MONSTRA festival Mary & Max critica

MONSTRA ’19 | Mary & Max, em análise

Mary & Max” é uma pequena joia de animação stop-motion que conta a história da amizade entre uma menina australiana e um homem com Síndrome de Asperger a viver em Nova Iorque. É um dos filmes em destaque na programação de obras históricas da MONSTRA.

“Os olhos de Mary Dinkle eram da cor de poças lamacentas, e a marca na sua testa era da cor de cocó.” Estas são as primeiras palavras que o narrador desafetado de “Mary & Max” oferece ao espectador. São também uma perfeita sumarização do tom do filme que a audiência está prestes a ver. À boa moda das comédias australianas que fizeram furor nos anos 90, esta é uma narrativa cheia de humor negro, muito dele feito à custa da dor das personagens no centro da sua história. Os detalhes mais mundanos são retorcidos até se tornarem em píncaros de grotesco e existe também uma crueza linguística que quase ganha a qualidade de poesia da humilhação.

Ainda mal conhecemos a pequena Mary Dinkle, mas já sabemos que a sua existência não será menos que uma perversa piada cósmica apoiada no seu sofrimento e que, através dela, nos vamos rir e talvez até chorar. Afinal, é difícil não ficar um pouco comovido com a introdução à personagem, especialmente quando consideramos a torrente de outros detalhes que a narração nos dá. Ela é insegura e com um coração sempre aberto, mas é negligenciada por uma mãe alcoólica e um pai desinteressado. Sua vida escolar é um tormento e ela só parece encontrar uma escapatória da sua dor ora em sobremesas adocicadas, na companhia de um galo com ar de veterano de guerra ou num programa infantil pintado na cor preferida de Mary – castanho.

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Mary vive uma existência sôfrega em tons de castanho.

De facto, todo o seu mundo é feito de gradações de tabaco mascado e excrementos nauseabundos. Só o preto de alguns detalhes como seu cabelo, a brancura pastosa da cara abatatada e os lábios rubros da mãe, que estão sempre perfumados pelo aroma de xerez culinário, representam alguma variação visual. Tal paleta parece refletir o mesmo tipo de infelicidade generalizada que todo o design transmite com suas proporções exageradas e expressividade limitada. Contudo, seria erróneo dizer que não há algum charme no meio da miséria.

Do outro lado do Pacífico, pelo contrário, nada é castanho. Por aí, o cinzento domina tudo, qual ditador cromático. É numa Nova Iorque da cor de betão manchado pelo fumo de tubos de escape que encontramos o outro protagonista de “Mary & Max”. Tal como a menina australiana, Max Jerry Horovitz é um pária social sem amigos que encontra um bálsamo para o seu sofrimento no mesmo programa infantil que tanto deleita Mary. Se bem que, enquanto a menina gosta dos desenhos animados pois considera seus protagonistas monstrinhos adoráveis, Max aprecia-os pelo modo como as personagens vivem numa estrutura social bem delineada e articulada com uma constante adesão ao conformismo. No filme isto tem mais piada do que parece aqui.

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Ao longo da narrativa, as especificidades psicológicas de Max vão-se tornando mais óbvias, mas a sua apresentação inicial diz-nos tudo o que precisamos de saber sobre este homem obeso, viciado em chocolate, que não consegue ler as expressões faciais de quem o rodeia e tende a explodir em ataques de ansiedade. Uma das principais fontes desses ataques acaba por ser Mary que, certo dia, decide escrever para uma pessoa americana cuja morada ela escolhe ao calhas. Sua carta, apetrechada com um chocolate australiano, acaba nas mãos de Max e a partir daí, estas duas almas perdidas e solitárias desenvolvem uma correspondência amistosa. No início de tudo, mal eles sabem como esta troca de cartas lhes acabará por definir a vida.

O argumento escrito por Adam Elliot, que também realizou, desdobra-se numa série de narrações em voz-off, ou vocalizadas pelo narrador omnipresente ou pelas personagens a lerem sua própria escrita. Rara é a ocasião em que as figuras em cena têm direito a diálogos e o filme assim ganha a aparência de um texto ilustrado. Contudo, parte do génio desta abordagem devém do modo como a realidade material do mundo em muito se distingue das descrições feitas pelas personagens. Por vezes, somos confrontados com a disparidade entre a miséria visual e o otimismo quase maníaco de Mary, enquanto noutras ocasiões, a incompreensão emocional de Max colide com a claridade das situações caricaturadas.

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Max vive no cinzento, sendo que a única vitalidade cromática provém das prendas que Mary lhe envia.

A parte mais peculiar e magnífica desta proposta narrativa é curiosamente a sua ambição. Longe de se ficar por espremer algumas piadas fáceis de uma premissa meio absurda, Elliot encara as suas personagens com respeito e sinceridade, seguindo-as ao longo de toda uma vida e suas muitas reviravoltas. Note-se como o sofrimento de Mary e Max nunca é somente fonte de humor, mas também uma facada no coração do espectador que é quase forçado a contemplar a humanidade que partilha com as figuras em cena. As ansiedades e problemas deles podem ser mais radicais e extremadas que as de um espectador vulgar, mas há um realismo psicológica quase cáustica nas suas reações, mesmo que exageradas por caras de plasticina.

Faz sentido que a grande tese para a qual todos os elementos deste filme coalescem seja uma admissão da imperfeição que é universal a todo o ser humano. Ninguém é perfeito e as nossas imperfeições são uma parte essencial de quem somos. É impossível escolher quais as falhas de caráter com que fomos condenados a viver, mas podemos escolher o que fazer com elas, podemos escolher os nossos amigos, podemos escolher as pessoas com quem queremos partilhar a nossa vida imperfeita. Embalados pelas vozes de Toni Collette e Philip Seymour Hoffman, os espectadores de “Mary & Max” são assim convidados a rir e a chorar, a olhar-se ao espelho e, por momentos, calar aquela voz incessante que nos está sempre a apontar as falhas. Mesmo quando este filme australiano cai em alguns exageros de miséria gratuita, há algo de verdadeiro, maturo e até revelador nas reflexões que suscita por entre gargalhadas jocosas.

Mary & Max, em análise
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Movie title: Mary & Max

Date published: 25 de March de 2019

Director(s): Adam Elliot

Actor(s): Toni Collette, Philip Seymour Hoffman, Eric Bana, Barry Humphries, Bethany Whitmore, Renée Geyer

Genre: Animação, Comédia, Drama, 2009, 92 min

  • Cláudio Alves - 80
80

CONCLUSÃO:

Através do idiossincrático retrato de um par de amigos ansiosos e solitários, “Mary & Max” conta uma história sobre a necessidade humana de companhia e a imperfeição que faz de nós quem realmente somos. Entre contrastes de castanho lamacento e cinzentos sujos, esta animação stop-motion encontra humor e até uma peculiar beleza num universo feio. Duas grandes prestações vocais ajudam a dar vida a um texto apoiado sobretudo em narração epistolar.

O MELHOR: A torrente de bizarros detalhes que acompanham a introdução de cada protagonista.

O PIOR: O final leva o miserabilismo choroso do filme a um nível tão alto que, por momentos, a delicadeza humanista da fita quase tomba para um registo mais sensacionalista e melodramático que não coere muito bem com o resto da história.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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