Teresa (Lúcia Moniz) e as filhas, Paula e Liliana, compõem uma família improvisada. ©Paris Texas/Divulgação

“Terra Vil”: O Douro Não Lava Tudo

“Terra Vil” é um filme sobre heranças tóxicas, fantasmas nacionais e miúdos empurrados para a margem. Luís Campos filma o patriarcado à escala de um rapaz de 12 anos e de um país que prefere não olhar para as suas tragédias. Está nas salas de cinema nacionais desde a semana passada e é um filme português que não pode passar despercebido. 

“Terra Vil”, a primeira longa-metragem de Luís Campos (realizador, entre outras, da curta Monte Clérigo), chama a atenção ao que se herda, ao que se repete, ao que se naturaliza. Não é um filme sobre a masculinidade tóxica, mas um filme dentro dela, visto a partir de um miúdo de 12 anos que aprende o mundo — e a crescer — da pior maneira possível. Um filme que não chega com tese, mas com corpo; não com discurso, mas com convivência forçada com aquilo que dói.

Pub
Terra Vil
Ruben Gomes e Lúcia Moniz interpretam os vizinhos que se apoiam. ©Paris Texas/Divulgação

Aprender a violência antes de aprender o mundo

Em “Terra Vil”,  João (William Cesnek) vive à beira do Douro com o pai, António (Rúben Gomes), alcoólico funcional — ou disfuncional, depende do dia —, num equilíbrio precário feito de redes de pesca, lampreias cada vez mais raras no rio e um quotidiano onde a violência não explode: infiltra-se. Ao lado, a ainda jovem viúva Teresa (Lúcia Moniz) e as filhas, Paula (Francisca Sobrinho) e Liliana (Beatriz Relvas), compõem uma família improvisada, daquelas que o cinema português conhece bem, nascidas de tragédias, acidentes, incêndios, cheias ou a queda abrupta de uma ponte. Gente que se aguenta como pode porque, depois do desastre, já não há uma maneira fácil para dar a volta à vida. É neste microcosmo que o filme “Terra Vil” faz o seu trabalho mais duro e honesto de revelar algo que o país real por vezes esquece ou finge que não vê. O filme não grita nem acusa. Observa. E essa escolha — aparentemente modesta — é o que o torna mais interessante e desconfortável. Como o próprio realizador explicou na apresentação do filme, nunca houve a vontade de contar uma tragédia específica ou uma história verídica: “É impossível ignorar o imaginário colectivo desses acontecimentos. Filmámos em Entre-os-Rios, Castelo de Paiva, e esse passado está lá: na paisagem, nas pessoas, na memória.”

VÊ TRAILER DE “TERRA VIL”

Pub

O Douro como memória ferida e não como postal

A queda da ponte Hintze Ribeiro em Entre-os-Rios, as minas encerradas, o abandono estrutural de quem vive longe dos centros de decisão não são tema directo, mas são pano de fundo permanente de “Terra Vil”. O Douro surge aqui não como postal ilustrado, mas como corpo ferido. A seca, a escassez, a tradição da lampreia em vias de extinção ligam-se a um passado que não passou. “Terra Vil” é um filme de fantasmas,  não os do género fantástico, mas os que continuam a assombrar comunidades inteiras e que raramente entram em quadro sem folclore ou condescendência. Aqui entram com peso e respeito.

Lê Também:
“O Barqueiro”: um piano no lodo, um pai fora de prazo e um país a meter água

Terra Vil: William Cesnek
João (William Cesnek) vive à beira do Douro com o pai. ©Paris Texas/Divulgação

