Prometheus, em análise

 

Realizador: Ridley Scott

Atores: Noomi Rapace, Michael Fassbender, Charlize Theron

Género: Ficção Científica, Thriller

Big Pictures | 2012 | 124 min

Classificação:

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Por mais tentador que seja, um regresso ao passado representa riscos incalculáveis, e exemplos vivos mostraram que o destino desastroso é uma estrada fácil – e não, não vamos elaborar muito sobre a amálgama de pedaços do imaginário que Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal esmigalhou sem dó nem piedade em 2008.Prometheus, que dificilmente poderia projetar maiores expectativas, é um salto no tempo, e apesar de deixar muitas questões a pairar, deixa uma verdade irredutível – o espaço é como uma segunda casa de Ridley Scott.Tentando sumarizar o enredo provocador, seguimos uma equipa de exploradores que acordam de uma viagem de dois anos numa nave que partira à procura da origem da existência humana nos cantos mais recônditos do universo. E porque não queremos estragar nenhuma surpresa com spoilers mal-vindos, só podemos assegurar que quando o ponteiro da intensidade aumenta, o realizador inglês consegue infundir frescura em algumas das pistas quintessenciais de Alien.

O nome da nave que seguimos bebe inspiração na história da mitologia grega onde o deus Prometeu, assaz defensor da humanidade, roubou o fogo de Zeus e meios de vida para os dar aos mortais. Enraivecido, Zeus enviou para a terra Pandora, cuja caixa estava cheia de maldade e terror, enquanto Prometeu foi castigado ao tormento eterno. Estas referências mitológicas ecoam por todo o filme, ainda que nem sempre da forma mais convincente e eficiente do ponto de vista narrativo e filosófico.

A estrutura e o core temático bebem muito da ópera de ficção de 1968 de Stanley Kubrick, 2001: Odisseia no Espaço. E de uma forma alegórica, Prometheus relaciona-se também com Melancholia de Lars Von Trier e A Árvore de Vida de Terrence Malick, dois filmes que tiveram muito a dizer sobre a origem e o destino da vida, e sobre o papel do Homem no mundo.

Pensar sobre o início do filme e da vida, ou sobre as motivações dos “Engenheiros”, ou sobre dicotomias como o Criacionismo e o Darwinismo ou a fé e a ciência… é isso que eleva Prometheus acima da amálgama de blockbusters com que somos banhados todos os anos. E são também estas questões primordiais que lhe dão ainda mais alcance e ambição do que os filmes onde bebe inspiração. O facto de muitas respostas não serem dadas não deve representar um problema, porque o foco aponta exatamente para procura e a formulação de questões. Questões essas para as quais talvez nunca encontremos resposta.

O maior erro, parece-nos, é que o factor prequela se deixou enterrar demasiado nos labirintos subconscientes da audiência. Porque tomar Prometheus simplesmente como a prequela direta da Alien – algo que Ridley Scott tentou afastar suavemente dizendo que ambos os filmes partilhavam apenas o DNA – tanto lhe retira significado como capacidade de expressão. A irresistibilidade de Alien assentava na sua pureza de uma “casa do terror perdida no espaço”. Prometheus joga num outro campeonato – não melhor ou pior, mas diferente.

A única frustração que nos oferece está infelizmente no argumento, que partilhando tanto do DNA de Alien, como da série televisiva Lost (afinal, Damon Lindelof foi um dos argumentistas), acaba por aglutinar mais ideias e provocações temáticas do que aquelas que seria possível digerir em apenas duas horas.

Mas se as ambições narrativas deixam um pouco a desejar, Ridley Scott e companhia compensam no design e no espetáculo visual majestoso. Desde as naves, aos planetas, ao guarda-roupa, às estruturas, aos engenheiros, às tecnologias… tudo tresanda a, mais que estado de arte, a futuro.

A banda sonora de Marc Streitenfeld presta, também ela, uma apaixonada homenagem à saga Alien – adquirindo especial pungência nos momentos mais intensos. A fotografia de Dariusz Wolski molda-se eximiamente no design impressionante baseado nas ideias originais de H R Giger – e que bem incorporado está o design de Alien e Aliens. O 3D enquadra-se bem na pintura, e não tendo a visibilidade de outros títulos, é usado de forma pensada e continuada, acrescentando profundidade à imagem e um fascínio peculiar às cenas holográficas.

Quanto ao elenco, o seu core tríptico é um dos alicerces do título.

Noomi Rapace já começa a ser sinónimo de performances poderosas de mulheres fortes, conseguindo afastar definitivamente o fantasma de Ripley (que será, contudo, para sempre insubstituível) numa das cenas de primeiros socorros mais violentas da história do Cinema, aquela que será icónica e intemporalmente considerada “a cena”, e que todos reconhecerão quando chegar a altura.

O androide de Michael Fassbender será, por ventura, o único que terá a possibilidade de fazer sombra à heroína de Rapace. O ator germânico constrói um personagem fascinante com uma agenda desconhecida que tem uma textura profunda.

Por fim, Charlize Theron, num twist de “rainha gelada”, traz-nos uma Meredith Vickers enigmática e cheia de questões motivacionais cruciais.

Sem que nos aventuremos pela análise dos significados vários de Prometheus – o que além de muito espaço, requereria também muitos spoilers – é feita uma justaposição entre temas e dicotomias cuja discussão já data de há muitos mais anos do que as palavras num documento podem atestar.

Aceitando as suas pequenas quezílias de ritmo e algumas escolhas criativas questionáveis, Prometheus é um espetáculo monumental, que pode ter no tempo e no amadurecimento o reconhecimento como ícone de uma era no tempo. Esperar um filme na senda de Alien seria, à partida, uma sentença e uma redução – primeiro, porque seria uma impossibilidade competir com o status do original, segundo, porque Prometheus merece ser recordado, mesmo na sua existência imperfeito, como algo mais do que uma prequela, como um filme que ousou questionar a nossa origem e que trouxe uma resposta que mesmo insuficiente ou ambígua, é inescusavelmente fascinante.

Talvez seja o caso de uma frustração que é talvez a mais deceptiva: aquela que existe porque estivemos a um mero passo da glória total.

 

Catarina Oliveira

Licenciada em Ciências da Comunicação e com formação complementar em Design Gráfico, além de editora e diretora criativa da MHD é também uma das sócias fundadoras da mais recente face da empresa. Colaboradora de Cinema na Vogue Portugal. Gestora de conteúdo na Lava Surf Culture e NOS Empresas - Criar uma Empresa. Autora do blog de Cinema Close-Up.

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