Entre a Pobreza e o Machado | Festival de Veneza 2025 (Dia 3)
Do drama silencioso de Valérie Donzelli [(“À Pied d’Œuvre (At Work”)], à sátira sangrenta de Park Chan-wook (“No Other Choice”), o Festival de Veneza 2025 confronta-nos com a precariedade criativa e a violência laboral, duas faces da mesma moeda envenenada do nosso tempo: o sistema que esmaga.
O terceiro dia da Competição do Festival de Veneza 2025, trouxe um daqueles ‘menus duplos’ que valem quase como um único retrato do nosso tempo. Um filme francês introspectivo e minimalista, outro coreano barulhento e afiado como lâmina. Ambos falam de trabalho, ou melhor, da falta dele. Da dignidade perdida. Da precariedade como vírus moderno.
A escrita que leva à miséria: “À Pied d’Œuvre (At Work)”, de Valérie Donzelli
Em “À Pied d’Œuvre (At Work)”, Valérie Donzelli, apresentado na Competição do Festival de Veneza 2025 adapta o livro autobiográfico de Franck Courtès e põe o actor Bastien Bouillon a fazer de fotógrafo de sucesso que, cansado da rotina confortável, decide arriscar na escrita de romances. O gesto é bonito, romântico até: largar tudo pela arte, trocar a câmara pela caneta, os cheques pelos cadernos. Só que a realidade é menos luminosa: a paixão não paga contas, os livros não se vendem, a liberdade criativa vem acompanhada de penúria.
Donzelli filma essa queda sem dramatismos de telefilme: não há violinos, nem discursos inflamados, só um homem a definhar em silêncio, entre o fascínio da criação e a miséria prática de não ter dinheiro para pagar a renda.
É cinema seco, quase ascético, que nos obriga a encarar de frente uma pergunta desagradável: até que ponto vale a pena trocar estabilidade por vocação? “À Pied d’Œuvre (At Work)” é uma espécie de anti-bio épica, um retrato da criação como vício silencioso que não dá likes, nem fortuna, nem sequer estatuto. Só a dignidade de não trair a si próprio. Donzelli filma o abismo criativo sem filtros, e é precisamente essa falta de maquilhagem que torna o filme tão desconfortável.
O machado do desemprego: “No Other Choice”, de Park Chan-wook
E depois, também na Competição do Festival de Veneza 2025, logo a seguir, entra Park Chan-wook com o seu habitual gosto por transformar feridas sociais em espetáculos sangrentos. “No Other Choice” é baseado no romance policial “The Axe”, do escritor britânico Donald Westlake, já filmado por Costa-Gavras, mas aqui reconfigurado para a realidade coreana. Lee Byung-hun é Man-su, um trabalhador exemplar de uma fábrica de papel que, de repente, ouve a frase que resume o cinismo capitalista: ‘Sentimos muito.
Não temos outra escolha.’ Despedido, humilhado, em risco de perder casa e família, começa a saltar de entrevista em entrevista até perceber que a única forma de voltar ao mercado é eliminar a concorrência. Literalmente.
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Park Chan-wook filma esta escalada para a violência com uma ironia corrosiva. É um thriller que sabe ser cómico, grotesco e ao mesmo tempo trágico. Cada entrevista falhada é um murro no estômago, cada humilhação aumenta o riso nervoso e o abanar da perna que se cola ao filme. Como sempre em Chan-wook, a violência nunca é gratuita, por é ilustrativa: é o reflexo de uma sociedade que trata os trabalhadores como peças usadas, substituíveis ou descartáveis como papel.
Dois filmes, a mesma ferida
Juntos, os dois filmes poderiam ser vistos no Festival de Veneza 2025 como extremos de uma mesma equação. Donzelli fala em silêncio da precariedade dos criadores, Park grita a plenos pulmões sobre a violência estrutural do trabalho. Um é o retrato íntimo do artista que aceita o preço da liberdade. O outro é a comédia negra do operário que não aceita a sua exclusão e pega no machado, na pistola ou na serra eléctrica. Mas ambos são sobre o mesmo vazio: o mundo moderno, que nos obriga a escolher entre criar ou sobreviver, aceitar a miséria ou lutar até ao sangue.
E se há algo de perverso nesta programação de Veneza é precisamente isso: o festival parece ter colocado Donzelli e Park lado a lado para nos lembrar que, no fundo, a precariedade criativa e a violência laboral são apenas duas faces da mesma moeda. Uma moeda gasta, cínica, que não vale nada para quem está do lado errado do sistema.
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