"O Homem Duplicado" | © MOTELX

MOTELX’ 22 | O Homem Duplicado, em análise

Em colaboração com a Fundação Saramago, o MOTELX programa uma sessão especial de “O Homem Duplicado,” também conhecido como “Enemy.” O filme de Denis Villeneuve conta com Jake Gyllenhaal num papel duplo e estreou originalmente no Festival de Toronto em 2013.

Adaptado a partir do livro homónimo de José Saramago, “O Homem Duplicado” caminha entre o sonho e uma realidade tão esbatida que parece irreal. Segundo as palavras que abrem o filme, “o caos é uma ordem por decifrar.” O argumento de Javier Gullón é assim fiel à obra original em traços gerais, mas diferencia-se por um interesse redobrado nas permutações sexuais da trama. Há também um gosto pela simbologia expressa por termos formalistas, detalhes que trazem muitas comparações cinematográficas à tona – muitos veem aqui laivos Lynchianos, de Refn, De Palma e outros que tais.

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Basta notar-se como Denis Villeneuve filma Toronto, cidade tão mal-amada pelos franco-canadianos que nela vislumbram um inferno de cultura anglocêntrica. A arquitetura da cidade subsume-se a um brutalismo onírico, betão pintado em tons de âmbar pelos filtros da pós-produção. Parece que uma nuvem tóxica se abate sobre a cidade, corroendo o ar com ferrugem rarefeita, uma atmosfera pesada que a fotografia de Nicolas Bolduc suscita. Coroando esta assombração citadina, uma aranha gigante preside, qual deus de Bergman ou mãe de Louise Bourgeois. Já voltaremos às aranhas, mas, primeiro, é melhor esclarecer a narrativa.

“O Homem Duplicado” começa por considerar a vida banal de Adam Bell, um professor de História que dá aulas na Faculdade de Toronto. Ele vive com a sua namorada, Mary, num desses apartamentos modernistas que rasgam os céus em estilo anónimo. Não obstante as tonalidades de um universo a sofrer de icterícia, a existência deste homem é uma história de lugares comuns, desde a sua não-personalidade até à natureza cliché das suas angústias. Como tantos no seu lugar, Adam sofre de descontentamento às margens da depressão, uma crise de meia-idade precoce no horizonte.

Talvez seja por isso que, quando o conhecemos, o professor visite um clube de cariz sexual onde strippers se exibem na companhia de tarântulas – cá estão as aranhas novamente. Só que, quando o espetáculo chega ao rubro e o salto reluzente se prepara para esmagar o aracnídeo, o corte tira-nos da cena. Se calhar foi só um sonho. Se calhar foi real. Se calhar não existe diferença entre os dois. É certo que, noutra ocasião, as ruminações da mente que dorme parecem infetar o mundo acordado. Isso acontece depois de Adam ver um filme inano, alguma comédia sem importância de aspeto reles.

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Reconstruindo o filme em memórias sonhadas, Adam vislumbra-se a si mesmo ao canto do ecrã. Não, não é ele, mas sim um homem com a sua cara, seu corpo e voz. O dia-a-dia mecanizado do professor começa a perder ordem face a esta descoberta, uma engrenagem ferrugenta desintegrando-se a olhos vistos. Encontrar esse sósia torna-se em obsessão, uma ideia infeciosa que tudo engole e digere, deixando para trás uma personalidade no ponto de rutura. Ou será uma realidade que se desmorona? Em certa medida, é como se Adam tivesse conjurado o duplo através da sua imaginação, o devaneio materializando-se na consciência coletiva.

Eventualmente, os dois homens encontram-se e descobrem que não são gémeos perdidos como num romance de Dumas. Pelo contrário, são cópias idênticas que até as mesmas cicatrizes partilham, reflexos de carne e osso. Dito isso, as semelhanças só se manifestam ao nível do corpo. Em paradigmas psicológicos, os dois homens não podiam ser mais distintos. Se Adam é um poço sem fundo de neuroses mundanas, Anthony é um ator desinibido, cheio de carisma e uma presença robusta, quase animalesca. Todas as ansiedades sexuais do professor são impulsos que Anthony segue sem remorso, redobrando a noção deste drama enquanto alegoria para as reverberações da culpa masculina, da infidelidade e do desejo ilícito.

Assim se entrelaçam as vidas dos dois homens numa espiral de autoaniquilação e combate sensualista. Mary e Helen, a mulher grávida do ator, tornam-se em objetos no jogo viciado do par, como se os dois homens se estivessem a sabotar a si mesmos e à sua potencial felicidade amorosa. O que é estável é inimigo, é sufoco, e só a perturbação de regras regimentadas pode revelar propósitos finais. O caminho para a redenção pessoal vem através da destruição. Se é verdade ou mentira fica por saber, mas é certo que os homens duplicados se deixam levar pela loucura que têm dentro um do outro.

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Os papéis trocam-se tal como se troca o papel da aranha, passando de objeto fetiche sob um salto alto a monstro veloz que se prepara para devorar tudo. Dito isso, a mais interessante transfiguração não é a da aranha metafórica, mas sim a do ator. Em 2013, Jake Gyllenhaal tornou-se numa espécie de musa masculina para Villeneuve que fez com ele este filme e “Prisioneiros.” Por muito que apreciemos esse policial, nada se compara à performance multifacetada enquanto Adam e Anthony, dois seres idênticos que parecem estranhamente incompletos. Apelando à idiossincrasia comportamental, Gyllenhaal conjuga os mistérios deste “Homem Duplicado” com rasgos de realismo psicológico, concebendo assim um tenor tão incerto como fascinante.

O Homem Duplicado, em análise

Movie title: Enemy

Date published: 9 de September de 2022

Director(s): Denis Villeneuve

Actor(s): Jake Gyllenhaal, Mélanie Laurent, Sarah Gadon, Isabella Rossellini, Joshua Peace, Tim Post, Kedar Brown, Darryl Din

Genre: Drama, Mistério, Thriller, 2013, 91 min

  • Cláudio Alves - 65
65

CONCLUSÃO:

Tão solene que arrisca o absurdo, tão ambivalente que cai no erro do rascunho, “O Homem Duplicado” é um filme curioso. O seu fascínio é inegável, mas questionamos algumas escolhas, desde a fotografia amarelada à escrita das figuras femininas. Dito isso, os mistérios patentes no texto de Saramago e deslumbrante trabalho de ator dão valor ao esforço. Este “Enemy” vale a pena ver.

O MELHOR: A caracterização dupla de Jake Gyllenhaal nos papéis de Adam e Anthony. Isso e o susto estrondoso que encerra a fita.

O PIOR: A ambiguidade e abstração são muitas vezes mais frustrantes que produtivas no cinema de Villeneuve. “O Homem Duplicado,” seu mais ensandecido trabalho, eleva estes problemas no mesmo gesto em que descobre nova virtudes dessa abordagem.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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  1. Luis 9 de Setembro de 2022

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