The National no Vodafone Paredes de Coura 2019 (foto de Margarida Ribeiro)

Vodafone Paredes de Coura 2019 | A primeira noite foi dos National

Das 18.30 às 02.30 tudo se passou no palco Vodafone. No primeiro dia do Paredes de Coura, Julia Jacklin emocionou, Parcels fizeram festa e os The National triunfaram.

No primeiro dia do Vodafone Paredes de Coura, com passes gerais e passe diário esgotados, a afluência foi máxima. Formou-se um público imenso que, mesmo se esperava apenas os grandes nomes da noite, criou uma plateia surpreendente para qualquer artista que tenha pisado o palco.

Os Bed Legs calcorreiam o palco do Paredes de Coura

A tarde começou com uma pequena massa de pessoas encostada às grades para acompanhar o concerto dos Bed Legs. Primeiro dia de festival, primeiro concerto, a energia ainda é muita, por isso escolhemos fazer parte daquele pequeno aglomerado. Não éramos os únicos com energia recarregada. O vocalista da banda bracarense, Fernando Fernandes, invadiu o palco já a meio da introdução da primeira música numa corrida desenfreada. Desde esse momento que o concerto se desenvolveu em torno do vocalista, com este a saltar para o topo das colunas, gesticular na nossa direção. Mas o que mais suscitava a adesão do público era a forma como empunhava o microfone e, numa entrega total, cantava com uma voz soul que se fundia com o ritmo vinculado da bateria e as melodias exploradas pela guitarra, pelo baixo e teclado, até uma pequena veia surgir na sua testa. A energia que irradiava do palco era tanta que depressa aumentou a quantidade de público em pé e se formou o esperado mosh pit.

Mais do que tudo, deste primeiro concerto transpareceu uma certa sensação de familiaridade. Fernando Fernandes cantava em inglês mas dirigia-se a nós em português, para nos contar dos tempos em que era ele ali a acampar, a ouvir música e dar encontrões no mosh pit. As memórias foram mais fortes, não se conseguiu conter e fugiu do palco, para invadir a plateia e participar no mosh pit.

Bed Legs constituíram uma agradável surpresa e despertaram um público que, ainda absorto nos mergulhos no rio, jazz na relva e banhos de sol, preguiçava pelo monte esverdeado fora. Quando a hora do concerto de Julia Jacklin se aproximou, a multidão era já considerável. Depois de um concerto onde reinou a descontracção, as danças e gestos para a câmara, a comunhão extrovertida com o público, era a vez de uma tímida rapariga, que não se deixa fotografar, subir ao palco Vodafone.

Vodafone Paredes de Coura 2019
Bed Legs no Vodafone Paredes de Coura, 14 de Agosto 2019 (© Margarida Ribeiro/MHD)

Julia Jacklin encanta até os renitentes

Julia Jacklin chegou ainda antes da hora prevista para realizar os ajustes de som (bem precisos). Apesar de se ouvir alguns “JULIAN!”, o ambiente era muito distraído, debatendo-se ali à frente a indecisão de ficar a assistir a uma atuação desconhecida ou ir embora e perder o lugar para os Parcels. Com a cantora de 28 anos, cabelo comprido aloirado, surgiu também o pôr-do-sol. Sobressaía a saia verde quase até aos pés, no andar calmo e cauteloso, enquanto segurava a guitarra com uma etiqueta que enunciava tratar-se aquela da “Julia’s Guitar”. A voz surgiu contida, calmamente emitida, com quem apalpa terreno. A plateia nunca estivera tão estática. Lentamente, Julia foi transparecendo mais confiança. Na segunda fila, limitávamo-nos a trocar sorrisos, arrebatados por cada nova canção que surgia.

Infelizmente os indecisos de há pouco optaram por permanecer na multidão, demasiado compacta para se abandonar de espírito leve. Assim, ao soar dos primeiros acordes de “Don’t Know How To Keep Loving You”, o grupo teve a ousadia de começar a pôr abertamente a conversa em dia. Não foi grave porque, ao chegar o refrão, unimo-nos a Julia, abafando-os a eles e à sua mundana conversa. Julia Jacklin será tímida mas não foi capaz de disfarçar a surpresa que suscitavam em si aquele monte coberto de pessoas e aquelas vozes coordenadas a segui-la: “Are you all drunk or are you just really friendly?” Bêbados não estávamos. Se éramos amigáveis? Talvez. Mas mais do que isso éramos um grupo grande que entendia os gritos de libertação da artista e aspirava a poder partilhá-los. E assim o fizemos, já no final do concerto “Pool Party” mostrou-nos uma Julia mais solta que alegremente acompanhámos.

Vodafone Paredes de Coura 2019
Boogarins no Vodafone Paredes de Coura, 14 de Agosto 2019 (© Margarida Ribeiro/MHD)

Os Boogarins pertencem ao Paredes de Coura

Agora era a vez dos brasileiros, Boogarins. Foi uma atuação infecciosa. Já envoltos pela parca luminosidade do início da noite, aproveitaram-se do contraluz e criaram uma atmosfera de descontração que conquistou a total adesão do público. O duo Almeida e Ferraz, com as suas vozes de falseto que ora sobressaem ora se deixam abafar pelas malhas de guitarra, colocaram a multidão em êxtase, numa dança e movimentação constante ao longo de todo o concerto. Novamente a moldura humana suscitou admiração nos artistas, foi a maior para a qual alguma vez atuaram, já os tinham avisado que o seu lugar em Portugal era o Paredes de Coura, afinal sempre era verdade.

