LEFFEST ’16 | Sand Storm, em análise

Numa comunidade beduína no meio do deserto israelita, uma mãe e filha veem-se em conflito com a sociedade patriarcal que as subjugou durante toda a vida.

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Na abertura, Sand Storm, o candidato oficial de Israel ao Óscar de Melhor Filme numa Língua Estrangeira, mostra-nos um dos seus muito raros momentos de paz e felicidade familiar. Aí, assistimos a uma breve aula de condução que Suliman está a dar à sua filha mais velha Layla. Apesar da relativa afabilidade e casualidade da cena, logo aqui a realizadora e argumentista Elite Zexer começa a sombrear as dinâmicas interpessoais que vemos, revelando sorrateiramente como Suleiman é o tipo de pessoa que gosta muito de se dizer progressista, dando liberdades à filha que seriam incomuns na sociedade Beduína onde eles vivem, mas nunca se exaltando contra os poderes institucionais e tradições condicionantes da sua cultura. Pela sua parte, Layla parece estar completamente ignorante de tais complexidades na natureza do seu patriarca, mas, tal como muita da sua inocência, isso não vai durar até ao fim dessa semana.

No mesmo dia em que ocorre esta improvisada aula de condução, Suliman vai celebrar o seu segundo casamento. Isto, como tantas outras das ações que vemos ao longo da narrativa, é parte de um costume tradicional que ninguém questiona vocalmente. O próprio noivo não parece muito entusiasmado com a sequência de eventos, mas o seu descontentamento nada tem que ver com a fúria indignada da sua primeira esposa, Jalila. Seguindo as tradições locais, ela é forçada a celebrar, de sorriso no rosto, e organizar este casamento indesejado, para além de sofrer a acrescida indignidade de montar a cama da nova esposa do seu marido e que vai viver numa casa muito mais luxuosa que a de Jalila – casa essa, que acaba por ficar sem eletricidade ou comida nos dias seguintes.

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Mas, para esta resignada matriarca beduína a noite ainda esconde mais um percalço sob a forma de um chocante telefonema. É que, devido a um acidente, Jalila teve de trocar vestidos com a filha mais velha e ficou com o telemóvel de Layla, a quem telefona um misterioso rapaz. Rapidamente descobrimos que este é o namorado da jovem, que ela conheceu na escola aonde o pai lhe permite estudar, o que despoleta a fúria da mãe e cria uma barreira ainda maior entre as duas mulheres cuja relação já era bastante hostil antes disso. De facto, na boa tradição de imaturos jovens a tentar libertar-se de prisões sociais, Layla foca a sua rebeldia na mãe e sua atitude severa, ignorando sempre que é seu pai o maior opressor. Escusado será dizer que, quando a adolescente casmurra insiste em que Suliman e o seu namorado de uma outra tribo se conheçam, as palavras agoirentas e ríspidas da sua mãe provam-se certas e é logo arranjado um casamento para Layla com um dos homens da comunidade.

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Não que Jalila tenha qualquer contentamento em ver a sua filha oprimida pelo mesmo sistema que a subjugou durante toda a vida. Sand Storm é muito semelhante a Mustang, do ano passado, no modo como a sua história vê como várias mulheres se debatem contra as forças de uma sociedade patriarcal em que a sua vontade não tem qualquer valor. Só que, diferenciando-se do filme franco-turco, esta obra apresenta-nos duas visões antagónicas do problema e nunca nos oferece nenhuma solução tão simples como uma fuga aventurosa. Tanto Jalila como Layla querem permanecer no seio desta sociedade, tendo crescido nela, mas, enquanto a mulher mais velha, aprendeu a resignar-se e a protestar nas sombras, a jovem pensa, no seu idealismo inocente, que, para ela, esta sociedade se vai mostrar mais tolerante do que a mãe pensa. Nenhuma está completamente certa, nenhuma está errada, mas ambas sofrem.

