Anime da Semana: Yuri on Ice

Odiado por uns, idolatrado por outros. Yuri on Ice foi um dos animes mais populares de 2016. Queres conhecer a nossa opinião?

A série realizada pela japonesa Sayo Yamamoto não previa o furor que ia gerar quando estreasse. De repente, toda a comunidade de fãs de animes estava a falar de Yuri on Ice. De um lado tínhamos os fãs devotos da série, que a idolatravam e até a aclamavam como uma obra-prima. Do outro encontrávamos um público mais decepcionado com o resultado final, acabando por dar azo a vários comentários negativos, carregados de ódio e escárnio. Algo que temos alguma dificuldade em compreender, depois de terminar a série Yuri on Ice (disponível no site Crunchyroll).

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yuri on ice

Mas possivelmente o que pode estar aqui em causa é o simples facto da série ter se tornado muito famosa, e haver a necessidade de menosprezá-la só por causa deste efeito colateral. Como se a excessiva popularidade não correspondesse ao valor que a obra tem. E mesmo que não corresponda, será que isso significa que a série tem de ser categorizada como lixo ou medíocre? Não acreditamos nesta forma de pensar. Assim, decidimos fazer uma análise realista de Yuri on Ice, apontando as falhas que a série claramente apresentou. Contudo, enaltecendo da mesma forma os aspetos positivos do anime.

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Yuri on Ice é uma história sobre um jovem atleta de patinagem no gelo, Yuri Katsuki. Conhecemos o protagonista na pior fase da sua carreira. Desmotivado, ele decide regressar à sua terra natal, e pondera desistir da patinagem. A família recebe-o calorosamente e quando ele precisa do seu espaço, refugia-se no ringue de gelo da sua terra. Longe dos olhares das outras pessoas, Yuri interpreta na perfeição uma coreografia do seu ídolo, o russo Victor Nikiforov, o pentacampeão mundial de patinagem no gelo. O que Yuri não esperava era que alguém o filmasse, e colocasse o vídeo no Youtube. Este torna-se viral e é visto por Victor. O atleta fica intrigado, decide viajar até ao Japão e tornar-se no treinador de Yuri, ajudando-o a conquistar a medalha de ouro.

yuri on ice

A maior parte dos problemas que encontramos em Yuri on Ice, estão ligados à duração da série que, consequentemente afetam a forma como a narrativa é construída e o desenvolvimento dos personagens. Comecemos por esse elemento. A série anime é constituída por 12 episódios. E neste espaço de tempo, são introduzidos vários personagens secundários e praticamente nenhum é desenvolvido. Nós mal os conhecemos. Na maioria dos casos acabamos por nos esquecer deles rapidamente. O que torna impossível criar alguma empatia com qualquer um deles. Neste género de histórias, a ligação que o espectador cria com as personagens é essencial para que se sinta mais envolvido na narrativa. Se este objetivo não é atingido, a série perde um pouco o seu interesse.

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A série tenta ultrapassar este problema através dos monólogos internos que os personagens têm enquanto patinam. É neste momento que existe um momento de explicação e contexto. Em muitas ocasiões estes monólogos tornam-se demasiado expositivos. Mais uma vez, culpa da curta duração da série. Se os personagens tivessem mais tempo de antena para o espectador conhecer melhor a sua história, as suas motivações, o monólogo que iríamos ouvir durante a sua performance não seria exageradamente explicativo. Seria utilizado apenas para percebermos o que é que o personagem esta a sentir ou a pensar naquele exato momento.

yuri on ice

O próximo problema que iremos abordar é, na verdade, muito subjetivo. Mais do que qualquer outra questão nesta análise. Yuri on Ice é um anime que se sustenta numa modalidade desportiva, a patinagem no gelo. Portanto enquadra-se no género de animes de desporto. Sendo uma série de desporto, seria positivo que o anime tentasse tornar a patinagem no gelo aliciante para o espectador. Caso contrário é difícil percebermos porque é que os atletas têm tanta paixão pelo desporto que estão a praticar. O que é que o torna tão empolgante? Essa é a questão do espectador e a série não tem uma resposta para lhe dar. Onde a série faz alguma justiça ao desporto que está a explorar é na forma como tenta mostrar o quão elegante, sofisticada e bela é a patinagem no gelo. E consegue-o, na maioria das vezes.

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Mas porque é que, de uma maneira geral, a série não torna a patinagem emocionante? Acreditamos que a resposta está nas coreografias. Elas tornam-se muito repetitivas, assim como os episódios. E isto verifica-se ainda mais por causa da curta duração da série, mais uma vez. Num espaço de quatro ou cinco episódios, estamos a ver o mesmo personagem a interpretar as mesmas coreografias. Sim, talvez seja o que acontece em competições reais de patinagem no gelo. Mesmo assim, a nossa memória ainda está bastante fresca e portanto, mesmo que a performance tenha algumas diferenças, para o espetador vão continuar a parecer muito semelhantes. Como consequência, toda a coreografia torna-se aborrecida, e esta insatisfação acaba por afetar a série e a sua história.

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Outro problema relacionado com a patinagem é que as coreografias não são muito perceptíveis. É uma questão de animação. O que significa que é uma questão de orçamento. Como é óbvio, a série não tinha dinheiro suficiente para dar mais detalhe à animação das coreografias. É compreensível. O problema é que o espectador acaba por não ter forma de distinguir as várias coreografias. Nem de formar uma opinião sobre qual lhe pareceu melhor e pior, ou qual gostou mais ou menos. Ele entende que as sequências de saltos variam de atleta para atleta, mas acaba por ser obrigado a basear-se nas pontuações, nas afirmações dos comentadores ou nas reações dos personagens, para saber se a performance foi boa ou má.