A noite continuava a avançar e aproximavam-se as atuações mais esperadas. Para quem estava no mesmo sítio desde as 18:30, começaram a assomar alguns sintomas de desconforto. Foi fácil ignorá-los, tão grande era o entusiasmo com o que aí vinha. Depois de tantos concertos lado a lado, os vários grupos começaram a confraternizar durante os morosos intervalos.

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Parcels no Vodafone Paredes de Coura, 14 de Agosto 2019 (© Margarida Ribeiro/MHD)

Muitos vieram só pelos Parcels, num concerto eletrizante

Julgando que os National era o concerto pelo qual todos aguardavam, apercebi-me surpreendida de que os conjuntos de jovens a assomar na linha da frente esperavam era ansiosamente pelos Parcels. À hora marcada, surgem os cinco australianos, um por um, cada qual com o seu corte de cabelo, direitos, confiantes, em fila. Desde o momento em que encarou o público, o guitarrista não conseguiu esconder a perplexidade ao avistar a massa humana que aplaudia a sua entrada em palco. Carregados de energia, os Parcels deram início ao concerto mais festivo do dia. Soaram as primeiras notas nos teclados, as suas vozes emergiram e já o público saltava em enorme êxtase. Ainda surpresos com aquela adesão tão imediata, eles próprios deixaram-se levar pela multidão. O guitarrista e o baixista saltavam frente a frente, colocavam-se de joelhos, até já nos teclados se saltava ao som do canto.

Cá em baixo ondulávamos em sintonia. Se antes ainda se supôs uma tentativa de distanciamento dos Jungle, agora os Parcels soam e parecem-se com a banda. Os artistas já tinham atuado em Portugal, mas novamente os espantou a multidão que desta vez os acompanhava. O ambiente no público era tão dançante que, no tempo do concerto, mudou-se mais de posição do que ao longo de todo o dia de festival. O concerto acabou com a banda em efusivos agradecimentos e um público ruidoso a gritar e pedir por mais. De nada adiantou, de Parcels não havia mais. Faltavam ainda os The National. O público, desarrumado pela dança, sofreu alguns ajustes, que, sorte nossa, nos aproximaram das grades.

Vodafone Paredes de Coura 2019
The National no Vodafone Paredes de Coura, 14 de Agosto 2019 (© Margarida Ribeiro/MHD)

Fascinado pelos National, o público canta em uníssono

Se uma grande parte da plateia ansiava pelos Parcels, verdade seja dita, os The National são os The National. E, se o concerto dos Parcels foi o mais movimentado, este último foi o mais emocionante. Apesar de esta banda icónica ser assídua visitante das terras lusitanas, à exceção de raros aficionados que os seguem até para fora do país e fazem questão de ocupar os lugares mais próximos, o público à frente era maioritariamente jovem e não tivera ainda a ventura de assistir à banda ao vivo. Ainda assim, a entrada em palco, nomeadamente de Matt Berninger, despoletou alguns gritos de euforia.

Abriram com “You Had Your Soul With You”, a primeira faixa do mais recente disco, I Am Easy To Find, conhecida por aquele início tão ritmado. A multidão ansiosa, cansada de esperar o dia todo, cantou com o vocalista num coro tão poderoso que, ao princípio, nem se ouvia a voz de Berninger. O vocalista veio acompanhado de Mina Tidle, para desempenhar as vozes femininas que o acompanham neste novo álbum, mas o público era unânime. Se gostariam de ouvir algumas canções como “Rylan”, de resto esperavam uma preponderância de discos favoritos anteriores. E assim foi. Trouble Will Find Me, High Violet e Sleep Well Beast marcaram forte presença, enquanto de Alligator, Boxer e Cherry Tree o público teve direito a uma canção. O alinhamento foi feito para um concerto memorável, os clássicos passaram todos e o público uniu-se completamente a Berninger.

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O vocalista interpretava as introspetivas letras, a raiar ligeiramente o absurdo, oferecendo-nos o microfone para que cantássemos por ele, contemplando-nos às vezes com um olhar que tanto parecia sonhador como admirado, a olhar a lua e a paisagem. Faixas como “I need my girl” ou “The system only sleeps in total darkness” trouxeram atmosfera e sentimento ao concerto da banda. Mais do que nos fazer dançar e saltar inconscientemente, os National tiveram a capacidade de nos fazer cantar em uníssono aquelas letras repletas de aprendizagem e emoção que já tantas vezes escutámos pela voz grave e reconfortante de Matt Berninger.

A banda mostrou-se surpreendida pela incomensurabilidade da plateia, pela forma como, das grades ao topo, todos cantavam e erguiam as mãos. Matt Berninger interagiu com o público ali mesmo à frente, recebeu presentes, assinou álbuns e sujeitou-se (exagerada ou ironicamente) a passear-se pelas grades, deixado-nos tocar nem que fosse na manga do seu casaco. Elogiada a lua, o recinto, o público, depois de quase duas horas de concerto, chegou a hora dos National abandonarem aquele público completamente absorvido. À laia de oferta, tocaram “Vanderlyle Crybaby Geeks”, que, já depois de terem largado o palco, continuámos a entoar.

Vodafone Paredes de Coura 2019
Kokoko! no Vodafone Paredes de Coura, 14 de Agosto 2019 (© Margarida Ribeiro/MHD)

Chegava agora a hora de largar o palco principal, desta vez em direção ao Vodafone Fm, para dançar ao ritmo dos KOKOKO!. E, por grande que fosse o cansaço, a nossa noite (e a de muitos outros que por ali passavam) terminou ao som da sua cativante percussão, repleta de batidas psicadélicas.

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