ambicioso, o que é uma virtude, porém também o seu maior defeito. Já que o filme conta com um elenco enorme, cheio de estrelas do cinema e da televisão. Logo, também cheio de personagens que o filme não consegue desenvolver na totalidade durante os seus 114 minutos de duração. Atores como Joana Ribeiro, Rui Pedro Silva, Ana Cristina Oliveira, entre outros, parecem pouco aproveitados pelo argumento. Já que não têm nem o desenvolvimento nem o tempo de tela necessário.
Isto acontece pois “Maria Vitória” é um filme que não sabe ser económico. Quer falar da homossexualidade, do futebol, de dinâmicas familiares, de luto, dos incêndios, e outros mais. Porém, embora consiga desenvolver alguns destes temas de forma satisfatória, outros parecem apressados e até desnecessários para um filme que tem um tema tão definido.
Por vezes, o olhar do filme para o povo do interior parece pouco desenvolvido e até caricatural em alguns momentos. Mesmo que haja uma boa intenção por trás das câmaras, por vezes o cinema português tem a tendência para olhar para a ruralidade de longe, mesmo quando acha que se está a aproximar da mesma. E é isso que acontece em “Maria Vitória”. Pois o filme não tem o tempo para desenvolver um olhar mais completo sobre os habitantes desta aldeia, acabando então por cair no lugar comum.
Conclusão
Em suma, “Maria Vitória” é um filme que, em grande parte, faz falta ao cinema português. É ambicioso, acessível ao público geral e traz uma reflexão intensa sobre as pessoas que sofreram com os incêndios que têm marcado o nosso país. Mesmo que, por vezes, tenha dificuldade em gerir um número tão grande de temáticas e personagens diferentes.

