Black Mirror, quarta temporada em análise

A quarta temporada de “Black Mirror” vive de altos e baixos. Numa temporada que não tem nenhum San Junipero, há ainda assim três contos de Charlie Brooker que seguem direitinhos para o leque de melhores episódios de 2017.

Visitar o futuro para nos fazer refletir sobre o presente. Normalmente através de uma espécie de terapia de choque. “Black Mirror”, o brilhante e tecnológico “The Twilight Zone” do século XXI, produto da mente especial de Charlie Brooker, tem apostado nesta receita. Primeiro no britânico Channel 4, entre 2011 e 2014. E desde Outubro de 2016 ao abrigo da Netflix.

San Junipero. White Christmas. Fifteen Million Merits. The Entire History of You. “Black Mirror” já nos ofereceu verdadeiras pérolas e alguns dos melhores episódios da última década. Muito poucos foram os acidentes de percurso, e vários os momentos de puro desconforto (Shut Up and Dance, White Bear).

À quarta vida, “Black Mirror” volta a apresentar ideias pertinentes, simultaneamente atuais e futuras, mas desilude em comparação com as temporadas anteriores. Charlie Brooker mantém o condão de levar o espectador ao limite na procura de respostas. É sempre difícil antecipar o desfecho de um episódio de “Black Mirror”, sendo frequente estarmos a dez minutos do fim sem qualquer noção de como será rematado.

Black Mirror - USS Callister

Black Mirror – USS Callister

Embora sempre com mérito nas ideias, acompanhadas em vários casos por twists que já se tornaram assinatura da série, nesta temporada não há nenhum episódio tão marcante como foi San Junipero na anterior. E o melhor, numa antologia como esta, é mesmo desconstruir e analisar individualmente cada um dos seis contos. Atenção, abaixo podem encontrar SPOILERS.

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A começar, USS Callister é uma progressiva e agradável surpresa, e a prova de que a Netflix fez muito bem – tal como em Arkangel – ao apresentar apenas a superfície, a primeira camada do episódio, no trailer de promoção. Porque a aparente paródia ou sátira a “Star Trek” é, na verdade, muito mais do que isso. Tudo soa falso, exagerado, caricaturado e plástico no endeusamento da tripulação do USS Callister ao seu comandante, Daly (Jesse Plemons). Cai a cortina, e vemos Robert Daly no mundo real chegar ao seu local de trabalho, onde é marginalizado e oprimido por vários colegas de trabalho, os mesmos que surgem na fantasia virtual por ele criada em casa.

O conflito trazido pela chegada de uma nova colaboradora, Nanette Cole (Cristin Milioti), aproxima as duas realidades, O oprimido vira opressor, com um assinalável complexo de Deus que porventura já todos experimentámos, de forma inocente, ao jogar Sims. As cores vivas, o asqueroso sexismo e a perspicaz transição de protagonismo (de Daly para Nanette) faz de USS Callister um episódio tão bom que até está no ar a possibilidade de originar um spin-off.

Black Mirror - Crocodile

Black Mirror – Crocodile

Segue-se Arkangel, realizado por Jodie Foster, que levanta um tema contemporâneo e cheio de potencial: o conceito de controlo parental. No centro, uma tecnologia que permite que os pais, através de um implante, monitorizem tudo o que os filhos vêem a todo e qualquer instante, podendo “desfocar” situações potencialmente ameaçadoras. Protagonizado por Rosemarie DeWitt, nunca chega a deixar aquela sensação de indução catatónica ou murro no estômago, que talvez fosse “recomendável” face à sensibilidade do tópico.

A evidência de que os crimes não têm memória curta, Crocodile, revela-se incapaz de retirar proveito da interessante maquinaria envolvida (um aparelho que visita as memórias) e do cenário islandês, escrevendo uma narrativa pouco envolvente, que segue do ponto A para B quase sem obstáculos ou imprevisibilidades. Apenas sucessivas tomadas de ação de Mia (Andrea Riseborough) numa violência que só conhece fim quando a protagonista julga já não existirem mais testemunhas.

