Olhar o Sol, a Crítica
Estreia já próxima quinta-feira, 19 de fevereiro, nas salas de cinema nacionais o filme que a Alemanha enviou como candidato oficial aos Óscares de 2026: “Olhar o Sol” (2025, Mascha Schilinski). Tem distribuição da Films4You.
A longa-metragem vem já do Festival de Cannes com uma valiosa distinção: o Prémio do Júri. Conta a história de uma família ao longo de um século, primordialmente por uma perspetiva feminina. Não é, contudo, um filme que fale abertamente da História do século XX e início do século XXI na Alemanha. O interesse da autora foi mais por estas personagens do que pelo contexto histórico (ainda que hajam breves referências à II Guerra Mundial ou à Guerra Fria, por exemplo).
Qual a narrativa de Olhar o Sol?

“Olhar o Sol” é uma longa-metragem cuja ação decorre ao longo de um século e centra-se nas mulheres de uma família, umas crianças, outras já adultas. Sem um alinhamento cronológico concreto, as quatro histórias do filme vão-se alternando na montagem. Alma, Erika, Angelika e Lenka são as protagonistas principais de cada uma das histórias que vão tendo pequenos cruzamentos entre si.
O filme passa-se maioritariamente na quinta desta família ao qual se juntam ainda algumas cenas de exteriores, nomeadamente, junto a um rio.
“Olhar o Sol” é a segunda longa-metragem da realizadora Mascha Schilinski mas a primeira a estrear em Portugal (de referir, contudo, que a sua primeira longa-metragem foi feita em contexto académico no terceiro ano da sua licenciatura na Filmakademie Baden-Wuerttemberg). Fazem parte do elenco nomes como Hanna Heckt (a interpretar Alma), Lena Urzendowsky (Angelika), Susanne Wuest (Emma), Luise Heyer (Christa), Laeni Geiseler (Lenka), Lea Drinda (Erika), Florian Geißelmann (Rainer), Gode Benedix (Max), entre outros.
Dar voz às mulheres
“Olhar o Sol” é um filme relevante do ponto de vista feminino. Além de ser realizado por uma mulher, são as mulheres que funcionam como personagens principais da obra.
O início desta densa obra de mais de 2h30 começa com um engano ao espectador. Uma personagem (Erika), aparentemente coxa, percorre um corredor e vai ter com um homem. Esse sim verdadeiramente coxo. Perceberemos, mais tarde, que há uma paixão subtil entre estas duas personagens. Quererá ela ter sentido o que significaria não ter uma perna? Meter-se na pele dele? Lá fora chamam por ela para tratar dos porcos. Erika, entretanto, chega e leva um estalo por tanta demora. Um início poderoso que demonstra uma profundidade nestas personagens.
Entretanto, no pós-genérico, entramos de repente noutra época temporal, vários anos antes. Agora, o foco da história é Alma e as suas irmãs. Elas pregam uma partida à empregada e divertem-se a rir. Segue-se um longo plano de câmara à mão com a criada a perseguir as crianças. Independentemente da banalidade da situação, há que dar os parabéns ao operador de câmara por um trabalho tão difícil e tão bem conseguido. A câmara não para e segue Alma, sozinha. Alma espreita por um buraco da fechadura. Estão a preparar uma cerimónia fúnebre. A morte vai fazer parte desta história. Mais tarde, vai ser Alma a desconfiar da sua própria existência ao ver um quadro de uma criança morta igual a si. Mas, para já, vão enterrar um rapaz que morreu de doença…
Cruzamentos e ligações em Olhar o Sol

