Star Trek: Além do Universo, em análise

Star Trek: Além do Universo é um tributo ao quinquagésimo aniversário da Saga; um que restitui a obra ao seu espírito originário e consagra Leonard Nimoy como o eterno Spock.

Já lá vão cinco décadas, desde que a famosa “Enterprise” irrompeu pelas nossas televisões quadrangulares adentro com a promessa exploratória do desconhecido cosmológico. E se naquela altura o universo ficcional de Roddenberry estava para a televisão como “A Guerra das Estrelas” de Lucas estava para o cinema, é inevitável não trazer os dois irmãos simbióticos à colação. A paridade das duas obras sci-fi de culto dos anos setenta faz ainda mais sentido nos dias que correm, numa era em que o retro está de novo na berra, e J.J. Abrams é o padroeiro da causa.

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Mas desta vez, não é mais ele quem assume o leme desta empreitada cinematográfica, agora concessionada a Justin Lin – o realizador asiático responsável pelo “reboot” da franquia “Velocidade Furiosa”. E percebe-se o motivo desta saída de cena de Abrams, ele que é mais um “puzzle maker digital” do que, propriamente, um “storyteller”. Porque se existe mácula no filme de 2013 “Star Trek: Além da Escuridão”, esta reside no arremesso abusivo daquela “créme de la créme” de efeitos especiais, que ofuscaram a essência humana, política e filosófica tão aludida pelo seu criador. Mas podemos adiantar já, que Lin acertou na muche em termos do equilíbrio entre o espalhafato visual e a profundidade representativa, recorrendo à mesma fórmula dinâmica que consagrou os “Furiosos” num grande “Summer Blockbuster”.

“Star Trek não se irá resumir à típica aventura bilateral Kirk/Spock, importa relevar que os protagonistas podem liderar a acção, deixando espaço para as personagens secundárias respirarem.”

Simon Pegg (Montgomery Scotty), o mítico engenheiro-chefe da “Empresa Voadora”, aparece aqui com dotes de guionista em tandem com Doug Jung, fazendo reflorescer a pitada de humor que se havia perdido no debate de forças antagónicas reminiscentes de “Star Wars”, que impregnaram o antecessor deste “Além do Universo”. Porque um enredo rico, não é só aquele que concentra todo o sumo nas cenas dramáticas, e os compromissos de bilheteira já não comportam a subsistência de nichos, sem que estes necessitem de apelar a uma audiência mais vasta e cada vez mais de cariz familiar. Por outro lado, é intenção deste corpo técnico, redimir o sonho de Roddenbery da diversificação cultural e civilizacional espalhado nesta demanda pela última fronteira.

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Continuando ainda na temática humorística, mas tratando de esmiuçar um pouco mais o enredo, este “Beyond” vai mesmo além da escuridão e atira-se às feras num tom jocoso tão pertinente quanto a missão diplomática que envolve um “tê-te à tê-te” entre Kirk (Chris Pine) e uma horrenda criatura alienígena, não mais ofensiva que a perspetiva vantajosa da sua posição superior no palanque de um imenso anfiteatro. É na gargalhada inteligente e na manutenção dos ideais de uma paz federativa e união intergaláctica, que a “USS Enterprise” não se furta de tombar no engodo de uma nave em apuros, sendo arrombada e literalmente decapitada a mando de Krall (Idris Elba) – uma assombração do passado desejosa de açambarcar um perigoso artefacto sob a custódia de Kirk. E com a “Enterprise” feita em frangalhos e a tripulação sobrevivente enclausurada em Altamid – uma pedreira rochosa em tons de Avatar que vai buscar aquela textura dos planetas retratados na série original -, e que serve de centro de operações do terrível Krall.

Lin acertou na muche em termos do equilíbrio entre o espalhafato visual e a profundidade representativa, recorrendo à mesma fórmula dinâmica que consagrou os “Furiosos” num grande “Summer Blockbuster”.”

