A Rapariga no Comboio | Do Livro à Tela

Será que o filme A Rapariga no Comboio foi uma adaptação bem conseguida? A Magazine.HD fez a análise para ti.

AVISO: Este artigo contém spoilers do livro e do filme!

Cada vez que um livro ganha uma adaptação cinematográfica ou televisiva, paira sempre no ar um nervoso miudinho. Os fãs ficam simultaneamente entusiasmados e receosos. Este último sentimento é mais comum, pois são raros os casos em que os fãs não se queixaram das adaptações. Na maioria das vezes as reclamações estão relacionadas com o pormenor A ou B que não foi incluído na adaptação. Para eles, a ausência desses elementos torna a adaptação incompleta e incompreensível aos olhos de quem não leu os livros. Em certas adaptações, é de facto essencial passar certos detalhes do livro para o filme, mas a maioria não é totalmente imprescindível. Desde que a adaptação consiga captar a alma da história e dos seus intervenientes, tanto o livro como o filme/série serão bons, à sua maneira, dentro do seu próprio formato.

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E isto leva-nos à adaptação do romance A Rapariga no Comboio de Paula Hawkins. De uma maneira geral, a adaptação feita por Erin Cressida Wilson, a argumentista, e Tate Taylor, o realizador, não se afastou muito do material original. O grande problema de A Rapariga no Comboio foi ter tentado ser o mais fiel ao livro possível. Mas o que acabou por acontecer foi que o filme concentrou-se demasiado em certos aspectos do livro que não eram importantes, e ignorou elementos cruciais para a narrativa e o seu desfecho.

a rapariga no comboio

Tal como no livro, o filme de A Rapariga no Comboio segue uma narrativa não-linear, dividindo-se nas perspectivas de três personagens – Rachel, Megan e Anna. Cada segmento destes pontos de vista acrescenta novas informações sobre o mistério da história. Na obra de Paula Hawkins, este formato resulta bastante bem, pois há espaço para cada uma das personagens contar o seu lado da história, dar asas aos seus pensamentos, sem se tornar enfadonho. No filme de Taylor, enquanto este formato não-linear e tripartido ajuda, em parte, o desenrolar do enredo, a construção das personagens perde-se totalmente.

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Outro problema na adaptação feita do livro A Rapariga no Comboio, e aqui encontramos novamente um excesso de fidelidade em relação ao livro, é o uso exagerado da técnica voz-off. É normal lermos longas passagens de monólogos mentais das personagens na obra de Hawkins, tal como em qualquer outro livro. Mas se esse elemento for usado num filme, pode tornar-se cansativo e quebrar o ritmo do filme. Infelizmente esta situação acontece muitas vezes durante a adaptação de Tate Taylor.

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As grandes mudanças entre o livro e o filme que eventualmente prejudicaram a adaptação, estão relacionadas com os personagens. Determinados elementos da caracterização destas figuras foram ignorados e teriam permitido ao espectador juntar as peças do puzzle, como acontece ao ler o livro, em vez de serem apanhados de surpresa. Apenas a protagonista, Rachel (Emily Blunt), ficou minimamente bem representada no filme. O resto dos personagens não teve direito ao mesmo tipo de representação, especialmente as duas figuras-chave deste mistério, Megan e Tom.

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Durante grande parte da obra de Hawkins o leitor altera constantemente a sua opinião sobre quem será o assassino de Megan. Isto só é possível pois ficamos a conhecer diferentes facetas das figuras da história. À medida que o nosso ponto de vista sobre certos personagens se altera, as nossas suspeitas também.

No filme de Tate Taylor, esta mutação simplesmente não acontece porque os personagens são vagamente desenvolvidos. Vejamos por exemplo o caso de Scott, o marido de Megan. No livro sabemos o quão controlador e agressivo ele é, e a certa altura é possível vê-lo como o assassino. No filme ele é representado com um homem, acima de tudo, temperamental. Durante as sessões entre Megan e Kamal referem de forma breve o seu lado manipulador, a propósito da leitura que ele fazia dos emails da esposa. Mas o confronto final entre ele e Rachel nem chega a ser violento. No livro, Scott arrasta Rachel pela casa e tranca-a num quarto. Se o filme explorasse melhor o personagem, a sensação de inquietude e dúvida desta história aumentava e o suspense melhorava.

