Valor Sentimental, a Crítica
Estreia na próxima quinta-feira 29 de janeiro em Portugal um dos filmes mais nomeados aos Oscars de 2026: “Valor Sentimental” (2025, Joachim Trier). A longa-metragem segue com 9 nomeações aos prémios, destacando-se Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Realização, Melhor Atriz e Melhor Argumento Original. Este reconhecimento chega depois do filme já ter alcançado o Grande Prémio no Festival de Cannes, bem como vários prémios nos Prémios do Cinema Europeu, nomeadamente Melhor Filme.
“Valor Sentimental” é uma coprodução entre Noruega, Alemanha, Dinamarca, França, Suécia, Reino Unido e Turquia. Em Portugal conta com a distribuição da Alambique. Trata-se de um drama sobre a difícil relação de duas irmãs com o seu pai ausente.
Qual a narrativa de Valor Sentimental?

“Valor Sentimental” retrata a história da família Borg. No centro da narrativa estão as irmãs Nora e Agnes (interpretadas por Renate Reinsve e Inga Ibsdotter Lilleaas). Uma é atriz e a outra é historiadora. Quando a mãe delas morre, o seu pai Gustav (Stellan Skarsgård) reaparece repentinamente nas suas vidas. Há vários anos que ele se tinha divorciado da mãe delas e mudado de cidade. Gustav é um conceituado realizador de cinema e pretende, agora, reaproximar-se da filha Nora ao convidá-la para atriz do filme. No entanto, ela recusa e Gustav acaba por oferecer o papel a uma atriz americana: Rachel Kemp (Elle Fanning).
Nesta longa-metragem podemos ainda assistir a algo raro: ouvir Stellan Skarsgård a falar (quase) no seu idioma original. O ator – que, entretanto, tem uma carreira já consolidada em Hollywood – nasceu na Suécia e as suas falas neste filme são predominantemente em norueguês.
Um filme frio, tipicamente escandinavo
“Valor Sentimental” é um drama que não foge, de todo, à linguagem ‘típica’ – se assim se pode dizer – do filmes escandinavos. A grande figura deste cinema é, sem dúvida, Ingmar Bergman que em praticamente toda a sua filmografia falou sobre a família e a dificuldade que os seus membros têm em comunicar entre si. Joachim Trier, nesse sentido e com este filme, pode ser considerado como um discípulo do realizador sueco.
Ao longo das cerca de duas horas de filme, assistimos à dificuldade que duas irmãs têm em comunicar com o seu pai e só mesmo nos cerca de 15-20 minutos finais é que o muro é quebrado.
Para além da difícil comunicação familiar, também Joachim Trier – realizador norueguês – aproveita bem o clima frio do Norte da Europa para dar uma fotografia cinzenta e branca a este filme. Tudo para nos deixar o mais desconfortáveis e próximos das personagens quanto possível.
Mas, para além do trio de personagens da família Borg, há uma outra ‘personagem’ muito importante: a casa da família.
A casa como personagem e a narração distante

Se há filmes que fazem dos espaços personagens, “Valor Sentimental” é um deles. A casa da família Borg é a personagem não-humana deste filme. Os primeiros planos pós-genérico do filme são precisamente com esta casa para, no final, terminarmos o filme no estúdio que reconstrói o interior desta mesma casa.
A casa da família Borg guarda recordações de várias gerações da família. As suas felicidades, as suas mágoas. E é uma casa por si só humanizada pela racha que percorre uma das paredes de alto a baixo. Segundo a narradora, uma falha vista há um século durante a construção, como se a casa estivesse a afundar-se com os seus habitantes. Ou seja, é como se a casa sofresse, literalmente, com os seus habitantes.
Em notas à imprensa, refere-se: “Como vemos no ‘flashback’ inicial, a casa Borg é uma coisa viva, a observar silenciosamente o comportamento dos humanos que a habitam ao longo de múltiplas gerações.” Curiosamente, a ideia para este filme surgiu mesmo a partir de uma casa que a família do realizador tinha há gerações e, entretanto, meteram à venda. “Um lar é uma coisa muito subjetiva e a casa tornou-se outro ponto de partida para entrar numa mais complexa história adulta da vida e expectativas.”, referiu Joachim Trier.
É nesta casa que morre a avó das irmãs protagonistas, é desta casa que o pai delas sai e as abandona e, sobretudo, é nesta casa que Nora se tentou suicidar. Depois da morte da mãe, para espanto das irmãs, na verdade, quem fica como dono legal é o seu pai.
A narradora ausente de Valor Sentimental
A sequência inicial destoa da narrativa principal do filme. A história começa a ser contada por uma narradora não participante mas que nos conta a história desta família e, sobretudo, da casa. Toda esta cena é muito pouco escandinava e diria até que é bastante malickiana. A narradora distante e desconcertante, a música ambiente enigmática, os vários planos curtos, de enquadramentos próximos, de pequenos detalhes da casa, a janela que bate, as sombras, etc. Tudo isto remete ao estilo de Terrence Malick em filmes como “A Árvore da Vida” (2011) ou “A Essência do Amor” (2012).
Esta linguagem malickiana é, contudo, rompida ao longo de praticamente toda a narrativa e servirá, apenas e só, para os momentos de flashback. Momentos esses que, na verdade, acontecem apenas mais uma vez sensivelmente a meio do filme.
A insegurança é familiar