É neste cenário embutido na paisagem canadiana de Pitt River, que o ator Zachary Quinto (Spock) descreve com estupefação “pelas seis torres do outro mundo e uma colmeia circular de três camadas de ouro que se parece com uma estrutura intergalática com tampo em forma de muffin”, que ele próprio (Spock) e Bones McCoy (Karl Urban) espicaçam mais uns centímetros de piadas sarcásticas na mira do inimigo, cumprindo o propósito do guião em fortalecer o imediatismo das relações pessoais forjadas em condições de hostilidade. Mais evidente se torna essa evasão da zona de conforto de Trek, quando Pegg redige a cena do seu “date” com Jaylah (Sofia Boutella) – uma guerreira alienígena “bad-ass” que mais parece saída de uma opera Kabuki japonesa -, e os dois casam numa química fervilhante de favores mútuos que deambulam entre os típicos arrufos de histeria escocesa à Bengi (Missão Impossível) por parte de Scotty – que Jaylah pronuncia com uma certa dislexia avatariana adorável, e “um cérebro nivelado com a sua musculatura” como atira a atriz que personifica a personagem.

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Por estas considerações já tecidas, podem reter a ideia de que este Star Trek não se irá resumir à típica aventura bilateral Kirk/Spock, sendo que o script até possa sugerir uma reforma antecipada de ambos, importa relevar que os protagonistas podem liderar a acção, deixando espaço para as personagens secundárias respirarem. Aliás, não é por acaso que Kirk e Chekov (Anton Yeltin) fazem pandã, com o navegador russo a assumir um papel mais interventivo, guiando Kirk pelas armadilhas no seu encalço. Há uma cena em que os dois escorregam pelos escombros da nave oval por um conjunto de “set-pieces” que mais parece um parque aquático pirotécnico.

“E embora o mauzão de serviço promova o pretexto para a destruição digitalizada para gáudio dos nossos olhos, é nele que reside a maior fraqueza da plot, revelando a mesma algum sub-desenvolvimento e superficialidade.”

Por fim, é preciso discursar um pouco sobre Krall, o vilão anti-Federação que esconde Idris Elba num atulhado fato de borracha por entre camadas de próteses faciais e cinco horas de maquilhagem encima. Na verdade, não nos dissessem quem era o ator, e nem desconfiaríamos da sua presença até ao último terço da fita, tal o grau de transformação a que fora sujeita a sua persona. Robusto e majestoso com um sotaque meio africanado, o seu alvo primordial é destruir a Federação por intermédio de Yorktown – um porto espacial que retira de Dubai umas dicas futuristas para um quadro de abstracionismo expressionista. E embora o mauzão de serviço promova o pretexto para a destruição digitalizada para gáudio dos nossos olhos, é nele que reside a maior fraqueza da plot, revelando a mesma algum sub-desenvolvimento e superficialidade.

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Star Trek: Além do Universo respeita o seu ADN genesíaco, quer na forma quer no conteúdo, mas não se afasta dos cânones do cinema atual, sendo talvez a melhor execução e interpretação até à data da odisseia espacial idealizada pelo seu fundador. De facto, a transversalidade temporal implícita no título nunca fizera tanto sentido, sobretudo quando as memórias são teleportais para as nossas infâncias: tocam e emocionam como se fosse a primeira vez.

Em memória de Leonard Nimoy (o eterno Spock) e Anton Yeltin (Chekov).

O MELHOR – O regresso às raízes; exploração das dinâmicas entre personagens secundarizadas e newcomers;  festim visual e auditivo com uma enredo suficientemente cativante, são imagem de marca de Justin Lin.

O PIOR – A personagem de Krall poderia ter sido mais desenvolvida, não obstante o facto de se ir mostrando paulatinamente até ao “big shocker”; falta de profundidade dos diálogos subsequentes.


Título Original: Star Trek: Beyond
Realizador:  Justin Lin
Elenco: Chris Pine, Zachary Pinto, Simon Pegg, Sofia Boutella, Idris Elba
NOS | Sci-fi | 2016 | 122 min

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Miguel Simão

Jurista e Poeta em algumas horas vagas. Cinéfilo incurável com forte pancada pelo sci-fi, que se perde algures pelo vício noturno de umas quantas séries televisivas de renome; amaldiçoado pelo perfecionismo estético de uma resma de palavras mais ou menos caras. Podem encontrar-me a divagar entre a Terra e o Espaço no meu blogue premiado Última Transmissão Humana.

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