Katie Holmes, Alec Baldwin, Edward Burns, Zach Woods e W. Kamau Bell chegam a Lisboa, o cinema português ganha primeiras filas, as curtas entram finalmente em cena e o festival abandona o Beato para ocupar a Avenida da Liberdade. De 9 a 13 de dezembro, o Tribeca Lisboa 2026 quer deixar de ser apenas um festival de cinema. O risco é querer ser tudo. A boa notícia é que, desta vez, talvez consiga mesmo.
O Tribeca Lisboa decidiu mudar de casa e, aparentemente, também de dimensão. Depois de duas edições no Beato, atravessa a cidade e instala-se entre 9 e 13 de dezembro na Avenida da Liberdade, ocupando o Cinema São Jorge, o Capitólio e o Teatro Tivoli BBVA. Não é apenas uma mudança de código postal. É uma declaração de intenções. O festival quer sair do enclave, meter-se no centro, apanhar os lisboetas, os turistas de Natal, os espectadores ocasionais e quem passa por ali à procura de um presente e pode acabar diante de Juliette Binoche. Em Lisboa já aconteceram coisas mais improváveis. A terceira edição apresenta-se, aliás, com uma ambição bastante mais larga do que a simples importação europeia do festival fundado em Nova Iorque por Robert De Niro, Jane Rosenthal e Craig Hatkoff. Cinema continua a ser o motor, felizmente, mas à volta dele crescem conversas, humor, podcasts, música clássica, electrónica, performances e formatos que começam a transformar o Tribeca Lisboa numa espécie de festival cultural com o cinema sentado na cadeira do condutor. Esperemos apenas que ninguém lhe tire o volante.
Hollywood vem cá abaixo

As estrelas ajudam, evidentemente. Alec Baldwin já tinha sido anunciado e junta-se agora a Katie Holmes, Edward Burns, Zach Woods e W. Kamau Bell. Joaquim de Almeida e Daniela Ruah regressam como embaixadores, numa ponte atlântica que o festival gosta de sublinhar e que, no terceiro ano, começa finalmente a parecer menos protocolar e mais concreta. Katie Holmes será provavelmente o nome que mais flashes provocará, mas seria injusto reduzir a programação a uma passadeira vermelha. Edward Burns traz Finnegan’s Foursome, comédia sobre uma família irlando-americana obcecada pelo golfe e suficientemente disfuncional para provar que até um fairway pode servir para resolver traumas familiares. Burns tornou-se conhecido mundialmente como actor — O Resgate do Soldado Ryan ajudou —, mas continua a ser um daqueles cineastas independentes americanos que Hollywood prefere admirar sem saber muito bem onde os arrumar.
Zach Woods, vindo de The Office e Silicon Valley, estreia-se nas longas-metragens com The Accompanist, protagonizado por Susan Sarandon, Everly Carganilla e Aubrey Plaza. Entre uma criança retirada ao avô, uma mulher imprevisível e famílias que se inventam quando as outras falham, parece existir matéria suficiente para demonstrar que Woods talvez seja bastante mais do que aquele actor extraordinariamente competente que costumava entrar em cena para tornar os outros mais engraçados. O programa internacional inclui ainda Here I’m Alive, de Joshua Z Weinstein; The Incomer, de Louis Paxton, com Domhnall Gleeson; e sobretudo Josephine, de Beth de Araújo, vencedor em Sundance, com Channing Tatum, e Queen at Sea, de Lance Hammer, com Juliette Binoche, Tom Courtenay e Anna Calder-Marshall. Ou seja: entre comédias, trauma, memória, envelhecimento e famílias avariadas, o Tribeca Lisboa 2026 não parece ter vindo distribuir algodão-doce.
Portugal deixa de fazer figuração

