Mark Ruffalo: O ‘Tuga’ de O Caso Spotlight

 

Mark Ruffalo é um dos atores mais respeitados de Hollywood e um dos mais fortes candidatos ao Óscar de Melhor Actor Secundário. Em ‘O Caso Spotlight’, de Tom McCarthy, interpreta Mike Rezendes, um jornalista de investigação, de origem portuguesa do The Boston Globe, o jornal que denunciou os primeiros casos de pedofilia no seio da Igreja Católica, em 2000.

 

Ruffalo é um jornalista de investigação.
Ruffalo é um jornalista de investigação.

 

Fez mais de 800 audições antes de conseguir o seu primeiro papel no cinema e ser o que é hoje. Atualmente tanto brilha na pele verde do incrível Hulk como na de um dador de sémen, um veterano campeão de luta livre, ou um jornalista de investigação de casos policiais, com um andar e um sotaque esquisito, que desvendou com os colegas, um dos grandes ‘mistérios’ da Igreja Católica. Mark Ruffalo tem, na verdade, como Hulk, quase que uma espécie super-poderes: superou um tumor cerebral benigno que o afastou oito anos do cinema. É capaz de passar despercebido no meio da voragem de Hollywood, uma cidade onde as estrelas se movimentam como se fossem uma comitiva presidencial. E Ruffalo é de facto uma estrela que conta já com três nomeações aos Óscar: ‘Os Miúdos Estão Bem’ (2010), ‘Foxcatcher’ (2014) e agora por ‘O Caso Spotlight’, além de ter interpretado Hulk, em ‘Os Vingadores’, filme que superou pela primeira vez na história de Hollywood a barreira dos 200 milhões de dólares (178,3 milhões de euros) de receita durante a sua estreia em 2012. Aos 48 anos Mark Ruffalo, assegura que a sua única obsessão é tornar-se um pai melhor.

Ver trailer de ‘O Caso Spotlight’

 

O ATOR DAS MIL CARAS

Nasceu em Wisconsin (EUA) há 48 anos, de ascendência ítalo-franco-canadense, é filho de uma cabeleireira e estilista, e de um pintor de casas. Mudou-se com sua família para Virgínia Beach, onde viveu quase toda a sua adolescência. Ao entrar para a universidade, mudou-se para San Diego, Califórnia, não muito longe de Los Angeles, sempre na Califórnia, onde teve aulas no Conservatório Stella Adler e onde foi co-fundador do Orpheus Theatre Company. Ruffalo passou praticamente todas as funções no teatro: representou, escreveu, e produziu inúmeras montagens, teatrais. Apesar de não ter tido uma vida fácil para chegar onde chegou, não se queixa e não necessita de um séquito ao seu redor. Tem um sorriso bonacheirão, um rosto normal, não é bonito nem feio, e os seus olhos castanhos brilhantes parecem dizer que desfruta cada minuto tanto de uma alegria interior, como do raro prazer do anonimato na sua profissão: “Posso desaparecer de um modo que para muitos muitos actores é praticamente impossível. Posso andar no Metro sem ser reconhecido. E isso é um luxo e o meu melhor prémio”. Desaparece no dia-a-dia, e ao mesmo tempo é o actor das mil caras no écran. Curiosamente torna todos os seus personagens radicalmente diferentes, distintos entre si e todos com algo de si mesmo. Em incrível Hulk tem tanto de Bruce Banner, o seu alter-ego, como no do boémio dador de esperma de ‘Os Miúdos Estão Bem’. A sua transformação mais evidente é em ‘Foxcatcher’, onde o actor se esconde atrás de uma barba negra rala e de um andar desengonçado para meter-se no papel do retirado campeão olímpico Dave Schultz. O mesmo acontece com o agente do FBI da saga ‘Mestres da Ilusão (2013)’, ou do activista gay que Larry Kramer escreveu para ‘The Normal Heart (2014)’, para citar alguns dos seus trabalhos mais recentes.

Ruffalo pode andar no Metro sem ser reconhecido.
Ruffalo pode andar no Metro sem ser reconhecido.

Posso desaparecer de um modo que para muitos muitos actores é praticamente impossível. Posso andar no Metro sem ser reconhecido.’

 

Todos estes papéis utilizam o corpo de Ruffalo como o melhor veículo para serem quem são, sem deixar no écran nem uma sombra do actor. É um actor tão diverso que consegue triunfar nos blockbusters de Hollywood, sem vender vender a ‘alma ao diabo’ e nem uma grama do seu espírito independente: “Não me sacrifiquei nada. Só cresci com esses filmes. Organiza-me a vida e é bom saber que poderei fazer umas férias tranquilas  com a minha família, em vez de estar a ter que fazer planos a curto prazo. Não só não há nada de mal em fazer projecto, como é mais fácil em termos de produção, que esses pequenos filmes que gosto tanto de fazer”. Poderia estar a referir-se  por exemplo a ‘Amor Polar’ (2014), o filme sobre um pai maníaco-depressivo que para recuperar a sua esposa, assume em pleno tomar conta das suas duas filhas.

