Predestinado, em análise

Predestinado

FICHA TÉCNICA

Título Original: Predestination
Realizador: Irmãos Spierig
Elenco: Ethan Hawke, Noah Taylor, Christopher Kirby, Sarah Snook,
Género: Drama, Mistério, Sci-fi, Thriller
Cinemundo | 2015 | 97 min

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Depois de “Daybreakers”, os irmãos Spierig regressam ao presente com uma adaptação solipsista da short story “All You Zombies” de Robert A. Heinlein. Conseguem conceber o ciclo da vida como um circuito fechado de paradoxos temporais, e um barista pacóvio que flutua pelo tempo na pele de um agente secreto armado em Poirot?


A Galinha Ou O Ovo?

Já todos ouvimos falar, aqui e ali, do fenómeno paradoxal do tempo. Mas afinal o que é isso dos paradoxos? Bem, trocando a coisa por miúdos, imaginem um viajante no tempo (entidade, objeto ou informação) que existe numa realidade temporal em repetição contínua. Para ser ainda mais preciso, e no contexto pré-determinista da obra, talvez seja mais seguro afirmar que, tal como a falácia do ovo e da galinha, será que o filho nasceu primeiro que o pai? Baralhados? Nem o próprio protagonista (Ethan Hawke) parece ter a resposta para o clássico enigma ao afirmar numa das notas de imprensa após a estreia de Predestinado, “que quem achar que percebeu o filme, está a mentir com todos os dentes”.

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Barista Ou Agente Secreto?

Nem uma coisa, nem outra, mas ambas ao mesmo tempo e ainda mais…É caso para dizer que as aparências iludem, e antes de darem por ela, hão-de encontrar-se naquele momento arrogante em que pensam que conseguem suplantar a inteligência de um argumento repleto de armadilhas engenhosas. Aliás, a fita arranca logo a bombar com alguém a tentar desmantelar um engenho explosivo. Contudo, o rosto heróico e corajoso permanece ocultado pela sua desfiguração até a reconstrução cirúrgica colar a cara de um Ethan Hawke. Elucidado sobre a sua nova missão, o “Departamento Temporal” redireciona-o para a década de 70, aonde um tal de “Fizzle Bomber” andava a explodir corpos a torto e a direito pelas ruas nova-iorquinas com o mesmo modus operandi e assinatura pirotécnica.

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Mariachi Desperado?

É ali, nos subúrbios pós-guerra de Ohio, que o saloio bartender (Ethan Hawke) faz realmente de barista: atura as pielas dos bêbados de serviço e oferece o ombro compreensivo em horário de expediente. E tudo começa sempre quando um homem entra num bar, o que não podia invocar um cliché mais desgastado. Beber para esquecer, parece o lema de um trabalhador comum incapaz de sair da cepa torta, diria “A Mãe Solteira” (Sarah Snook), pseudónimo de um escritor hermafrodita de artigos confessionais. Provavelmente, o “Pop´s Place Bar” nunca fez sobressair um diálogo com conteúdo humano tão profundo, mas a verdade é que Ethan Hawke e Sarah Snook estabelecem um colóquio a sós de cinquenta minutos que nos arrebata num segundo. Mesmo que se possa pensar que existe alguma predominância em ambientes algo estáticos, as mudanças de cenários acontecem na altura certa e são drásticas, basta sacar daquele porta-guitarras famoso para saltar até à era minimalista da exploração espacial.

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Acompanhantes De Astronautas?

Naquela altura (anos 60), um programa governamental denominado de “Space Corp”, recrutava candidatos com aptidões especiais a fim de terem a sua primeira experiência no espaço. Na verdade, o casting servia para identificar talentos prodigiosos que, oficiosamente, pudessem preencher as fileiras dos chamados “Agentes Temporais”. O Sr. Robertson (Noah Taylor) prefere chamar-lhe uma organização progressista, uma espécie de FBI omnipresente que tenta travar a execução de crimes antes do seu acontecimento. E à medida que “A Mãe Solteira” vai soltando as camadas de sofrimento da sua história de vida inacreditável, o barman/agente temporal vai-se redescobrindo e identificando de uma forma nada convencional. No rasto do “Fizzle Bomber”, acabam mesmo por aproximar-se de um denominador comum até chegarem a um ponto de dependência mútua para o desfecho consonante de ambas as vontades.

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Paradoxo De Predestinação?

Predestinado é, definitivamente, um dos maiores desafios inteletuais que o espetador de cinema terá este ano. Despojado de grandes artifícios tecnológicos e um elenco vasto, os irmãos Spierig conseguem demonstrar que pouco às vezes pode ser muito. Com um guião de trinta páginas escrito pelos próprios a partir de uma piada sarcástica com meia dúzia de folhas, a riqueza deste achado cinematográfico reside na capacidade de escalar paulatinamente os níveis de tensão até ao corolário final. A narrativa floreada com uns laivos de ironia negra é um autêntico labirinto de contradições paradoxais, que configuram o móbil impulsionador de toda a trama esplanada com uma mestria de “storytelling” invulgar. Predestinado é a prova de que bastam três personagens carismáticas e uma palma de cenários vivos e detalhados para se alcançar algo especial e memorável.

P.S – “E Se Eu O Conseguisse Colocar À Tua Frente? O Homem Que Destruiu A Tua Vida. Se Eu Pudesse Garantir Que Saías Impune, Matava-lo?”

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Miguel Simão

Jurista e Poeta em algumas horas vagas. Cinéfilo incurável com forte pancada pelo sci-fi, que se perde algures pelo vício noturno de umas quantas séries televisivas de renome; amaldiçoado pelo perfecionismo estético de uma resma de palavras mais ou menos caras. Podem encontrar-me a divagar entre a Terra e o Espaço no meu blogue premiado Última Transmissão Humana.

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