Só Deus Perdoa, em análise

 

POSTER so deus perdoa
  • Título Original: Only God Forgives
  • Realizador: Nicholas Winding Refn
  • Elenco:  Ryan Gosling, Kristin Scott Thomas, Vithaya Pansringarm
  • Género: Crime, Drama
  • ZON | 2013 | 90 min

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Abrindo já as hostilidades dando nota do argumento escrito por Nicholas Winding Refn, igualmente realizador – para, então, posteriormente, escalpelizar toda a trama -, “Only God Forgives” apresenta-nos Billy (Tom Burke), Julian (Ryan Gosling), Chang (Vithaya Pansringarm) e Crystal (Kristin Scott Thomas). Palavras para descrevê-los: Billy será o inconsciente rebelde. Julian, o misterioso e violento atormentado. Chang, o implacável. Crystal, a vingativa e cobarde. E todos eles criminosos.

Billy envolve-se numa violação (que resulta em assassínio) de uma prostituta de 16 anos, sendo, nessa sequência, morto pelo pai da mesma – vingança incentivada e autorizada pelo polícia Chang, que executa os desobedientes e perseguidores fazendo uso da sua espada (e eventualmente outros utensílios menos prováveis que lhe possam chegar às mãos). Julian é o irmão de Billy. Dirige um clube de boxe, servindo unicamente como fachada ao tráfico de droga, negócio também partilhado pela mãe de ambos, Crystal, que pretende (e empreende) vingança pela morte de Billy. Com menor relevo, mas sobretudo tendo como função auxiliar a vincar um perfil (o de Julian), temos Mai (Rhatha Phongam), dançarina erótica que acompanha Julian em vários momentos da película (sejam eles de diversão, conflito ou ‘faz de conta’).

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Diversos pontos negativos têm sido infligidos a esta última obra do criador de “Drive” (embora em “Drive”, N. W. Refn se tenha limitado à realização): desde a escassez de palavras de R. Gosling até à sua constante melancolia e aparente estoicismo, passando por uma alegada caracterização “apalhaçada” e suposta fraca ‘performance’ de K. S. Thomas. Já nem fazendo alusão às acusações de pretensão artística do realizador.

Elaborando uma defesa em torno da personagem interpretada por R. Gosling, parece-nos que as suas ínfimas frases são suficientes. Pois, complementando-as, temos a sua expressão, valendo mais do que mil palavras. Anestesiado, apático, traumatizado com um passado que só na nossa imaginação poderemos alcançar, a verdade é que está tudo lá, e pouco mais haverá a transmitir. Sim, é um ser aparentemente ‘robotizado’. Sim, surge anestesiado, apático e melancólico. A questão que deveremos colocar é: será assim tão estranho? Será assim tão fora de propósito a construção desta personagem por N. W. Refn? De qualquer forma, e se estivermos atentos, Julian não é assim tão passivo, e uma ou outra explosão não fugirá da nossa memória. Em qualquer caso, e se nos recordarmos, momentos houve em que aquele olhar não foi, totalmente inescrutável. Submissão? Súplica? Necessidade de ser amado? Acresce que um bom ‘script’ e uma convincente realização não necessitam obrigatoriamente de diálogos em quantidade, pelo que uma película que privilegia o estilo, deixando um pouco para trás as palavras não terá, necessariamente, menos valia que produções alicerçadas sobre o inverso. Temos exemplos disso e nascidos nos mais dourados berços cinéfilos.

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Crystal é uma gélida empresária do crime, surgindo-nos como a mãe que deseja a retribuição pela morte do filho, mas tornando-se cada vez mais frágil perante o outro lado do conflito, liderado por Chang. Mas esse decaimento não é uma mera perda de forças. É tão-somente manifestação da sua cobardia. Pois ela não amará mais do que a si própria. Não é a ‘performance’ da actriz que esmorece. É o carácter da personagem que é, em si mesmo, pusilânime.

Only God Forgives“, tal como “Drive”, não é detentor de um argumento genial. É a visualização psicadélica que nos hipnotiza. É o fenomenal trabalho de câmara de Larry Smith (“Eyes Wide Shut”) – que, aliás, nos traz à memória Stanley Kubrick, através dos corredores do hotel (recordemos “Shining”) e do sex-club . São as pontuais referências a um ‘voyeurismo’ perfeitamente convergente com as perseguições que se sucedem. É o ‘mix’ vermelho sangue com o próprio sangrar das personagens. É a fotografia tirada a Banguecoque. É, essencialmente, todo o simbolismo presente: indícios edipianos; a comprovada forte ligação de Julian à mãe, inteligentemente demonstrada nos últimos minutos do filme; o destino final de Julian.

Ainda escrutinando o protagonista, em Cannes, N. W. Refn terá revelado que o seu objectivo foi o de construir uma personagem cujo desejo seria o de lutar com Deus, o que então se coadunaria com os ambientes vermelhos ‘neonizados’ associados ao submundo de Julian, plano infernal e sem retorno. Não parece que isto seja evidente por aí além, não se afigura que o realizador tenha tido pleno sucesso neste seu propósito. Será algo tão enraizado nas profundezas do argumento que só talvez esmiuçando e filosofando sobre o ‘screenplay’, possamos chegar lá. Será um desafio, uma luta que talvez se traduza exactamente na guerra travada entre Julian e Chang, na medida em que este último é tomado, pelos seus seguidores, como uma entidade divina, destinada a repor as injustiças ocorridas.

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Referência, como não poderia deixar de ser, à sonoridade de Cliff Martinez que, da mesma forma gloriosa que contribuiu para “Drive”, nos oferece batidas e melodias perfeitamente enquadráveis no complexo artístico de N. W. Refn.

No cômputo geral, a realização é possuidora de qualidades inegáveis, obviamente a agradar mais a uns do que a outros. “Drive” será porventura mais rico tecnicamente. Mas quanto ao complexo emocional das personagens, não se afigura que “Only God Forgives” fique atrás do filme de 2011.

Vencedor do Official Competition Award para Melhor Filme, no Sydney Film Festival, já foi perdoado. E abençoado.

SME (7/10)

Sofia Melo Esteves

Advogada Página Facebook: Críticas Cinematográficas e Notícias Cinéfilas por Sofia de Melo Esteves “My aim is to put down on paper what I see and what I feel in the best and simplest way.” - Ernest Hemingway

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