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Em relação à personagem de Megan, há informações sobre o seu passado que são cruciais para entender a personagem e que o filme ignora. A morte do seu irmão, algo que a afectou tremendamente, a relação com Mac e a trágica morte da sua bebé, são referidos no filme, mas não são explorados correctamente. Assim, aos olhos dos espectadores, Megan é apenas uma mulher insatisfeita com a sua vida, sem grande profundidade ou complexidade.

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Por fim, resta falar de Tom. Aqui encontramos possivelmente o pior personagem adaptado neste filme. No livro ele é um personagem presente. Ele tenta ajudar Rachel, oferece-lhe dinheiro, conforta-a, e ao mesmo tempo, tenta manter a harmonia na sua casa e no seu casamento. No filme, Tom aparece pouca vezes e sem qualquer relevância, o que torna o grande final muito anti-climático.

Um momento muito importante na história de A Rapariga no Comboio é quando Rachel consegue finalmente lembrar-se do que aconteceu na noite em que Megan desapareceu. Para além desta lembrança, Rachel também percebe que as recordações que tinha dos seus momentos alcoolizada não eram totalmente reais. Mais uma vez, o filme decidiu seguir uma abordagem diferente do livro para estas duas situações.

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Na obra de Hawkins, Rachel recupera as memórias daquela fatídica noite graças ao homem ruivo que ela vê regularmente no comboio. Em relação aos momentos em que se encontrava alcoolizada, Rachel começa a perceber, depois de algumas sessões com Kamal Abdic, que as versões contadas pelo Tom eram falsas. Ao chegar a esta conclusão, e juntando as informações dadas pelo homem ruivo, Rachel (e também o leitor) percebe que Tom não é quem dizer ser, e está por trás do desaparecimento e morte de Megan.

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No filme, o homem ruivo não revela nada a Rachel, o que nos faz questionar a sua presença na adaptação. A certa altura, a protagonista cruza-se no comboio com Martha, uma ex-colega de trabalho de Tom. Segundo o que Tom lhe tinha contado, Rachel, alcoolizada, teria discutido com Martha e como consequência, ele tinha sido despedido. Ao pedir desculpa a Martha pelo seu comportamento, esta personagem desvenda praticamente o mistério todo do filme. Acontece que mesmo alcoolizada, Rachel nunca armou escândalos nem entrou em discussões. Se Tom tinha sido despedido, era por se envolver constantemente com as suas colegas de trabalho. Neste instante, tanto o espectador como Rachel ficam com o mistério de A Rapariga no Comboio resolvido.

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Esta mudança permite que o efeito surpresa do filme tenha algum impacto e demonstra de uma forma simples e eficaz o lado desconhecido de Tom. Contudo, o filme não consegue transpor o suspense progressivo que se sente no livro até chegarmos ao clímax da história. Tendo em conta que esta obra se trata de um thriller, suspense é algo fundamental. Infelizmente esta característica este muito ausente no filme.

A adaptação de A Rapariga no Comboio peca pela má abordagem e desenvolvimento dos personagens da trama e por uma grande carência de suspense e inquietude no seu enredo. Ainda assim, cada um dos atores desempenhou bem (na medida dos possíveis) os seus papéis, especialmente Emily Blunt.

a rapariga no comboioA Rapariga no Comboio

Título original: The Girl on the Train

Autora: Paula Hawkins

Editora nacional: Topseller

Realizador: Tate Taylor

Elenco: Emily Blunt, Haley Bennett, Rebecca Ferguson, Justin Theroux, Luke Evans

Trailer

 


 

Filipa Machado

Uma fã da 7ª Arte, adora ler e passar as suas folgas a fazer maratonas de séries e não pode viver sem um pouco de anime no seu dia a dia.

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