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Felizmente, a segunda metade da temporada tem dois dos melhores episódios do ano. Hang the DJ pisa territórios que Yorkie e Kelly pisaram no aclamado San Junipero (2 emmys conquistados), mostrando uma vez mais que “Black Mirror” sabe o que fazer quando tem nas mãos romances digitais. A constante repete-se: uma dupla com uma química brutal. Amy (Georgina Campbell) e Frank (Joe Cole) carregam aquela que pode ser vista como a melhor publicidade alguma vez feita ao Tinder ou a outras apps de encontros. Narrativa simples, mensagem positiva, fortalecida pela realização de Tim van Patten (“The Sopranos”, “Game of Thrones”, “Boardwalk Empire”) e pela banda sonora de Alex Somers e Sigur Rós.

Black Mirror - Black Museum

Black Mirror – Black Museum

Mas, numa temporada oscilante, depois de um bom episódio e antes do nível voltar a subir, há Metalhead. David Slade coordena uma perseguição carregada de adrenalina mas com pouco conteúdo. Não chega abraçar uma escala a preto e branco para que um episódio se torne, por si só, um clássico instantâneo. Num cenário pós-apocalíptico em que a inteligência artificial já ultrapassou a humanidade, os “cães” podem ser vistos como uma das melhores criações robóticas do meio audiovisual nos últimos anos. Afinal, o Web Summit não teve tudo. No geral, e tal como em Crocodile e Arkangel, há boas ideias desaproveitadas na execução.

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Depois de cinco episódios de apreciação mista, Black Museum chega para equilibrar os pratos da balança e fazer companhia a USS Callister e Hang the DJ. O museu de Rolo Haynes (Douglas Hodge) revela-se um palácio de easter eggs das temporadas anteriores e, num episódio que mostra melhor do que qualquer outro esta temporada o ADN “Black Mirror”, são relatadas três histórias por trás de três atrações do museu. 1) um implante neurológico que permite a um médico sentir a dor dos seus pacientes, 2) a consciência de uma mulher em coma alojada no cérebro do marido, 3) um homem condenado à cadeira eléctrica perpetuado num holograma de sofrimento.

Fantasias virtuais. Controlo parental. Memórias que deixam de ser privadas. Uma app ou sistema que determina o prazo de validade das relações. Uma perseguição minimalista a preto e branco. E um museu de inovações transformadas em desgraças. A quarta temporada de “Black Mirror” tem altos e baixos mas, mesmo assim, mal podemos esperar pela confirmação de novos episódios. Perpetuada devia ser a maravilhosa mente de Charlie Brooker.

TRAILER | VISITA O FUTURO EM “BLACK MIRROR”

Já viste os seis novos episódios de “Black Mirror”? Quais os que mais gostaste e como avalias esta temporada em comparação com as anteriores?

Black Mirror - Temporada 4
Black Mirror poster

Name: Black Mirror

Description: Charlie Brooker apresenta seis novas histórias de um perigoso futuro que pode estar mais perto do que pensamos.

  • Miguel Pontares - 84
84

CONCLUSÃO

O MELHOR - Hang the DJ é o herdeiro espiritual de San Junipero, com uma narrativa simples e mensagem positiva, alicerçada na química de Georgina Campbell e Joe Cole. Black Museum, um palácio de easter eggs de temporadas anteriores, é o episódio com o ADN "Black Mirror" mais vivo; e USS Callister é uma progressiva e agradável surpresa, que faz das cores vivas, do asqueroso sexismo e da perspicaz transição de protagonismo as suas principais forças.

O PIOR - Os episódios Metalhead, Crocodile e em certa medida também Arkangel apresentam várias ideias interessantes, desaproveitadas na execução. Lineares e mais previsíveis, nenhum tem um twist ou nos aplica um valente murro no estômago como Charlie Brooker já nos habituou.

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Sobre Miguel Pontares

Licenciado em Comunicação Empresarial, estudou ainda Escrita de Argumento para Cinema e Televisão.
É um dos autores do blog Barba Por Fazer.