 

SEMPRE QUIS SER ATOR

É uma estrela mas não se envaidece com isso. Se alguém sabe o que é difícil subir em Hollywood é este actor humilde e grande activista social. Sempre quis ser o que é: actor. É dos que torna os seus protagonistas, mesmo os secundários, em personalidades com carácter. Desde que viu ‘Um Eléctrico Chamado Desejo’ não imaginou outra coisa para o seu futuro que não fosse a interpretação. E, como Marlon Brando, estudou o método da actriz Stella Adler: “Não se trata de seguir um método mas antes usar a imaginação. Tudo o que queremos expressar está dentro de nós e há que procurá-lo aí. A Stella dizia que se conhece um personagem não pelo que diz mas pelo que faz.” Apesar durante anos ter estudado a técnica não lhe serviu de muito. Durante nove anos trabalhou como empregado de mesa do famoso e mítico hotel Chateau Marmont, em Hollywood. Foi necessária muita paciência e determinação: “Sabia que um dia havia de o conseguir. Sabia que pertencia aos actores, só tinha que os convencer. Não é fácil, quando se vem de baixo”. Foi pois como empregado de mesa que conseguiu dinheiro e margem de manobra para insistir em fazer teatro e audições. “Já não me imaginava a fazer outra coisa. Tinha afastado qualquer outra possibilidade de trabalho. Embora fosse pobre amava o teatro, fazia-o o tempo todo e era feliz. Era o que me fazia continuar. Mas sempre acreditei que acabaria por chegar lá e que iria aparecer alguma coisa de cinema nem que fosse uma bit part [um personagem que não pronuncia mais de cinco falas]”. De facto nada mais longe da realidade, pois há vários anos que Ruffalo é considerado um dos actores mais versáteis da indústria de cinema.

Um dos actores mais versáteis em 'Amor Polar'.
Um dos actores mais versáteis em ‘Amor Polar’.

“Sabia que um dia havia de o conseguir. Sabia que pertencia aos actores, só tinha que os convencer. Não é fácil, quando se vem de baixo”

 

OS AZARES DA VIDA

O seu nome começou a fazer eco em Hollywood com ‘Podes Contar Comigo’ (2000). Mas a euforia da fama não durou muito. Pouco tempo depois descobriram-lhe um tumor benigno no cérebro que o deixou um ano com o rosto parcialmente paralisado. Oito anos mais tarde consegui recuperar a sua carreira com algumas cicatrizes e uma leve sequela física: um olho mais descaído. No entanto, a tragédia voltou a bater-lhe à porta: o seu irmão Scott morria de um disparo de bala, que pareceu um ajuste de contas, mas que poderia er sido um infeliz desenlace de uma brincadeira à roleta russa. Agastado com tudo o que lhe aconteceu na vida de repente, o actor fez as malas e deixou tudo para reencontrar-se com a natureza, nos paisagens verdes e campestres, que ficam a duas horas a norte de Nova Iorque. Ali se fixou numa antiga vacaria com a sua esposa, Sunrise Coigney, e os seus três filhos: Odette, Bella e Keene, que agora têm entre 9 e 15 anos. Escolheu este sitio por ser “um lugar mais verde, com mais água, mais económico, onde gasto menos que em Los Angeles e posso passar mais tempo com a família”. Foi então que o seu amigo e colega Robert Downey Jr., com quem trabalhou em ‘Zodiac’ (2007), o  convenceu a participar em ‘Os Vingadores’: “Fiquei surpreendido com a sugestão, mas ‘Os Vingadores’, abriram-me uma porta para outros filmes que queria fazer, para os que não conseguia financiamento ou não me via a fazê-los”. Antes era um pouco contido. Por medo de ser julgado, ou de não ser suficientemente bom. Agora deixo que o meu coração e a minha alma me guiem”. Embora no segundo filme da sequela, Vingadores 2: A Era de Ultron, esteja incerto o futuro do herói: “Estava no argumento do terceiro filme mas tiraram-no. Suponho que contar onde está é uma revelação tão grande que querem guardá-la. Estará perdido por algum lado”.

Verde como o incrível Hulk.
Verde como o incrível Hulk.

‘Os Vingadores’, abriram-me uma porta para outros filmes que queria fazer, para os que não conseguia financiamento ou não me via a fazê-los”.

