Okja, em análise

Okja, que estreou exclusivamente na Netflix, é a mais recente superprodução internacional do visionário sul-coreano Bong Joon-ho.

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Okja, o novo filme de Bong Joon-ho, conta a história de Mija, uma jovem camponesa coreana, e a sua melhor amiga, uma superporca batizada Okja. A criatura faz parte de um projeto da Mirando Corporation, uma multinacional da agroquímica à procura de revitalizar a sua imagem depois de um passado cheio de sanguinárias controvérsias. Okja e seus irmãos são supostamente o fruto de uma superporca descoberta no Chile que foi naturalmente reproduzida pelos cientistas da empresa. Dez anos depois de estes porcos miraculosos terem sido entregues a criadores tradicionais à volta do mundo, será escolhido o melhor superporco numa grande festa em Nova Iorque, que servirá também como início da produção em massa destes animais e comercialização da sua carne. Mija, no entanto, não se quer separar de Okja e, juntamente com um grupo de ativistas dos direitos dos animais, vai lutar contra os esquemas da Mirando.

Certamente haverá muitas formas de se começar a analisar este filme. A grande polémica que gerou aquando da sua passagem por Cannes e a subsequente mudança das regras oficiais do festival seriam um lógico ponto de partida. No entanto, aqui propomos começar a discutir Okja a partir de um dos seus elementos mais polarizantes e que, efetivamente, nada tem que ver com políticas de distribuição online. Referimo-nos aos desempenhos extremamente exagerados dos dois atores mais famosos no elenco, Jake Gyllenhaal e Tilda Swinton. Eles interpretam respetivamente um tresloucado apresentador de um programa infantil sobre animais, Johnny Wilcox, e um par de amorais irmãs gémeas que se odeiam, Lucy e Nancy Mirando.

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O filme até se inicia com Swinton, numa cena em que Lucy Mirando anuncia à imprensa o seu projeto em que os superporcos servirão como chave para resolver a fome mundial. Já em Snowpiercer, Bong Joon-ho tinha demonstrado saber o poder magnético de Tilda Swinton a declamar um monólogo, e aqui ela é o ponto de entrada para o filme. Parecendo o cruzamento entre uma caricatura de Gwyneth Paltrow e Ivanka Trump, não há nada de subtil no trabalho da atriz escocesa. Mesmo assim, ainda menos naturalista é Gyllenhaal cuja abordagem estridente vai certamente testar a paciência e credulidade de muitas pessoas. Muitos têm sido os críticos a apontar estas duas prestações como os maiores problemas do filme devido à sua absoluta falta de realismo humano, mas levanta-se aqui uma questão: será que realismo humano é algo aplicável a este filme?

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Okja reúne em si uma série de tonalidades radicalmente díspares, sendo que a doçura de um conto-de-fadas e o humor cáustico de uma sátira anticapitalista parecem, a uma primeira análise, particularmente desarmoniosos. Aliás, o simples facto de Okja não ser um gritante desastre de arritmia tonal é um pequeno milagre e uma prova da disciplina de Bong Joon-ho. Ele consegue construir uma realidade narrativa onde estes conceitos antagónicos conseguem não só coexistir, como se complementam. Em Okja, apenas Mija nos é apresentada como uma pessoa com a qual a audiência se deve identificar, sendo que todas as restantes personagens e perspetivas são abrasivas ou tão estilizadas que funcionam mais como um espetáculo de estranheza e deslumbramento do que como real exercício de empatia.

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Essa técnica relembra o modo como as personagens nos filmes de animação são desenhados, com os protagonistas a normalmente serem bastante mais realistas que o elenco secundário. Quão mais estilizado, mais alienante a figura humana se torna e os vilões normalmente são aqueles mais desumanos e removidos da realidade do espetador que, face ao desconhecido, se apega ao que lhe é familiar no ecrã. É por essa mesma lógica de estilização como orientador de afinidade da audiência, que Swinton e Gyllenhaal são tão grotescos, enquanto a jovem Ahn Seo-Hyun faz de Mija o pulsante centro humano da narrativa, lacerante na sua autenticidade emocional e falta de trejeitos manientos. Poderíamos mesmo dizer que o eventual triunfo emocional de Okja depende quase inteiramente deste jogo de estilização, em que a desumanidade de alguns elementos não é um erro, mas sim uma parte essencial do mecanismo narrativo.