Mais interessante é perceber que o cinema português não aparece como decoração patriótica entre convidados americanos. Vindima, de Luís Galvão Teles, inspirado no universo de Miguel Torga, junta Ricardo Pereira, Ruy de Carvalho, Maria de Medeiros, Laura Dutra, José Condessa, Miguel Borges e Sandra Faleiro numa produção de dimensão pouco habitual. Também Tu Clara, de António Borges Correia, coloca Luís Esparteiro no centro de um drama sobre uma actriz independente e o momento em que uma carreira, uma relação ou ambas começam a perceber que não são eternas. E Vicente Alves do Ó apresenta O Dia Mais Feliz da Minha Vida, cinema íntimo com Rita Loureiro.
A animação também reclama espaço através de Viagens entre Estrelas e Ondas, de Cláudio Jordão, com as vozes de Ivo Canelas e Dalila Carmo, cruzando episódios da História portuguesa com uma estética inspirada nos azulejos. 6:06, de Tekla Taidelli, coprodução italo-portuguesa apresentada em Veneza, acrescenta espírito punk e uma viagem entre Roma e Portugal.
Depois surge Mulherzinha, documentário sobre Bárbara Tinoco. À primeira vista, a vida de uma cantora popular poderia parecer material previsível para uma operação de proximidade com fãs. A promessa, contudo, é outra: observar simultaneamente a artista exposta perante milhares de pessoas e a mulher confrontada com uma nova existência enquanto mãe. Se cumprir essa dupla perspectiva, talvez o título diminutivo esconda um filme bastante maior.
E finalmente as curtas. Já não era sem tempo. Um festival que leva Tribeca no nome não podia continuar a tratar a curta-metragem como aquele primo interessante que toda a gente elogia mas ninguém convida para jantar. Entram My Type, de Daniela Ruah, confirmando que a actriz começa a levar seriamente a realização; Prova de Cor, de Joana Botelho; e Bom Dia (Uma Espécie de Oração), de Diogo Brito, com Lúcia Moniz. Pode parecer uma pequena alteração de programa. Não é. As curtas continuam a ser o lugar onde muitos cineastas experimentam aquilo que as longas, os produtores e os orçamentos depois lhes mandarão deixar quieto.
Quando o cinema acaba, começa o resto

A grande transformação desta edição acontece, contudo, fora das salas. O Tribeca Night Live transporta para Lisboa a lógica dos late-night shows: três noites, três anfitriões e três personalidades bastante diferentes. W. Kamau Bell ficará com actualidade e humor, Daniela Ruah com cinema e entretenimento internacional e Luís Franco-Bastos com uma proposta de autoria, comédia e experimentação. Convém que o formato conserve justamente isso — risco e espontaneidade — e não se transforme numa conferência de imprensa com sofás melhores.
As Tribeca Talks também ganham autonomia e começam antes do próprio festival: a partir de 8 de novembro, Daniela Ruah conduz uma websérie de cinco episódios com convidados provenientes do cinema, televisão, cultura, media e universo digital. Os podcasts entram igualmente na Avenida, com cerca de uma dúzia de gravações e conversas ao vivo.
Até Mozart foi contratado para o Tribeca. Nos dias 11 e 12, o Tivoli recebe Xmas with Mozart, assinalando os 270 anos do nascimento do compositor através da Orquestra Metropolitana de Lisboa e da Orquestra Sinfónica Portuguesa, antecedidas por edições especiais dos podcasts Gerações. No dia 13, o Capitólio muda radicalmente de frequência: Moullinex e o projecto MXGPU atacam no cine-concerto Metropolis, de Fritz Lang, cruzando o clássico expressionista com electrónica e performance. Fritz Lang morreu em 1976 e dificilmente imaginaria que um século depois o seu futuro distópico acabaria numa noite de dezembro no Parque Mayer. Também por isso vale a pena estar vivo ou continuar magnificamente morto.
Para além do cinema
O Tribeca Lisboa 2026 parece ter percebido uma coisa essencial: os festivais de cinema já não sobrevivem apenas projectando filmes. Precisam de criar acontecimentos, encontros e aquela sensação irrepetível de que alguma coisa aconteceu ali e não podia ser vista três semanas depois num algoritmo de streaming. O perigo está naturalmente no excesso. Quando cinema, música, podcasts, humor, celebridades, performances e talks cabem debaixo da mesma marca, um festival pode transformar-se num centro comercial cultural.
Mas esta terceira edição parece, pelo menos no papel, encontrar uma ideia para organizar a abundância: fazer da Avenida da Liberdade uma avenida de histórias. Algumas chegarão de Nova Iorque, outras nasceram em Portugal, umas durarão duas horas, outras quinze minutos, algumas serão contadas diante de um ecrã, outras num palco, diante de um microfone ou acompanhadas por uma orquestra.
Entre 9 e 13 de dezembro, Hollywood desce a Avenida. Lisboa, desta vez, não ficará apenas a vê-la passar.
JVM