Pouco depois, esta história dos anos 1910 cruza-se com a história dos anos 1940 com que o filme abriu. O homem coxo é agora um jovem: Fritz, irmão mais velho de Alma.
Numa refeição todos estão de luto e a morte paira na família. A própria avó diz que será a próxima. Esta história dos anos 1910 será aquela que terá mais desenvolvimento no filme. Contudo, sem que o espectador tenha consciência, por momentos, a história é interrompida por breves planos das cronologias mais recentes. É como se tudo estivesse ligado e o passado tivesse repercussões diretas no futuro.
Entretanto, damos um salto até aos anos 1980 e é a história da adolescente Angelika que conhecemos por alguns momentos. Num corte, regressamos por momentos à história dos anos 1940. No entanto, logo de seguida começa a história dos anos 2020. Numa ação de progresso, Christa deita abaixo restos do passado e faz uma remodelação na casa. Há uma espécie de libertação no destruir da lareira. É como se toda a história desta quinta se dissipasse para um novo começo.
Esta ação é apenas o início desta fase da história, contudo. Entretanto, voltamos aos anos 1980 e centramo-nos durante algum tempo em Angelika. Ela é provocadora e quer ter uma relação íntima tanto com o seu tio como com o seu primo.
Entretanto, o rio onde estas personagens tomam banho cruza-se com a história dos anos 2020 onde Lenka e a sua amiga Kaya vão brincar. Kaya será também, na verdade, um cruzamento entre a história dos anos 1980 e 2020 já que a música preferida de Angelika é ouvida em ambas as histórias e, depois, Kaya revela que Angelika era a sua mãe.
Um breve flashback
Ao retomar mais tarde a história mais antiga, descobrimos a causa de Fritz ser perneta. É a única história que, deliberadamente volta atrás no tempo para contextualizar a narrativa. Assim, sabemos que os seus pais tentaram amputar-lhe um braço para ele não ir ao serviço militar. Não conseguem fazê-lo mas, ao fugir, ele cai e parte uma perna que, entretanto, teve de ser amputada. Alma vê toda a situação que é descrita como um “acidente de trabalho”.
Considerações finais sobre Olhar o Sol

O filme termina com duas personagens elevando-se em pleno voo, como que a caminho da morte, num conceito comum das histórias. É que, no cruzamento das quatro histórias, nenhuma das mulheres sobrevive para o capítulo seguinte. Em primeiro lugar, Alma não sobreviveu para a história dos anos 1940. Terá, afinal, o retrato sido um presságio e ser uma previsão do seu futuro? Pelo contrário, o seu irmão Fritz é dos poucos que se mantém nas duas histórias. Depois, Erika também terá morrido afogada entre os anos 1940 e 1980. Por fim, Angelika deixou órfã a sua filha Kaya que, no final da sua história, desapareceu como um fantasma na fotografia de família. Será, depois, este o destino precoce de Lenka e Kaya?
“Olhar o Sol” é um filme contado de forma não-linear onde as histórias se vão alternando na montagem. Não vejo isso como um problema, pelo contrário. Até joga em favor do filme como forma de equilíbrio. Contudo, as cerca de 2h30 de filme mostram-se algo escassas para contar a história de diferentes mulheres ao longo de um século. Muitas vezes, sentimos que a realizadora dá atenção a não-ações e acaba por não desenvolver de forma profunda as diferentes ‘histórias’.
Não ajuda também o desequilíbrio de duração entre histórias. A saber, as histórias dos anos 1910 e 1980 tem mais tempo de narrativa, com a primeira a ser a maior de todas. Pelo contrário, as histórias dos anos 1940 e 2020 têm pouco desenvolvimento. Se calhar, mesmo que a duração final saísse ‘prejudicada’ podíamos ter ganho com mais meia hora de filme, diria. A voz off, entre diferentes protagonistas, parece querer colmatar isso mas, de facto, não consegue.
A imagem e o som
Como ponto positivo, ainda assim, está todo o lado sensorial do filme. Há 10 anos – com “O Filho de Saul” (2015, László Nemes), curiosamente vencedor de outro prémio em Cannes: o Grande Prémio do Júri – que não tinha uma experiência tão impactante na sala de cinema. “Olhar o Sol” tem, pois, uma fotografia muitíssimo bem conseguida em 4:3, onde os contrastes e os negros dão-nos sentimentos implícitos das personagens. De referir, inclusive, que as diferentes épocas trazem tons que se vão tornando ligeiramente diferentes entre si, começando num tom negro e pesado dos anos 1910 para um tom mais quente e veranil dos anos 2020. Para além disto, o som é igualmente outro ponto forte deste filme. Nunca o som de moscas, vento, fagulhas ou mesmo do vazio foi tão significativo.
“Olhar o Sol” falha, contudo, no argumento. Há um vazio no desenvolvimentos das personagens e parece faltar acontecimentos relevantes que, de facto, tenham impacto nestas mulheres. É pena.
Olhar o Sol
Conclusão
- “Olhar o Sol” é um drama de cariz histórico que nos dá o retrato de uma família alemã ao longo de 4 gerações, durante 100 anos. Trata-se, portanto, de um filme denso e arriscado em termos temporais.
- É uma obra visualmente e sensorialmente muito impactante, com uma direção de fotografia e de som que imergem o espectador no filme. Contudo, em termos narrativos, fica muito aquém pois não há verdadeiramente uma história com princípio, meio e fim, mas antes uma coleção de cenas muitas vezes desconexas ou pouco significativas entre si.