O olhar do miúdo e o peso dos actores

A câmara cola-se a João. Acompanha-o na devoção quase religiosa que sente pela jovem vizinha Liliana, na admiração cega pelo pai e, sobretudo, no momento exacto em que percebe que amar também pode significar reproduzir o pior. A misoginia não chega aqui sob a forma de discurso articulado: chega como aprendizagem informal, como herança silenciosa, como eco de frases atiradas ao ar num dia mau de pesca. É nesse ponto que o filme se torna verdadeiramente político, sem nunca o anunciar. Essa centralidade do ponto de vista infantil foi, aliás, uma descoberta feita ao longo do processo. “Desde a primeira versão do guião, a história era sobre estes cinco personagens, duas famílias que juntas formavam quase uma família disfuncional. Mas percebi que o verdadeiro ponto de vista tinha de ser o do miúdo”, explicou Campos. O filme foi crescendo a partir daí, tentando levantar questões sobre relações humanas, sustentabilidade, coexistência e heranças emocionais, tudo aquilo que se transmite sem palavras. No centro desse olhar está William Cesnek, numa estreia impressionante como actor em “Terra Vil”. Ver-se agora no grande ecrã, passados quase dois anos sobre a rodagem, foi para ele uma experiência estranha: “É um bocado estranho, foi a minha primeira experiência. Mas gostei de me ver e gostei de ver o filme todo. E isto só foi possível por causa de toda a gente que aqui está.” A simplicidade da resposta diz muito sobre o filme: não há vaidade, há espanto. Para Rúben Gomes, o processo foi tudo menos simples. “Foi intenso, muito intenso. Um processo duro. Cheguei com bastante receio, perguntava muitas vezes ao Luís se ele estava feliz com o trabalho. Hoje, quando vi o filme, percebi que era verdade.” Ainda muito próximo da personagem, o actor confessava sentir-se ainda “dentro do António”, como se a pressão emocional não tivesse terminado com o último dia de rodagem. Essa proximidade sente-se no ecrã: António não é monstro nem caricatura, é falência emocional acumulada. Lúcia Moniz traz ao filme uma contenção comovente. A sua Teresa não é mártir nem salvadora, é alguém que tenta compensar perdas com cuidado. “Não conseguiu salvar o marido, tenta salvar o vizinho, tenta proteger aquele miúdo”, explicou. “É sobre como tentamos tapar buracos, faltas e desequilíbrios com aquilo que temos ao nosso alcance.” O filme atravessa-a — e atravessa-nos — sem apontar uma emoção específica, deixando espaço para que cada espectador se reconheça numa fracção daquele sofrimento contido.

Pub
Terra Vil
Lúcia Moniz traz ao filme uma contenção comovente. ©Paris, Texas /Divulgação

Um cinema que não consola, mas confronta

Em “Terra Vil”, Luis Campos evita a armadilha do miserabilismo e também a do optimismo fácil. Há esperança, sim, mas não é imediata nem redentora. É uma esperança cansada, mínima, possível. Está no olhar do miúdo quando percebe que terá de escolher. Está na ideia, politicamente corajosa, de que romper ciclos é um acto violento, mas necessário. O confronto entre António e Paula não é um clímax narrativo clássico: é uma linha de não-retorno moral. A partir dali, ninguém sai ileso. Formalmente, “Terra Vil” é um filme contido, seco, quase ascético. A fotografia respeita o ritmo da região, a montagem não acelera o que deve doer e o som — da água, do vento, dos corpos — faz metade do trabalho emocional. O elenco mistura actores profissionais e gente da terra com uma naturalidade rara, criando uma sensação de presença que muitos filmes ambicionam e poucos alcançam. Como explicou o realizador, “o casting foi muito instintivo, guiado pela ideia de encontrar pessoas que acrescentassem verdade ao território e não o contrário”. “Terra Vil” não quer ser um filme simpático sobre uma região de Portugal; quer ser justo com aquelas pessoas que guardam na alma o trauma do passado. E isso, no cinema português contemporâneo, é uma grande e justa ambição. É um filme que dialoga com a crise climática sem virar manifesto, que fala de masculinidade sem didactismo e que olha para o interior Norte do país sem exotismo nem condescendência. Um filme que sabe que a violência estrutural não começa no murro, mas na frase repetida, no gesto herdado, no silêncio cúmplice. Não é um filme fácil, para o espectador comum. Sai-se da sala com a sensação incómoda de que aquilo não é só ficção. Que aquelas margens do Douro são também margens de um país que continua a empurrar os seus miúdos — e os seus jovens — para escolhas impossíveis. “Terra Vil” não resolve nada. Mas aponta o dedo com precisão. E, às vezes, é exactamente isso que o cinema deve fazer.

Lê Também:
19ª Festa do Cinema Italiano | O Cinema Italiano Continua a Roubar Livros

JVM

Pub

About The Author


Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *