14º IndieLisboa | Prevenge, em análise

Numa desconcertante mistura de comédia misantrópica e terror psicológico, Prevenge traz ao grande ecrã uma nova e inesperada visão da gravidez.

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Com a recente criação de uma nova rubrica sobre Mulheres Realizadoras, na Magazine HD estamos a fazer questão de celebrar os esforços de mulheres atrás das câmaras que, por uma miríade de razões injustas e sistémicas, tendem a ser muito mais ignoradas que os seus colegas masculinos. Tal reconhecimento é importante, não só por razões óbvias de justiça e igual oportunidade, como também pelo facto que, diferentes tipos de artistas, mesmo a nível de género, trazem visões diferentes e necessárias à diversificação e evolução do panorama cinematográfico. Prevenge de Alice Lowe, por exemplo, é um dos filmes em exibição no 14º IndieLisboa que demonstra um ponto de vista intrinsecamente feminino.

Este é um filme de terror cuja protagonista é Ruth, uma mulher grávida que recentemente perdeu o seu companheiro e, pelo começo da narrativa, se tornou numa serial killer aos comandos de uma voz misteriosa que vem do seu feto. Para fãs de filmes de terror, o uso da gravidez como elemento chave para um pesadelo cinematográfico não será nenhuma novidade (é quase um subgénero). Muitos dos melhores filmes a usarem tal ideia foram até realizados por homens como Roman Polanski. No entanto, Alice Lowe traz à sua proposta sanguinária uma qualidade íntima que é refrescante e surpreendente. Para a realizadora, argumentista e atriz, o foco do projeto é a psique da mulher grávida, o sofrimento do que aparenta ser uma depressão pré-parto tingida de loucura e não tanto a condição fisicamente parasítica da gravidez que, até agora, costuma ser o foco principal de tais explorações no contexto do terror.

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A ajudar e influenciar a cineasta estava certamente a sua própria gravidez que, na verdade, foi a absoluta raison d’être para todo o projeto. Quando engravidou, Alice Lowe, que costuma trabalhar maioritariamente como atriz, viu-se sem ofertas de trabalho durante meses, até que se revoltou e decidiu resolver a situação com um filme explicitamente concebido em volta do seu estado gestativo. Daí nasceu Prevenge, filmado em 11 dias, e marcado por uma óbvia carga de investimento pessoal pela parte de Lowe.

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No que diz respeito ao trabalho de ator, Lowe demonstra, como seria de esperar, as genuínas marcas da fisicalidade, postura e ritmos corporais de uma mulher grávida. Mas a sua maravilhosa prestação não se resume só a um exercício físico, sendo no inesperado humor negro de Prevenge, que Lowe realmente brilha. Trabalhando sobre o que, nos últimos anos, se tem vindo a afirmar como o seu característico registo cómico, ela traz uma secura formidável à sua personagem. Mesmo nas ocasiões mais lúdicras, ridículas e abertamente cómicas, a atitude de Ruth é sempre tingida por uma grande quantidade de ironia casual, trespassada por uma apoplética misantropia que nunca tem melhor expressão que nas sequências mais sanguinárias do filme.

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Não que Lowe esteja feliz em realizar uma simples exploração cómica das habilidades homicidas de uma futura mãe. Como dissemos anteriormente, Prevenge interessa-se sobretudo pela psique da sua protagonista, sendo mais um estudo de personagem macabro que um gore fest descomplicado. À medida que a fricção entre os comandos diabólicos do futuro bebé e a vontade pessoal da sua mãe se vai evidenciando, a audiência começa a percecionar o que se esconde nas entrelinhas do filme. Esta é, no final, a história de uma mãe inesperadamente solteira que teme ver a sua vida ser completamente subjugada à existência do seu filho. Uma mulher que teme deixar de existir como um indivíduo para passar a ser somente uma mãe. Uma mulher que está a ver o seu autocontrolo sobre corpo e mente ser subjugado ao milagre da gravidez.

É fácil afirmar que, para Lowe, a gravidez é efetivamente algo miraculoso, fantástico e misterioso, pois na mesma medida em que o filme retrata o processo como um pesadelo, também demonstra considerável reverência para com a condição fecunda de Ruth. Essa multiplicidade de ideias sobre o mesmo tema, manifesta-se também nos homicídios cometidos pela futura mãe. Primeiro parece que estamos numa fantasia proto feminista em que homens nojentos e misóginos são mortalmente punidos, mas, à medida que o filme avança, vamos vendo Ruth matar mulheres indiscriminadamente, dando aso a novas leituras mais direcionadas para o niilismo espiritual da protagonista e para uma suposta missão de vingança contra o mundo que permitiu que o seu bebé venha nascer sem pai.

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Nesse conflito interno de uma pessoa enlouquecida pelo luto, Prevenge depara-se com o seu centro emocional. É essa mesma qualidade que serve para ancorar o último ato da história, onde o filme se torna notoriamente menos energético e vai ganhando uma indefinida amorfia estrutural que é muito menos elegante que a violenta primeira hora. Mesmo assim, a espetacular prestação de Lowe e o modo como o seu argumento delineia o pânico caótico de Ruth mais do que redimem a s passagens menos virtuosas de Prevenge.

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Infelizmente, em termos formais, a cineasta não demonstra nenhuma da mesma obstinação inspirada que é evidente no seu trabalho de argumentista e atriz. Há algo de perfuntório e prosaico no trabalho de câmara ao ombro que sugere realismo e urgência dramatúrgica, por exemplo, e a montagem também nunca se eleva acima da mera eficiência. No que diz respeito à paisagem sónica de Prevenge, a conversa é um pouco diferente, sendo que a banda-sonora de Pablo Clements e James Griffith, conhecidos juntamente como Toydrum, traz uma qualidade apropriadamente desconcertante à ação e é uma boa ilustração musical do estado psíquico da nossa anti-heroína.

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No final, Prevenge não é um filme perfeito, mas sim uma tradução fascinante das ansiedades e medos de uma futura mãe solteira. O uso de códigos e mecanismos do cinema de terror é inspirado e tem o esperado efeito de tornar tanto os temas complicados, como o humor mórbido do filme, em elementos mais acessíveis e fáceis de engolir do que poderiam ter sido nas mãos de outro cineasta. Admitimos que este tipo de comédia de terror não será para todos, mas vale muito a pena ver esta proposta idiossincrática e o filme em si dá-nos esperança de um futuro excitante na carreira de Alice Lowe enquanto comediante, atriz e realizadora.

 

Prevenge, em análise
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Movie title: Prevenge

Date published: 2017-05-08

Director(s): Alice Lowe

Actor(s): Alice Lowe, Kayvan Novak, Kate Dickie, Tom Davis, Jo Hartley

Genre: Drama, Comédia, Terror, Fantasia, 2016, 88 min

  • Cláudio Alves - 75
75

CONCLUSÃO

Prevenge é uma deliciosa comédia negra que usa códigos e imagéticas do cinema de terror para habilmente trazer ao grande ecrã uma série de ansiedades associadas à gravidez, que raramente são apresentadas em filme.

O MELHOR: O humor negro típico da maravilhosa Alice Lowe.

O PIOR: O modo como o filme não parece ter um final resolvido. Isso não é uma crítica da sua ambivalência, mas sim do modo como a cineasta não parece ter bem a certeza como terminar o seu insano estudo de personagem.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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