É devido à felicidade bucólica tipificada pelas cenas que passamos ao lado de Mija e Okja nas montanhas da Coreia do Sul, que o artificio mediático de Nova Iorque nos parece uma descida ao inferno de Dante, mesmo antes de o filme nos levar até um matadouro à escala industrial que o realizador filma como um campo de concentração e extermínio para porcos. Durante a segunda metade de Okja, por muito excitantes que sejam as perseguições de automóveis pelas estradas de Seoul ou os esquemas revolucionários dos ativistas liderados por Paul Dano sentimos sempre a perda da felicidade simples do passado campestre.

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Outra grande ajuda ao sucesso do filme é a criação de Okja em si. Os efeitos especiais não são nada de espetacular, mas há uma clara preocupação em estabelecer uma realidade física na interação entre Okja e o ambiente material que a envolve. Para além disso, o seu design é a perfeita mistura de realidade animal e a faceta adorável de uma mascote das animações Disney. Seguindo essa linha de pensamento, o realizador está sempre a salientar quão animalesca a criatura é, criando cenas em volta dos seus movimentos intestinais, mas sugerindo, ao mesmo tempo, uma consciência demasiado complexa e desconfortavelmente humana para um animal criado desde a nascença para ser consumido.

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Esse conflito entre o valor da vida de uma criatura capaz de criar laços afetuosos e a plácida aceitação da matança de animais como fonte de alimento e lucro acaba por ser a mais complexa faceta do filme. Os cineastas aperceberam-se disso mesmo e recusam-se a oferecer respostas fáceis às questões que levantam sobre a moralidade da indústria a da carne. Mesmo o clímax emocional do filme notoriamente não é uma sequência de ação, mas sim uma desesperada proposta de transação comercial, onde aqueles que amam Okja são forçados a reduzi-la a um objeto comercial em nome da sua salvação. O olhar calculista de Tilda Swinton nesta cena é possivelmente uma das mais arrepiantes imagens do ano, uma personificação de Satanás a apreciar o seu triunfo na destruição de uma alma inocente.

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Okja é, efetivamente, um conto moral de grande simplicidade, mesmo que alguns dos problemas que apresenta proponham dolorosas reflexões pessoais para o seu público. Acima de tudo, no entanto, o filme é um espetáculo cinematográfico de grande calibre cheio de elementos visuais memoráveis, sequências de ação feitas para injetar adrenalina nas veias do público, uma coleção de personagens coloridas e uma sublime modulação de ritmos imagéticos e sónicos. Não é, nem de perto, o melhor ou mais original filme de Bong Joon-ho mas é uma obra valiosa que, lembrando a polémica de Cannes, provavelmente é muito mais apropriada ao visionamento no esplendor do grande ecrã da sala de cinema que na diminuta dimensão de um ecrã de computador ou televisão.

 

Okja, em análise
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Movie title: Okja

Date published: 2017-07-03

Director(s): Bong Joon-ho

Actor(s): Ahn Seo-Hyun , Tilda Swinton, Paul Dano, Jake Gyllenhaal, Steven Yeun, Giancarlo Esposito, Shirley Henderson, Lily Collins

Genre: Ação, Aventura, Drama, 2017, 118 min

  • Claudio Alves - 82
  • Miguel Pontares - 75
  • José Vieira Mendes - 75
  • Daniel Rodrigues - 70
76

CONCLUSÃO

Okja é um conto de fadas moralista sobre a desumanidade inerente à indústria da carne e seu uso de manipulações genéticas. Em termos técnicos, o filme é um triunfo com poucas falhas, mas os seus jogos tonais e experimentação performática poderão provar-se demasiado abrasivas para muitas pessoas.

O MELHOR: A personagem de Mija é uma fabulosa heroína cinematográfica.

O PIOR: O modo como muitos subenredos parecem exigir um maior desenvolvimento como, por exemplo, a relação da personagem de Giancarlo Esposito com as duas irmãs Mirando ou o definhar da vida pública e privada de Johnny Wilcox.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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