Thierry Frémaux defende seleção de cineastas, comenta inteligência artificial e o caso Depardieu | Diário do Festival de Cannes 2025 (Dia 1)
A conferência de imprensa de Thierry Frémaux, realizada hoje, véspera da abertura oficial amanhã, deixa clara a intenção do Festival de Cannes 2025 em equilibrar tradição e renovação, defender a diversidade, e refletir sobre os grandes temas do presente — da paridade de género à inteligência artificial. A partir de amanhã, a Croisette volta a ser o epicentro mundial da cinefilia e o passeio de muitas estrelas.
A habitual conferência de imprensa de antevisão do Festival de Cannes 2025 decorreu esta segunda-feira e há poucas horas, com o delegado-geral Thierry Frémaux a abordar temas centrais do evento deste ano — desde o processo de seleção dos filmes até à crescente presença da inteligência artificial no cinema, passando ainda por questões judiciais mediáticas, como é o caso Gérard Depardieu, que será presente a tribunal precisamente amanhã dia 13, data de abertura do Festival.
Seleção de realizadores e diversidade na competição
Confrontado com críticas recorrentes à suposta repetição de nomes na Competição Oficial, Thierry Frémaux rejeitou a ideia de que Cannes privilegia sempre os mesmos cineastas. A propósito da nova presença dos Irmãos Dardenne, que concorrem pela nona vez com Jeunes Mères, o responsável afirmou que essa perceção “não corresponde à realidade”. “Se olharmos para as estatísticas, vemos muitos estreantes este ano”, destacou, referindo nomes como Ari Aster (Eddington), Carla Simón (Romería) e Chie Hayakawa (Renoir). Também há regressos pontuais, como Julia Ducournau com Alpha, Joachim Trier e Wes Anderson. Frémaux justificou a fidelidade a certos autores com a tradição do próprio festival: “Já nos anos 50 e 60 havia esta continuidade, com realizadores como Ingmar Bergman”. Sublinhou ainda o apoio contínuo a autores com uma voz própria, como os Irmãos Dardenne e Julia Ducournau, cujo novo filme “vai gerar um debate importante e queremos que esse debate aconteça em Cannes”.
Abertura do festival e homenagens
A 78.ª edição do Festival de Cannes arranca esta terça-feira com a estreia mundial, fora de competição, de Partir un Jour (Leave One Day), da francesa Amélie Bonnin. Na cerimónia de abertura, Robert De Niro será homenageado com um prémio honorário e participará numa sessão especial Rendez-vous no dia 14 de maio. Outros convidados estão confirmados para o programa Rendez-vous, que inclui nomes como Christopher McQuarrie, Alexandre Desplat e Guillermo del Toro. Frémaux lamentou, contudo, a ausência de uma convidada feminina inicialmente prevista: “À última hora, teve de alterar a agenda”. Apesar disso, o diretor Thierry Frémaux, destacou avanços em termos de paridade de género, mencionando a presença de quatro mulheres como presidentes de júri, incluindo Juliette Binoche na Competição — algo que não acontecia em anos consecutivos desde 1965 e 1966, com Olivia de Havilland e Sophia Loren. “Já passaram 60 anos — é escandaloso”, afirmou.
Inteligência Artificial: “assustadora, mas fascinante”
Um dos temas mais prementes da atualidade foi também abordado: o impacto da inteligência artificial (IA) no cinema. Thierry Frémaux reconheceu o seu poder crescente, sublinhando a necessidade de regulação: “A IA já existe há algum tempo, mas agora tornou-se extremamente poderosa e inquietante. Temos de proteger os direitos de autor e os direitos dos atores”. O diretor de Festival de Cannes, revelou que o festival recebeu recentemente uma gravação da sua voz gerada por IA para uma sessão em que esteve ausente, descrevendo a experiência como “assustadora”. Apontou ainda que a questão transcende o cinema e representa um desafio social mais amplo.
Caso Gérard Depardieu: “Respeito o sistema judicial”
Interrogado sobre a situação judicial de Gérard Depardieu, cujo veredicto por alegações de agressão sexual é esperado para terça-feira, Thierry Frémaux adotou uma postura cautelosa: “Enquanto cidadão, respeito o sistema judicial do meu país. Se alguém cumpriu a sua pena, o que se faz? Temos de avaliar caso a caso”. Preferiu, no entanto, não antecipar cenários antes da decisão do tribunal, afirmando estar “feliz por a conferência de imprensa ser hoje, e não amanhã”.
A presença americana e os receios sobre tarifas
Questionado sobre os possíveis efeitos das tarifas propostas por Donald Trump sobre filmes internacionais, Thierry Frémaux considerou prematuro especular. Reafirmou o apreço do festival pelo cinema americano, que descreveu como “forte e criativo” este ano. Um dos grandes destaques de Hollywood na Croisette será Missão: Impossível – O Ajuste de Contas Final, com estreia marcada para quarta-feira, dia 14. Apesar de uma presença promocional discreta por parte do realizador Christopher McQuarrie e do elenco, Frémaux defendeu a escolha: “Foi selecionado porque representa o tipo de cinema que gostamos. É uma homenagem a McQuarrie, um verdadeiro cineasta no sistema”. Citou ainda Truffaut e Rivette como exemplos de realizadores que também conciliaram arte e indústria com sucesso. Aconteça o que acontecer, a partir de amanhã, a Croisette volta a ser o epicentro mundial da cinefilia. E nós cá estaremos para contar tudo!
JVM