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O Mês em Música | Playlist de Setembro

A Playlist de Setembro revela um recomeço em grande. Foi difícil decidir o álbum do mês e abundaram os singles em que arriscar valeu a pena.

Se a música ajuda a levar a vida com mais ligeireza – ao lembrar que se deve trabalhar guardando sempre um espaço para cantar – então este foi um grande mês para voltar às aulas e ao emprego. O calor não abrandou, mas o mundo da música também não. Por aqui, na MHD, as preferências dividiram-se entre diferentes álbuns, que não podiam ser mais diferentes entre si, excepto no seu indiscutível grau de qualidade. Tivemos de recorrer ao autoritarismo e venceu a minha donzela. Com a salvaguarda, contudo, de que haverá oportunidade para uma desforra democrática no final do ano.

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Quanto aos singles, se a Playlist de Setembro for muito longa, garanto que não é só por culpa da engorda em cinco canções, instituída no mês passado, mas também da coragem dos criadores (ou complacência, para os espíritos punk), que não hesitaram em nos atirar à cara canções quase todas a passar dos 5 minutos e algumas a chegar perto dos 10. Uma coragem que me arrancou da depressão em que caíra ao saber (já o sabia) que o concerto do Ed Sheeran esgotara em poucas horas e, pior, ia haver um segundo (já agora, pena que aquele relato de que o Ed Sheeran deixaria a música fosse “das bollocks”…). Uma coragem que quero repetir, ao propor todas estas canções na nossa Playlist de Setembro.

Playlist de Setembro| Os singles

É sempre bom ver músicos de renome sem medo de experimentar, de contestar as nossas expectativas testando a nossa paciência. É verdade que não faltam pérolas – no brilho e no tamanho – na Playlist de Setembro. Em “symbol” de Adrienne Lenker, uma simples progressão de quatro acordes, repetidos indefinidamente com variações esporádicas e um breve momento onde, de descendentes, os acordes passam a ascendentes, enche-se de discreta atitude punk. Como se o instrumental sublinhasse a ideia lírica da canção: “do you see circling through itself?” A suave exasperação da voz, numa conversa apressada, a perder o fôlego, contrasta com a estabilidade e linearidade da guitarra. A canção não precisa de chegar aos 4 minutos para deixar uma impressão indelével, com o carisma da vocalista e guitarrista dos Big Thief, aqui a solo, a irromper por todas as brechas do arranjo intimista.

Westerman
Westerman

“Albatross” começa de forma ominosa, com o baixo a dar-nos uma pista enganadora. Mas logo que entram os sintetizadores e a voz, a harmonia resultante oferece-nos uma canção cheia de leveza. Will Westerman parece ter reconquistado a confiança, falando livremente das suas “cracks in the framework”, aceitando-se: “here I am, conflicted”. Sob a larga sombra de um amor, real ou imaginado, é possível deixar para trás “the albatross”. Da canção, disse o britânico que “se passa num lago imaginário onde vou para escapar às preocupações da existência quotidiana, é um lugar mais inocente e natural.” A verdade é que Will Westerman está a produzir gema atrás de gema, de uma pop original cheia de delicadeza, fluidez e imprevisíveis desvios, estando já bem longe (assim parece) o bloqueio de escritor que o paralisara. Agora é a nossa vez de dizer a umas das maiores promessas da cena britânica actual: “take me somewhere new”.

O primeiro tema que nos foi dado a conhecer de Suspiria também não precisou de se estender nem de contratar uma orquestra para integrar a nossa Playlist de Setembro e garantir a estreia em grande de Thom Yorke no mundo da música para filmes. Numa linha de piano minimalista, à Philip Glass ou Erik Satie, nervosa e circular, flutua familiar e etérea a voz de Thom Yorke, que não nos oferece só uma atmosfera mas uma canção de pleno direito.

PLAYLIST DE SETEMBRO | “SUSPIRIUM”

No entanto, a sedimentar a identidade ambiente e experimental da Playlist de Setembro estão canções como as de Julia Holter, Kurt Vile e Lana Del Rey. Ora mais atmosféricas, cheias de repetição ou drones e canto fragmentário, como ecos quebrados a boiar em som, ora a esboroar as fronteiras entre géneros, torcendo trejeitos pop até lhes conceder uma real e duradoura emotividade, ora transformando um fluxo de consciência numa interminável experiência de sonolência estival ou estupor provinciano, estas canções metamorfoseiam lenta e insensivelmente a nossa própria ideia de canção. Um breve crescendo épico aqui, um acento que quebra a monotonia acolá – pode ser um violino que entra, um acorde que ornamenta a melodia repetitiva, uma onda de distorção -, mas no essencial esta música é um modo de estar, de ser, uma conversa contínua consigo mesma e connosco, apanhados no fogo cruzado do drama meditado.

PLAYLIST DE SETEMBRO | “I SHALL LOVE 2”

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PLAYLIST DE SETEMBRO | “VENICE BITCH”

Playlist de Setembro | Os álbuns

Foram vários os álbuns dignos de nota que saíram neste regresso às aulas, se bem que alguns dos melhores não estão entre os mais conhecidos. É o caso de Animal Companionship, de Advance Base, o projecto começado pelo músico de culto Owen Ashworth, depois de findo o seu Casiotone for the Painfully Alone (não esperem contudo uma subida de nível no capítulo das alegrias da confraternização). Ou The Lamb, de Lala Lala, a banda de Lillie West, que neste seu segundo registo se impõe no mundo da música como um contendor de peso.

Tim Hecker não é propriamente um desconhecido, mas o universo da música ambiente em que se move é para um pequeno grupo de iniciados. Ainda assim, pode ser que a amostra de Konoyo aqui incluída aumente o número de associados, com a sua fascinante fusão de alguns dos instrumentos mais antigos do mundo com a tecnologia de ponta hoje ao nosso dispor. Melhor ainda, Phil Elverum, casado agora com Michelle Williams, já consegue cantar sobre a morte da primeira mulher e, em After (Live), podemos ouvir a reconciliação com o passado que a felicidade presente traz.

Playlist de Setembro
Jason Pierce, dos Spiritualized (© Juliette Larthe)

Não foi em torno destes discos, contudo, que se instalou aqui entre nós, na MHD, o despique sobre a quem atribuir, nesta Playlist de Setembro, o prémio de álbum do mês. Uma das preferências foi burocraticamente eliminada apelando a motivos técnicos: o Hunter, da Anna Calvi, tinha saído – a sermos precisos – no dia 31 de agosto. O truque já não servia para resolver o sério problema de escolher entre And Nothing Hurt, dos Spiritualized, e o Double Negative, dos Low. Os meus pares, de uma gentileza sem igual, lá me deixaram levar a bicicleta. Mas para que não se pense que tudo é graça, aqui apresento duas razões de peso para que o mérito seja incluído na equação. Começo por relembrar a tríade monumental com que o disco foi anunciado no passado mês de Junho. E termino abrindo a Playlist de Setembro com um dos vários diamantes que jazem enterrados em Double Negative, promessa vívida do muito que nele há para descobrir, não só agora mas no futuro também.

PLAYLIST DE SETEMBRO | “QUORUM/ DANCING & BLOOD/ FLY”

PLAYLIST DE SETEMBRO | SPOTIFY

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PLAYLIST DE SETEMBRO | DESTAQUES DO MÊS

Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

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