Depois da introdução em flashback onde conhecemos brevemente a infância e os antepassados de Nora e Agnes, “Valor Sentimental” começa por nos mostrar o nervosismo de Nora antes de entrar no palco para uma peça de teatro. Esta ‘estranha’ insegurança demonstra, na verdade, a profundidade desta personagem que se sente insegura devido à ausência do pai.
Após o funeral da mãe, o pai da irmãs, Gustav, regressa à casa da família para grande choque de Nora que, ao longo do filme vai sentindo uma agrura cada vez maior com o pai até, por fim, o aceitar. Nora aceita, relutantemente, conversar com Gustav num café. No entanto, a oferta que Gustav lhe faz é incompreensível para Nora… Esteve anos afastado das filhas e agora quer que ela seja a protagonista do seu próximo filme. Nora recusa-o sem sequer ler o guião. Ela nunca sentiu qualquer preocupação do pai por si e pela irmã e, obviamente, recusa a tentativa mascarada de reaproximação do pai.
Podemos dizer que, em certa medida, “Valor Sentimental” é a narrativa invertida de “Saraband” (2003, Ingmar Bergman) onde é o filho quem quer aproximar-se do pai e não consegue.
O filme de Gustav continua…

Numa visita a França para apresentar os seus filmes, Gustav conhece a jovem atriz americana Rachel Kemp. É, assim, que ele consegue avançar com a feitura do seu filme. Um filme que quer filmar na casa de família em Oslo mas que, agora, adapta à língua inglesa.
Quando Nora e Agnes estão a despejar a casa de família, Nora repara no argumento do filme deixado pelo pai. Ela tem o impulso de o ler, mas acaba por desistir. É, portanto, a incerteza mas também a tentativa de reaproximação que a motiva. No entanto, ela sente-se demasiado frágil para isso e, quando o pai chega, Nora foge à socapa.
Gustav conta a Rachel que o seu filme se inspira na história da mãe dele que se enforcou naquela casa. Rachel vem, na verdade, fazer um contrapeso à narrativa deste filme. Está no ‘meio’ das personagens. E, de repente, na frieza de Oslo e da família Borg, há uma jovem que vem criar uma rutura completa. Por um lado, ela é uma jovem aventureira. Por outro lado, ela é uma super-estrela que vai espantar a Noruega e tornar o país o centro do mundo. Tanto é que Rachel se torna cara da Rabane e passa a estar espalhada em ecrãs do metro. Mas – e talvez mais importante – o financiamento do filme de Gustav é dado pela Netflix. Por vezes, é o centro das atenções mediáticas que serve de cura. E é precisamente a partir daqui que começam a surgir os primeiros indícios da reaproximação de Gustav e Nora.
Gozar consigo próprio (mas de uma forma séria)

Esta centralização e mediatização do filme nada mais é que uma forma de Joachim Trier caricaturar igualmente o mundo do cinema. Se, por um lado, o lado ‘vendável’ é cada vez mais importante não só para a indústria do cinema mas para o capitalismo em geral, por outro, há todo o lado descartável e imaterial em jogo.
Nesse sentido, a pergunta do jornalista que entrevista Gustav e Rachel é bem notória. Pergunta ele: “É uma produção Netflix, vai sair em cinema?” Gustav é perentório: “Onde é que haveria de ser?” Se Joachim Trier já critica aqui a Netflix por não ter os filmes em sala e, na altura da rodagem, a questão Warner-Netflix era inexistente, o que diria agora o realizador?
Alguns momentos depois, o humor regressa em “Valor Sentimental” com a festa de aniversário de Erik (Øyvind Hesjedal Loven), o filho de Agnes e Even (Andreas Stoltenberg Granerud). Gustav oferece alguns filmes em DVD ao neto como prenda. É, obviamente, uma forma de Joachim Trier demonstrar a sua paixão por alguns filmes pois trata-se de uma prenda completamente descontextualizada para uma criança. Especialmente, ao incluir filmes como “A Pianista” (2001, Michael Haneke) ou “Irreversível” (2002, Gaspar Noé). “Não temos leitor de DVD”, responde Agnes. “Felizmente”, constata Nora. O avô Gustav numa brincadeira engraçada que meteu as duas irmãs a rir. Foi, obviamente, muito bem pensado.
Aos poucos, a reaproximação acontece

Numa conversa entre Gustav e as filhas, Joachim Trier faz um plano bastante simbólico. Gustav de costas ao centro do plano e cada uma das filhas nas margens esquerda e direita do enquadramento. Nora ainda demonstra rancor com o pai mas o que o plano nos diz é que, no fundo, aquela família está prestes a ficar unida. Notório é também que Gustav telefona a Nora e envia-lhe uma mensagem sincera de procura de semelhança.
Em contrapartida, Agnes está muito mais próxima do pai. Nesse sentido, também vai aos arquivos tentar saber mais sobre a história da avó, mãe de Gustav. Ela tinha sido perseguida pelos nazis e, por esse motivo, enforcou-se. A mágoa faz parte da história desta família…
Enquanto Gustav confidencia com Agnes que quer que Erik participe no seu filme, Rachel vai ter com Nora. A jovem americana já percebeu que o filme só faz sentido com Nora e quer convencê-la disso.
Uma brevíssima sequência é a transformação total das três personagens principais de “Valor Sentimental”. As caras de Gustav, Nora e Agnes misturam-se todas entre si, demonstrando as ligações entre eles que são impossíveis mas intrínsecas a eles. Como que inspirado pela fusão de Alma e Elisabet em “A Máscara” (1966, Ingmar Bergman), também estas personagens se tornam numa só, ainda que apenas por breves momentos e numa sequência de transição mas que marca o clímax.
O desfecho esperado de Valor Sentimental

Esta fusão de ‘personas’ é o último indício para a reaproximação familiar das três personagens. Se Agnes não quer de todo que Erik participe no filme do pai, ela acaba por ler o argumento. Agnes conclui que o filme não é sobre a mãe de Gustav mas sobre Nora (Gustav não tinha dito que fez o papel para a filha?).
Agnes leva o argumento a Nora e ambas percebem que, embora ausente, Gustav soube da tentativa de suicídio de Nora. É a isto que se chama o instinto paternal.
Entretanto, o interior da casa da família Borg é destruído e são feitas obras de renovação. Se este parece ser o desfecho do filme, onde a casa-personagem se transformou, não é bem assim…
Joachim Trier fecha “Valor Sentimental” com uma tentativa (inicial) de enganar o espectador. Nora está na casa de família e Erik despede-se dela. Se tudo parecia normal, o espectador desconfia – o plano sequência! Gustav queria fazer um plano sequência no seu filme exatamente com um acontecimento assim. Mas nem é só isso… E o fundo azul tão falso nas janelas? Mas Joachim Trier não deixa o espectador em dúvida e fecha o filme a mostrar-nos Gustav a dirigir a sua filha no seu filme. A reaproximação aconteceu. Não era necessário vermos, mas é ‘bonito’.
“Valor Sentimental” é um melodrama bem conseguido mas que não consegue ser uma obra-prima. O filme desequilibra-se um pouco nas sequências de flashback e também se torna demasiado longo e ‘vazio’ nos bastidores do filme de Gustav. Ainda assim, há que dar mérito aos atores onde Renate Reinsve e Stellan Skarsgård estão especialmente bem. Joachim Trier tem uma boa realização. Contudo, sente-se pouca originalidade.
Valor Sentimental
Conclusão
- “Valor Sentimental” traz-nos a história da família Borg onde um pai ausente tenta reaproximar-se das suas filhas.
- Em geral, é um melodrama bem conseguido, onde os atores Renate Reinsve e Stellan Skarsgård se destacam entre o elenco.
- Trata-se de um filme com uma realização de Joachim Trier geralmente bastante bem cuidada. Contudo, traz pouca originalidade e está longe de ser uma obra-prima.

