Amy Adams

O Primeiro Encontro, em análise


O Primeiro Encontro é uma obra-prima sensorialmente inebriante, que nos toca na alma como um ato divino.

Extraterrestres, esses hipotéticos habitantes oriundos de outros planetas desconhecidos, têm constituído o cerne dos nossos pensamentos mais soturnos e mirabolantes, desde que a viagem à Lua do centenário passado, introduziu ao mundo a suspeita muda da existência de tais seres tão aberrantes e misteriosos. E tem sido com essa prova, ainda infundada, que tem vivido desmesuradamente o segmento da ficção científica mais conservadora, razão pela qual, este Primeiro Encontro do realizador franco-canadense (Denis Villeneuve), siga uma rota mais oblíqua e menos convencional que os demais antecessores.

O Primeiro Encontro
Jeremy Renner e Amy Adams em “O Primeiro Encontro” (2016)

Talvez, o argumentista Eric Heisserer (“Lights Out”, “A Coisa”) possa ter algo a dizer sobre a fuga das suas influências literárias ao senso comum, já que ao invés de estórias para embalar de “Dr. Seuss” ou “Betsy Biars”, a sua mente pueril encheu-se de “Heinlein”, “Bradbury” e “Asimov”. Mas foi “Story of Your Life” de Ted Chiang, que enraizou profundamente o ensejo em traduzir para o grande ecrã aquele manuscrito atafulhado no seu carro há décadas. De facto, foi uma luta incessante para Heisserer arrancar uma adaptação para cinema do pequeno conto visionário de Chiang, uma vez que o debate em torno do seu conteúdo implica admitir a complexidade do seu guião, e o risco de poder gorar as expetativas de um tipo de audiência menos afoita a mind games. Objetivamente, o trade-off parece-nos justificável se teorizarmos fora da caixa como o fizeram Heisserer e Villeneuve, ao abordarem a temática alienígena à luz de um processo didático mutualizado, sublevando o objeto linguístico em detrimento daquele belicismo fútil mais mainstream.

(…) Villeneuve é exímio em pendurar cada momento pelo fio da navalha…

E se a linguagem é o fio condutor de qualquer civilização e “a primeira arma arremessada numa batalha” como afirma Louise Banks (Amy Adams), ela que é a intérprete suprema de um enredo que, mais uma vez, coloca a mulher na dianteira das decisões lideradas por homens, tal como já havia testado Villeneuve em “Sicario”. Aliás, não é por acaso, que a fita arranca com a narração omnisciente da sua voz na terceira pessoa, revelando o seu compromisso íntimo com os tentáculos da trama, exatamente os mesmos com que terá de interagir por ordem militar do Coronel Weber (Forest Whitaker), no covil cúbico de uma das doze naves côncavas aparcadas a um centímetro do solo.

O Primeiro Encontro
Forest Whitaker em “O Primeiro Encontro” (2016)

O que querem? De onde vêm? São as tais perguntas milionárias que a Dra. Louise Banks terá de responder com toda a sua expertise em linguística, que não poderia deixar de contar com a mãozinha laboratorial de Ian Donnely (Jeremy Renner), um físico teórico que vive somente para colecionar dados analíticos menos complacentes com o pragmatismo verbal que a causa exige. E enquanto os dois se avaliam profissionalmente, ensacados em fatos de quarentena a caminho da couraça forasteira, é na entrevista acrílica aos dois heptápodes (Bucha e Estica) – que a ligação cármica com Louise começa a desvelar uma premissa utópica de uma forma de comunicação não linear, que veicula o tempo como um conceito abstrato pluridimensional.

Amy Adams (…) é a intérprete suprema de um enredo que, mais uma vez, coloca a mulher na dianteira das decisões lideradas por homens, tal como já havia testado Villeneuve em “Sicario”.

É nesta proposição mística, que Villeneuve enrodilha-nos numa teia fantasiosamente credível, até mesmo quando Louise ensina vocabulário de infantário a uma raça supostamente mais avançada que a nossa. Mas Heisserer defende que “mais vale uma verdade singela do que uma bela mentira”, protegendo o processo educativo de Louise como móbil impulsionador de um ardil semântico, que irá proporcionar ao enredo a arma perfeita para o desejado pretexto conflituante. E se as lulas gigantes comandam o impressionismo estético com esguichos de tinta imprimida no ar em segredo, é Louise quem acaba por respirar mais perto da objetiva de Villeneuve, enquanto Adams inspira a alma desta personagem com uma vulnerabilidade que se transcende espiritualmente.