 

A INVESTIGAÇÃO DO ATOR

As memórias do grande jornalismo de investigação, quando os jornalistas era vistos como heróis e os jornais ainda ganhavam dinheiro com isso é efectivamente o tema principal de ‘O Caso Spotlight’, do realizador Tom McCarthy. O tema da pedofilia no meio eclesiástico da cidade de Boston em 2000, foi ponto de partida para muitas investigações por esse mundo fora. No filme passa a energia, o espírito de missão, e a ética dos jornalistas (interpretados Michael Keaton, Mark Ruffalo, Liev Shereiber e Rachel Adams), em procurarem a verdade independentemente dos poderes vigentes e das influências. Esta história real, com uma temática tão complexa como a de ‘ O Caso Spotlight’, tornou-se igualmente um grande desafio para Ruffalo. “Não é fácil interpretar os repórteres quando eles estavam ali à nossa frente enquanto actuávamos. Estávamos a falar de vítimas que sofreram. E contra uma das instituições mais monolíticas da história. Tudo isso fez aumentar a importância deste trabalho”. Para isso aplicou um método que aprendeu à base dos gritos de uma professora de teatro e que funciona sempre: “Ela dizia que tinha de conhecer completamente a minha personagem: ideias políticas, a música que escutava, a sua roupa, porque pensa e o que pensa. Como jovem actor passei quase mais tempo na biblioteca que nos cenários; às vezes até se parece com uma investigação jornalística”. Daí que, como bom repórter, reuniu-se várias vezes com Rezendes, até aprender a sua estranha maneira de se movimentar, a sua curiosidade inata e até o seu peculiar acento, que tem um toque ‘açorianizado’. Depois do trabalho de campo, Ruffalo ficava ainda com outro assunto pendente: “O problema de interpretar personagens reais é o de fazer por vezes uma ‘litografia’ em vez de uma pessoa viva. Conheço muito actores que não o tentariam, porque sentem que se perde a arte”.

Com o jornalista Mike Rezendes.
Com o jornalista Mike Rezendes.

‘Não é fácil interpretar os repórteres quando eles estavam ali à nossa frente enquanto actuávamos. Estávamos a falar de vítimas que sofreram.’

 

UM ATIVISTA EMPENHADO

O verde é a sua cor mais forte no écran sobretudo pelo seu trabalho como incrível Hulk,. É um ambientalista mas prefere vestir o azul. É um homem sensível que dedicou ao irmão o seu trabalho em ‘Os Miúdos Estão Bem’ e ao seu filho mais velho as fúrias de Hulk no seu personagem essa característica incontrolável de um adolescente. “Quando eu era jovem também tinha a corda mais curta. Agora fico furioso mas não perco tanto papéis”. Isso não quer dizer que tenha perdido rebeldia. O inconformismo está-lhe no sangue. E se Stella Adler o preparou para ser actor, também o ensinou a ser activista. Como dizia esta professora de interpretação, não pode existir um verdadeiro artista sem uma autêntica consciência social. E Ruffalo é um bom aluno. Esteva entre a multidão que ocupou Wall Street em protesto pelos contínuos excesso económicos do País, as sucessivas limitações aos direitos civis e liberdades que se vai assistindo nos EUA, como uma consequência dos atentados de 11-S. O seu activismo vem-lhe desde criança quando nos seus passeios pelo contaminado Lago Michigan, perguntava se os peixes tinham tumores. O seu engajamento político vem de filmes como ‘Há Lodo no Cais’, com o seu idolatrado Marlon Brando, mas também do famoso ‘Easy Rider’.

O elenco de 'O Caso Spotlight'.
O elenco de ‘O Caso Spotlight’.

“Quando eu era jovem também tinha a corda mais curta. Agora fico furioso mas não perco tanto papéis”.

É ainda promotor do Projecto Solução, que aposta num país capaz de gerar 100% da sua electricidade através das energias renováveis em 2050. Juntamente com Yoko Ono e Alec Baldwin, entre outros, encabeça a Associação Artistas Contra  o Fracking, contra a exploração de petróleo em profundidade, que pode afectar a crosta terrestre. Enquanto tudo isto desfruta de um dos melhores momentos da sua carreira e da vida. Espera talvez alcançar os 50 milhões de dólares que cobra actualmente por filme, o seu amigo Robert Downey Jr: “Não acredito. Meu Deus! Tanto dinheiro! É aliciante pensar que um dia poderei cobrar esse salário”, Fica a esperança pelo menos…mas não creio que seja para todos. E não ficaria mal repartir um pouco”. Mais que dinheiro, um dos seus objectivos é lançar-se na realização, pois tem aprendido muito e já trabalhou com grandes realizadores, como Martin Scorsese, David Fincher, Joss Whedon, Bennett Miller, Lisa Cholodenko, e agora com Tom McCarthy. No entanto, que aspira mesmo “é ser um melhor pai e um melhor cidadão num mundo melhor”.

 

JVM

 

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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