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Perifericamente, outras figuras femininas estão encurraladas no ciclo de tradição, como uma avó que nunca ousaria pensar mal do seu genro, ou a segunda esposa de Suliman que também está presa contra a sua vontade a um papel matrimonial, quase de concubina, que não queria interpretar. As raparigas mais novas, como nos mostra a devastadora imagem final, estão também elas neste ciclo, olhando para as figuras femininas que as rodeiam e apercebendo-se, lentamente, de que este é o caminho ao qual elas foram condicionadas por uma litania de regras injustas, que ninguém ousa suplantar por muito erradas que as considerem.

Esse grupo de conformistas infelizes inclui o próprio Suliman que, apesar das suas ações, nunca emerge como um vilão a preto-e-branco. Inúmeras vezes ele justifica a sua complacência e controlo patriarcal com as palavras “Eu tenho de”, efetivamente desculpabilizando-se a si mesmo. Mas, no final, o silêncio é o mesmo que legitimação da injustiça e, por muito complexo que seja o retrato humanista que Zexer aqui compõe, é difícil acabar de ver o filme sem um travo de amargura lancinante na nossa garganta. Essa amargura é ainda mais intensa quando, anteriormente à coda, o filme nos sugere um final à la Mustang, pausando, no entanto, para ponderar a visceral dor de uma rapariga que vê, como seu único caminho para a liberdade, a abnegação do mundo que a viu crescer e dos seus entes queridos. No cinema, estamos habituados a ver heróis e heroínas lutarem pela liberdade como santos destemidos, mas a realidade humana é muito mais dolorosa e complicada.

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Nas mãos de Lamis Ammar, Layla nunca é nenhuma santa idealizada ou um símbolo inspirador, mas sim uma adolescente imatura, com momentos de irritante petulância, inocência quase infantil e uma fúria rebelde que está sempre a fervilhar abaixo da superfície. No papel mais complicado de Jalila, Ruba Blal serve de âncora para todo o filme com a sua severidade e amargura que nunca a reduzem a uma presença unidimensional. As suas cenas partilhadas com Hitham Omari, como Suliman, são os píncaros emocionais de Sand Storm, onde ambos os atores demonstram como as desumanas cicatrizes da tradição marcam presença na vida de um casal cujo amor pelas filhas é constantemente posto em conflito com os seus supostos deveres sociais.

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Com toda essa teia de dinâmicas pessoais e sociais interpretadas por um bom elenco, seria desculpável que Elite Zexer mostrasse alguma displicência visual, mas isso nunca ocorre. Evitando sempre explicar seja o que for, a cineasta cria um mundo cheio de detalhes e costumes insulares, correndo o risco de alienar a sua audiência. Mas, longe da simples pesquisa antropológica, são imagens como um pátio tornado num labirinto de roupa estendida e o contraste entre duas casas, uma à luz das velas e outra eletrificada, que realmente elevam o projeto. Num dos tableaux mais belos de Sand Storm, vemos Suliman abraçar e reconfortar a sua primeira esposa na escuridão da noite, a face de Jalila e sua aliança iluminados por um recorte de luz, enquanto tudo o resto é escuridão. No âmago de todo este mundo de tradição e matrimónio forçado, as mulheres acabam sempre por estar isoladas, mesmo umas das outras, e veem-se forçadas a lutar pela sua liberdade num mundo que as quer sempre renegar às sombras e ao silêncio.

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O MELHOR: A relação entre mãe e filha no centro do conflito emocional e ideológico de Sand Storm.

O PIOR: O filme sofre de um grande problema tonal, sendo que o momento de relativa paz na lição de condução inicial não é o suficiente para modular a atmosfera sufocante da narrativa. Sem momentos para respirar e ponderar a felicidade da família, pode ocasionalmente parecer que não há complexidade nas escolhas das duas protagonistas e seu dilema em deixar, ou não, a sua comunidade o que é, consequentemente, uma enorme fragilidade para o arco emocional das personagens.



Título Original:
 Sufat Chol
Realizador: Elite Zexer
Elenco:
Lamis Ammar, Ruba Blal, Hitham Omari, Jalal Masrwa, Khadija Al Akel

LEFFEST | Drama | 2016 | 87 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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