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E isto leva-nos a falar de uma técnica muito usada pela série durante as performances dos atletas, já referida nesta análise, e que prejudica a forma como o espectador vê a coreografia. Os monólogos internos dos personagens. Anteriormente esta prática aplicava-se aos atletas. Porém, neste caso ela estende-se também aos personagens que não estão a competir. Os amigos, a família, o treinador do atleta, entre outros. Durante as performances dos patinadores, em vez de se fazer uma montagem onde vemos o personagem a patinar seguida de um plano breve com a reação da plateia, a série decide afastar o nosso olhar da performance e dar voz aos pensamentos de quem está no público.

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Por exemplo, quando alguém está a fazer uma grande proeza no ringue, nós não vemos isso. Pelo contrário, a câmara filma a reação de alguém que está a ver o atleta, enquanto ouvimos os seus pensamentos. Isto não tem nada de errado, caso não estivesse sempre a ser feito. Como consequência, ficamos menos envolvidos na performance do patinador. Primeiro porque não a estamos a ver. E segundo, porque estamos constantemente a ser relembrados de como é suposto reagirmos à performance por alguém que está na assistência.

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Felizmente, Yuri on Ice não é uma série que se resuma apenas a erros. Também há elementos no anime que são bem conseguidos. O mais evidente é a jornada do protagonista, Yuri Katsuki. Ele começa a história na fase mais decadente da sua carreira. Ele chegou à grande final da competição mundial, mas os nervos foram tantos que ele acabou por ficar em último lugar. Está decepcionado, possivelmente deprimido e sem motivação para continuar a patinar. Porém, com Victor a irromper na sua vida, o protagonista abandona a ideia de desistir da patinagem artística.

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Com a ajuda do seu ídolo e treinador, e através da patinagem, Yuri começa a perder os seus medos e a sua ansiedade. Fica gradualmente mais confiante. Acredita mais nas suas capacidades. E eventualmente acaba por ficar melhor a cada performance e a cada competição. Todo este esforço e trabalho culminam no recorde que ele bate, superando Victor, e na conquista de uma medalha. Depois de ter sido reconhecido como um patinador de excelência pelos vários colegas, Yuri consegue finalmente ver o atleta talentoso que é.

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Esta evolução é trabalhada muito bem ao longo dos episódios. Acima de tudo é realista. Mesmo que num momento Yuri consiga superar as suas crises de ansiedade, isso não significa que elas desapareceram de vez. E nós somos relembrados constantemente disso. A progressão de Yuri não acontece sempre no bom sentido. Tem altos e baixos, tal como acontece na vida real. E mesmo no final da série, embora vejamos que Yuri está muito diferente, pela positiva, é perceptível que o personagem ainda tem muito que melhorar. E essa constatação que a série faz é extremamente positiva. Ela não tenta ser utópica.

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Yuri on Ice também deve ser reconhecida pelo mérito na abordagem da questão da homossexualidade. É raro quando uma série anime consegue retratar a homossexualidade de uma forma tão franca, tão honesta e tão terra-a-terra. Não existe qualquer vergonha ou constrangimento. Não temos aquelas tontices que tanto caracterizam a animação japonesa. Nem é algo muito dramatizado. E tendo em conta as nacionalidades dos personagens, este tratamento torna-se ainda mais importante e inovador.

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Estamos a falar de um relacionamento entre um russo e um japonês. Como provavelmente sabem, a Rússia tem um vasto historial de homofobia. Já o Japão, embora até tenha géneros de animes específicos que se focam nas relações gays e lésbicas, yaoi e yuri, respetivamente, a verdade é que ainda hoje a sociedade japonesa não vê com bons olhos o casamento homossexual. Portanto, a forma despreconceituosa como Yuri on Ice decidiu introduzir e explorar este tema, é algo que só pode ser digno de louvores.

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Yuri on Ice não é a série deplorável que muitas pessoas deram a entender que era. Mas também não é nenhuma obra-prima, ou uma série de excelência. Como série de desporto, deixa um pouco a desejar. A narrativa sofreu devido à duração limitada do anime. Os personagens secundários que são incorporados na história surgem apenas para torná-la mais composta, não recebendo a mínima atenção ou desenvolvimento. Por outro lado, Yuri on Ice consegue explorar bem o seu protagonista, tanto no âmbito profissional e desportista, como no âmbito pessoal e na descoberta da sua sexualidade. Consideramos que vale a pena ver esta série, mesmo que não seja perfeita e tenha claramente falhado em vários aspectos. Mas isso já fica ao vosso critério.

Acompanhaste a série? Qual a tua opinião?


yuri on iceTítulo Original: Yuri!!! on ICE
Realizador: Sayo Yamamoto
MAPPA | Comédia, Desporto | 2016 | 12 episódios

Ângela Costa
Beatriz Barroca
Filipa Machado
Joana Ferreira
Marcos Mendes
Miguel SImão
Rui Ribeiro
 


Filipa Machado

 



Sobre Filipa Machado

Licenciada em Estudos Artísticos e uma grande apaixonada (e viciada) por Literatura, Televisão, Cinema e, em especial, por Animação Japonesa.