O Primeiro Encontro
Amy Adams e Jeremy Renner em “O Primeiro Encontro” (2016)

Ian dá a Louise aquele toque mais científico, se preferirem, matemático, como se o seu lado instintivo necessitasse de uma validação de estatuto, em que Renner corresponde com uma animosidade meticulosamente contida pela toada especulativa de um perigo eminentemente latente. Villeneuve é exímio em pendurar cada momento pelo fio da navalha, aguardando que a cacofonia de Jóhannsson se liberte da claustrofobia daquele corredor nervoso, aonde Ian e Louise correm contra o relógio para decifrar o último enigma extraterrestre, antes de toda a histeria mundial.

Villeneuve enrodilha-nos numa teia fantasiosamente credível, até mesmo quando Louise ensina vocabulário de infantário a uma raça supostamente mais avançada que a nossa.

E enquanto extasiamos completamente neste universo etéreo e sobrenatural, Bradford vai pintando autênticos quadros idílicos dos obeliscos flutuantes, que rasgam o céu fantasma de uma Montana em Estado de Sítio. É, de resto, uma marca distintiva de Villeneuve, expandir o invólucro da “core action” num campo de visão naturalista, que atinge aqui notas mais líricas e oníricas, que continuam a fazer sentido numa realidade minimamente plausível.

O Primeiro Encontro
Amy Adams em “O Primeiro Encontro” (2016)

O Primeiro Encontro é uma parábola quase mitológica, uma oração sublime e transcendental, que murmura com o coração num código humanamente significativo. Villeneuve consegue reinventar a mesma racionalidade comunicacional de “Encontros Imediatos do Terceiro Grau”, fazendo-nos sentir tão maravilhados como se estivéssemos a ver o “E.T.” pela primeira vez. E é nesta conjugação entre antigo e novo que este “Arrival” triunfa plenamente, ao converter uma fita sobre extraterrestres numa fita sobre humanos. O Primeiro Encontro perfila-se assim como um clássico instantâneo, que nos arrebata com o seu “budismo” e inteligência, mas mais do que isso, é um exercício contemplativo sobre a força da palavra, e de como a língua pode construir ou destruir tudo o que temos e tudo o que somos.

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O Primeiro Encontro
o-primeiro-encontro-2

Movie title: Arrival

Movie description: O Primeiro Encontro é um provocador thriller de ficção científica do aclamado realizador Denis Villeneuve (Sicario -Infiltrado, Raptadas). Quando misteriosas naves espaciais aterram em vários pontos do globo, uma equipa de elite - liderada pela especialista em linguística Louise Banks (Amy Adams) - reune-se para investigar. Enquanto a Humanidade está à beira de uma guerra mundia, Banks e a sua equipa lutam contra o tempo em busca de respostas - e para as encontrar, ela irá correr o risco que pode ameaçar a sua vida, e possivelmente da Humanidade.

Date published: 16 de November de 2016

Director(s): Denis Villeneuve

Actor(s): Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker

Genre: Drama, Mistério, Sci-fi, Thriller

  • Catarina d'Oliveira - 90
  • Cláudio Alves - 80
  • Daniel Rodrigues - 80
  • José Vieira Mendes - 50
  • Maria João Bilro - 80
  • Miguel Simão - 100
  • Rui Ribeiro - 95
  • Virgílio Jesus - 80
  • Marta Kong Nunes - 98
84

CONCLUSÂO

O Primeiro Encontro exibe uma profundidade moral e emocional tão rara no panorama cinematográfico atual, que damos graças por pérolas destas aparecerem de quando em vez. E quando saímos do cinema assoberbados pela inteligência do diálogo audiovisual, sentimo-nos na presença de algo especial, de um primeiro encontro marcante e inesquecível.

O Melhor: A interpretação genuína de Adams, que se entrega à sua personagem com toda a crença; a estilização artística, elegância, maturidade e sensibilidade da direção cinematográfica de Villeneuve; a conversão da temática extraterrestre numa temática apenas terrestre.

O Pior: A complexidade do guião poderá não ser acessível num primeiro encontro.

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Miguel Simão

Jurista e Poeta em algumas horas vagas. Cinéfilo incurável com forte pancada pelo sci-fi, que se perde algures pelo vício noturno de umas quantas séries televisivas de renome; amaldiçoado pelo perfecionismo estético de uma resma de palavras mais ou menos caras. Podem encontrar-me a divagar entre a Terra e o Espaço no meu blogue premiado Última Transmissão Humana.

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4 Comments

  1. António Costeira 17 de Novembro de 2016
  2. Frederico Daniel 5 de Novembro de 2017
  3. Marta 7 de Agosto de 2018
  4. Carla Teixeira 25 de Janeiro de 2019

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