MONSTRA 2026 | Competição de Curtíssimas, em análise
Em 2026, algo se manteve constante entre as várias secções competitivas da MONSTRA: A Competição de Curtíssimas continua a ser a nossa predilecta.
Aqui exibiram-se um total de 40 pequenos filmes até 3 minutos de duração. Numa sessão esgotada como é habitual, deliciámo-nos com um público entusiasta, participativo, empolgado no seu riso e nos seus aplausos. Tudo isto perante a incessante criatividade destes filmes que, com durações tão breves, são tão frequentemente capazes de comunicar ideias complexas e conceitos completos.
As curtíssimas exploram o potencial máximo do cinema de animação. O de, em poucos segundos, conseguir comunicar histórias empolgantes. Abaixo deixamos uma apreciação breve daquelas que foram as nossas curtíssimas favoritas, sem ordem específica.
1 – Pomegranate de Livvy Seabrook-Wilkins (Reino Unido, 2024, 3′)

“Uma mãe aceita a sua depressão pós-parto.”
Esta sessão da Competição de Curtíssimas da MONSTRA fez-se na esmagadora maioria de pequenas curtas humorísticas, que fizeram rir efusivamente uma pequena criança que enterneceu toda a gente na sala. “Romã” ou “Pomegranate” não foi um desses filmes.
Na marca dos 3 minutos, “Pomegranate”, de Livy Seabrook-Wilkins, é uma das obras mais “longas” desta competição e também uma das mais complexas. Entre pintura e desenho, esta animação belíssima e extraordinária expressa na perfeição o sentimento da depressão pós-parto, funcionando como um conto de advertência que nos remete para um fenómeno generalizado mas não suficientemente discutido.
O silêncio e a estigmatização deste problema bem real são evidenciados através de uma narrativa não convencional, a qual valoriza uma experiência sensorial e introspectiva, que reforça na perfeição o isolamento psicológico da nossa protagonista.
Pontuação: 80/100
2 – Flexible Bus de Mariam Qortua (Geórgia, 2024, 2′)

“Todos na paragem estão à espera que o autocarro chegue e, quando este chega, todos querem entrar. Quantos passageiros cabem num só autocarro? Até o autocarro flexível tem os seus limites.”
“Flexible Bus” , um pequeníssimo filme de 2 minutos, é exímio na forma como brinca com as formas e as suas potencialidades. A obra faz-se de linhas simples que se interceptam entre si e criam um “autocarro flexível”, com o mais improvável dos formatos.
O autocarro expande à medida que recebe mais passageiros, atribuindo uma representação visual a um receio bem real e colectivo – o dos transportes públicos a transbordar durante a hora de ponta.
Esta curta insere-se num espaço híbrido e muito estimulante, algures entre o cinema experimental e a observação social. A curta é bastante ambígua, mas é fácil vê-la como uma representação da nossa vida quotidiana – sempre em trânsito, desprovida de estabilidade.
Pontuação: 75/100
3 – O Beijo da Minhoca de Biakosta e Chila Mochila (Portugal, 2025, 1′)

“O Minhoco diz p’ra Minhoca: ora dá-me uma beijoca”. Uma pequena lengalenga sobre consentimento entre dois bicharocos.”
De Portugal chega-nos uma das curtíssimas mais bem-humoradas desta competição da MONSTRA. O seu conceito não podia ser mais simples: duas minhocas estão prestes a beijar-se, mas a coisa acaba por não correr assim tão bem.
Passado um minuto, o riso irrompeu pela sala fora, provando a inequívoca eficácia deste colorido, ritmado e bem disposto pequeno filme.
Pontuação: 75/100
4 – Danger Island de Nicolas Mahler e Stefan Holaus (Suíça, 2025, 1′)

“Um homem moderno numa ilha deserta. O que acontece a seguir é incrível.”
Esta curtíssimas assenta num divertido trocadilho. Aproveitando-se daquele que é o imaginário fértil de uma ilha deserta, o título “Danger Island” remete-nos para um sem fim de perigos: morrer afogado, de desidratação, quiçá ser-se comido por um qualquer animal selvagem.
Mas o que este pequeno filme faz é provocar uma total inversão, ao confrontar-nos com um elemento contemporâneo que é completamente estranho ao ambiente da ilha deserta. E, através deste elemento da surpresa, os realizadores de “Danger Island” conseguem provocar o riso e a admiração. É assim mesmo que se faz um filme de um minuto!
Pontuação: 70/100
5 – TÖGETHÅR de Rich Farris (Reino Unido, 2024, 2′)

“Três amigos juntam-se para construir a estante dos seus sonhos. Mobília de fácil montagem nunca foi tão divertida!”
Talvez já tenha ficado bastante claro, mas o verdadeiro triunfo de uma curtíssima como as apresentadas nesta sessão da MONSTRA prende-se com a capacidade de definir um conceito e executá-lo na perfeição em tempo recorde. É isso mesmo que faz esta curta-metragem de Rich Farris, ao explorar através de figuras muito simples aquela que é uma tarefa muito complexa: montar um móvel do IKEA.
O humor é aqui abundante, e em apenas dois minutos e a preto e branco, é expressa de forma muito visual, sem precisarmos de palavras, a tarefa dantesca que é montar mobiliário em casa. E quem não é capaz de se relacionar com este conteúdo?
Para melhorar ainda mais o conceito da curta, as próprias figuras animadas aproximam-se da estética apresentada em livros de instruções do IKEA!
Pontuação: 75/100
6 – O Que Dizem de Carmen de Eve Ferretti e Pedro Mota Teixeira (Portugal, Brasil, 2025, 3′)

