Cold Skin Motelx

MOTELx ’18 | Cold Skin, em análise

Cold Skin” é um filme de terror alegórico que mistura temas complicados com o modelo sensacional da história de uma luta de dois homens contra criaturas das profundezas. Este é um dos filmes seleccionados para o 12º MOTELx.

Em 1914, o mundo é um barril de pólvora prestes a rebentar com a alvorada da 1ª Guerra Mundial e, no Ártico, um navio a vapor atravessa as águas crispadas do Atlântico em direção a uma ilha inóspita. Aí só vive uma alma perdida, o faroleiro Gruner, mas um novo habitante está a chegar nessa referida embarcação. Esse homem nunca recebe um nome para além das alcunhas com que é batizado por Gruner, e dele apenas sabemos que vem da Irlanda e que é um observador meteorológico que veio substituir outro colega falecido. Este indivíduo sem nome e em fuga de uma civilização à beira do apocalipse é o protagonista de “Cold Skin”, o novo filme do espanhol Xavier Gens e uma adaptação do romance de Albert Sánchez Piñol.

Apesar das palavras de caução do caridoso capitão do navio que o trouxe a este fim do mundo, apesar da aparente loucura de Gruner e apesar da aparência monstruosa da ilha escarpada, o irlandês sem nome não parece ter dúvidas ou remorsos acerca do seu presente isolamento geográfico. Isso muda rapidamente, quando, durante a primeira noite passada na ilha, ele descobre a razão pela qual Gruner fortificou o seu farol como um castelo medieval. Das águas negras emergem criaturas humanoides e anfíbias decididas a atacar qualquer ser em terra. Somente graças à sua sorte e pensamento rápido é que o novo habitante da ilha sobrevive a esta primeira noite, algo que o seu antecessor de ofício não havia conseguido fazer.

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Terror num modelo de aventura clássica.

Depois de mais uma noitada em luta feroz, durante a qual o seu casebre pega fogo, o forasteiro tem permissão para se juntar a Gruner no farol, tornando-se mais um combatente na guerra do faroleiro contra as criaturas das profundezas. Não que os homens sejam os únicos moradores do farol, visto que Gruner tem como prisioneira uma das criaturas anfíbias. É uma fêmea dócil, há muito subjugada pelo eremita e a quem o irlandês chama Aneris. Para o espectador, ela talvez traga à memória o monstro de “A Forma da Água”, tanto pela sua aparência como pela relação que se desenvolve com o observador meteorológico, onde os olhos do homem são gradualmente abertos à potencial humanidade dessa misteriosa aparição do fundo do mar.

As semelhanças com o filme de Guillermo del Toro não se resumem somente a esses elementos de Anerisa, contudo. Tal como “A Forma da Água”, “Cold Skin” pertence a essa longa tradição de filmes de terror e fantástico que escondem camadas e camadas de complexidade ideológica por detrás da sua fachada vistosa. São obras de autores que empregam os modelos de entretenimento popular e leviano como veículo para, com metáfora e alegoria, abordar temas de difícil discussão num contexto mais abertamente solene. Nos anos 40, Val Lewton praticamente esculpiu o seu lugar na História do Cinema com projetos assim e Gens pode estar a tentar ir pelo mesmo caminho, mesmo que de uma forma muito mais modesta e com títulos infinitamente menos absurdos.

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Por detrás da sua aparatosa premissa de dois homens isolados numa ilha à mercê das criaturas das profundezas, “Cold Skin” é essencialmente um filme sobre guerra, tendo especial interesse em dissecar as razões que levam o ser humano a se envolver em tais dinâmicas bélicas. Trocamos os monstros com nativos americanos e temos um western de cavalaria. Se a troca for com soldados japoneses dos anos 40 em território americano, temos um drama da 2º guerra mundial. Esta é a história do ser humano dominante contra o outro, o estranho que pela sua diferença e opacidade comportamental é ameaçador, mesmo antes de qualquer ação abertamente hostil e depois de claros gestos de diplomacia. É o conto da hegemonia de uma força contra a outra por meio da agressão armada.

Também é a história de um homem que encontra razão para a sua existência e ordem cósmica no ato da guerra. Gruner é um misantropo cronicamente solitário, com uma vida que parece ser totalmente dedicada à chacina e provocação das massas de monstros subaquáticos. Para ele, já não se trata de sobrevivência, mas sim da aniquilação do inimigo. Contudo, essa aniquilação é algo tão querido como temido, sendo que, para este general do seu próprio batalhão de um soldado, a possibilidade da derrota é tão monstruosa como a possibilidade da vitória. Afinal, o que fará ele quando não houver mais inimigos para matar, mais criaturas não humanas cuja destruição valide a superioridade dele? Face a tudo isto, o irlandês é um sobrevivente que começa por ser passivo a loucura de Gruner, mas rapidamente vê a folia do seu companheiro e a possibilidade da coexistência.

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Uma fascinante meditação sobre a guerra.

Do horror da chacina, que por vezes torna a área em volta do farol numa terra de ninguém forrada a cadáveres, o observador meteorológico torna-se pacifista e a fricção entre a sua busca de paz e a busca de destruição do seu companheiro humano produz muito do drama presente em “Cold Skin”. Com tudo isto dito, o filme é uma exploração simplista de temas complexos e as caracterizações em cena são deliberadamente subdesenvolvidas. Na boa tradição dos filmes de Lewton o elenco é prestável, mas raramente tenta encontrar no texto dimensões que lá não estão. O irlandês, em particular, é pouco mais que as ideias e argumentos ideológicos que os cineastas querem explorar através da sua pessoa. Neste contexto, ele não precisa de ser mais do que isso.

Isso não é necessariamente uma fragilidade do projeto, somente uma característica. O que se revela como um detrimento para a qualidade de “Cold Skin” é a sua duração demasiado longa, que leva o segundo ato da narrativa a estender-se em aborrecidas sequências de rotina e repetição que podiam ser resolvidas com uma montagem. Verdade seja dita, a narração em voz-off não ajuda a dissipar esta monotonia venenosa que se impõe sobre o meio da história. Enfim, tais problemas não importam assim tanto face aos méritos do filme, que não se resumem ao seu apelo retro e ambição concetual, sendo que a sua execução formal é primorosa, especialmente ao nível de cenografia e música. Com tal qualidade contida num filme que, se fosse produto de Hollywood, seria facilmente caracterizado como um esforço de série B, “Cold Skin” é uma caixinha de surpresas prontas a deliciar fãs do género do terror e a exigir respeito de quem se acha superior a esses tipos de grotescos cinemáticos.

Cold Skin, em análise
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Movie title: Cold Skin

Date published: 2018-09-06

Director(s): Xavier Gens

Actor(s): Ray Stevenson, David Oakes, Aura Garrido, John Benfield

Genre: Terror, Aventura, Ficção-Científica, 2017, 108 min

  • Cláudio Alves - 70
70

CONCLUSÃO

Uma meditação sobre a necessidade humana pela guerra, pela confirmação sanguinária da sua hegemonia, assim como um filme de terror de linhas clássicas. Grandes cenários, paisagens impressionantes e sons assombrosos elevam o exercício acima de muitos outros esforços do género. As personagens e prestações dos atores pouco importam para o sucesso deste tipo de projeto e o realizador trata tais elementos com espectável displicência.

O MELHOR: Todas as explorações sobre o tema da guerra que o filme consegue sublimar na personagem de Gruner, sua loucura, dependência e repugnante amor pela carnificina.

O PIOR: A duração excessiva, a narração em voz-off e a citação de Nietzsche que serve como introdução do espetador ao mundo desta aventura fantástica.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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