“Este filme conta a história de uma menina que nasceu sem braços. Narrado num tom memorialístico, introduz o discurso do outro sempre da mesma forma, através da expressão popular “dizem que…”. Encontramos nesta expressão o contraponto da história, a inversão entre o relatado e o vivido.”
Mais uma entrada portuguesa nesta competição de curtíssimas. Apreciámos bastante “O Que Dizem de Carmen” devido a várias razões: este é um conto gótico com caracterização e cenários concordantes, uma obra onde a narração diz exatamente o contrário daquilo que é provavelmente a verdade e ainda um filme de marionetas em stop-motion.
Não fosse stop-motion uma das nossas técnicas de animação favoritas, os intertítulos e toda a caracterização de Carmen remetem-nos para algo muito obscuro, para uma solidão profunda e para um sentimento de isolamento sentido pela nossa protagonista enigmática.
“O que Dizem de Carmen” é capaz de criar mistério, interesse, munindo-se de uma atmosfera pesada mas que não deixa por isso de ser convidativa. O nosso único problema é que, apesar do sucesso dos seus 3 minutos de duração, o filme precisava nitidamente de mais tempo para nos transmitir verdadeiramente a identidade da personagem titular.
Pontuação: 70/100
7 – Children of War de Zina Papadopoulou (Grécia, 2025, 3)

“No dia 26 de fevereiro de 2025 a NASA lançou uma cápsula com poemas para a lua, sendo que um deles era o poema anti-guerra “Feliz Aniversário Ahmed”, dedicado às crianças vítimas da guerra.”
É difícil proclamar frases categóricas, mas é bem possível que “Children of War” seja a nossa curtíssima favorita desta competição da MONSTRA em 2026. Cinzenta, feita de stick figures sem rosto, nunca pensaríamos nós que esta pequena obra de 3 minutos fosse capaz de comover em tal medida.
Um canto triste que recorda as crianças que morrem em contexto de guerra, vítimas do genocídio em Gaza (e não só), “Children of War” não possui a natureza abstrata comum a muitas curtas animadas que fomos vendo pelo Festival de Animação de Lisboa. Todavia, tem algo ainda mais especial: um equilíbrio complexo entre poesia e a representação da esmagadora e tristíssima realidade. E, não obstante capacidade de puxar a lágrima, esta curta contêm também em si a esperança de dias melhores e menos bélicos. Tudo isto em apenas 3 minutos.
Pontuação: 90/100
8 – Tea Break de Trevor Hardy (Reino Unido, 2024, 2′)

“Um operador de grua distraído volta ao trabalho depois da pausa para o chá das cinco.”
Não fosse esta uma obra demarcadamente britânica, “Tea Break” decorre durante a pausa para chá de um operador de grua. Quando chega lá acima, apercebemo-nos de que este se esqueceu, depois de tanto esforço para subir, da chave da grua. É este o conceito completo, só isto. Não obstante, resulta na perfeição devido ao humor transmitido através da sua frustração.
Além disso, esta é uma obra animada com recurso a stop-motion, onde a atenção ao detalhe é notável. Da pequena chávena de chá a toda a criação delicada do cenário das obras onde o filme se desenrola.
Esta é uma narrativa breve, extremamente irónica e muito bem ritmada. Aqui, Hardy demonstra um domínio claro da linguagem animada: através do exagero dos movimentos, da expressividade do seu protagonismo e do ritmo infalível da montagem.
Pontuação: 75/100
9 – Poppa de Peter Ahern (Estados Unidos da América, 2024, 2′)

“Um rapaz azarado encontra-se numa situação pegajosa, após acidentalmente engolir pastilha elástica.”
Com muita cor e excentricidade é narrada a história de um pequeno rapaz que engole uma pastilha elástica e rapidamente se vê confrontado com um monstro que sai de dentro de si próprio e o trata por “pai” ou “poppa”.
Esta curtíssima é muito apelativa por imaginar o que pode acontecer quando engolimos uma pastilha, remetendo-nos para o mais caótico e improvável dos fenómenos. O filme é curto, rápido, direto, com elementos grotescos e de humor negro a dominarem o grande ecrã. O elemento de choque é também notável e incontornável, resultando numa experiência coletiva impactante.
Além disso, não obstante o formato de microfilme, “Poppa” caracteriza-se por uma animação complexa e muito bem trabalhada, capaz de conjugar animação tradicional e digital.
Pontuação: 75/100
10 – Stepping On My Own Foot de Aoife Rhatigan (Irlanda, 2025, 3′)

“Em ‘Pisar O Meu Próprio Pé’ vemos um ser sem nome, que ascende por uma escadaria interminável, enquanto uma série de vinhetas de sonhos e realidades se revelam em todos os seus passos. Cada memória muda a sua subida, culminando numa meditação surreal sobre a vida, a morte e o nascimento.”
Uma das curtíssimas mais poéticas desta competição da MONSTRA é “Stepping on My Own Foot”, filme onde o desenho tradicional e a imagem digital a duas dimensões brilham à medida que uma vida inteira é narrada no mero espaço de 3 minutos e com recurso a uma belíssimo e invulgar interpretação da técnica de split screen.
“Stepping on My Own Foot” é uma curta profundamente reflexiva e que mostra que o estilo da animação, embora transversal e unificador, pode e deve ser utilizado para exprimir conceitos complexos e adultos. Aqui temos direito a uma exploração emocional e visual da experiência humana, recorrendo-se a simbolismo e abstração para atingir esse objectivo.
De acordo com o próprio website oficial da artista, Aoife Rhatigan é influenciada pela animação soviética e filosofia do absurdo para criar introspecção através de simbolismo e narrativas surreais. Tal não podia ser mais claro ou mais bem conseguido através desta pequena curta.
Pontuação: 80/100
Desse lado, acompanhaste a 25ª edição da MONSTRA, à solta em Lisboa entre os dias 12 e 22 de março?

