"Romaria" | © Alambique

Romaria, a Crítica

O cinema espanhol vive um momento de crescente relevância entre a cinefilia internacional. Muito se fala dos autores mais egrégios, aqueles cujo legado há muito se consolidou. Esses Erices e Almodóvares. Muito se fala dos que há já muito por cá andam, mas só agora parecem alcançar o estatuto que tanto merecem. Esses Serras e Truebas e Gueríns. Mas também se deve fazer uma merecida salva de palmas àquelas novas vozes que só emergiram na última década e que têm, através do seu trabalho, revitalizado toda uma indústria e ganho a atenção de programadores, crítica e audiências. Entre esses últimos, convém dar destaque aos que trabalham fora da hegemonia castelhana, fazendo ouvir as outras línguas de Espanha no cinema.

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Carla Simón é grande exemplo, sendo que as suas primeiras obras remeteram para uma expressão catalã raramente apreciada nestes contextos cinematográficos. Não podia deixar de ser, visto que o trabalho da autora incide muito em exercícios de autoficção, a começar com o belíssimo “Verão 1993” onde abordou as memórias de infância, a dor de crescer orfanada pelo VIH e os muitos preconceitos daí gerados. Em “Alcarràs”, a cineasta voltou a refletir sobre a família, mas fê-lo com maior distância da sua mesma biografia. A história considera um verão na Catalunha, a despedida que um clã faz do pomar pessegueiro que já é seu há gerações, mas que, agora, terá de ser vendido numa abdicação que a todos deixa infeliz.

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Um cinema de autoficção e memórias imperfeitas.

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Essa gloriosa fita valeu-lhe o Urso de Ouro em Berlim e a honra de representar Espanha na corrida aos Óscares, algo raro para cinema de expressão catalã. Seria fácil presumir que, no seguimento desse sucesso, Simón se afastasse cada vez mais da autobiografia em cinema. Na realidade, ela fez marcha-atrás e tombou de volta no modelo do filme enquanto confessionário e reflexão solipsista, superando até o próprio Almodóvar a respeito da autoficção. Tanto assim é que os próprios créditos nos apresentam o argumento como trabalho de adaptação. Só que não se trata de um livro a ser transposto para o cinema, mas as cartas e diários que Simón tem da mãe que viu morrer jovem.

“Romería” recorda a adolescência da realizadora, sua viagem estival a outra vida e outra língua, quando a jovem deixou a família materna em Barcelona para tentar descobrir mais sobre o pai. A odisseia levou-a à Galiza, à costa nortenha de Espanha e todo um imbróglio de segredos mal guardados e muita vergonha, sentimentos contidos há décadas, fermentando no silêncio e na ignorância. Não que Simón esteja aqui a engendrar um melodrama corriqueiro sobre intriguices no seio familiar. O tom da obra é muito mais suave que isso, deixando-se embalar pelos ritmos lânguidos da estação mais quente. Também se deixa levar por algo mais banal ainda, pela forma como a vida se desenrola fora das regras da narrativa.

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Por outras palavras, desenrola-se sobretudo num registo observacional muito apegado à tradição realista, recriando o passado recente de 2004 sem grande forrobodó ou sublinhar do seu estatuto enquanto filme de época. Ou, pelo menos, assim parece a uma primeira análise. Dois terços da fita acompanham Marina, ficcionalização da realizadora quando esta tinha 18 anos, à medida que ela se vai familiarizando com os parentes que tem em Vigo. O primeiro ato é feito de encontros meio desordenados, serões passados com tios e tias, seus filhos, suas casas e vidas entrelaçadas. Sejam atentos e notarão aquilo perdido entre linhas, a história do pai contada pelos silêncios pesados, pelo que fica por dizer.


Um almoço na casa dos avós choca o filme como um terramoto, os alicerces de “Romaria” abalados pela verdade que se começa a revelar. Sussurros sobre acidentes, sobre overdoses e SIDA, uma geração perdida da qual só restam algumas fotos escondidas em álbuns ou deixadas na calada de um canto escuro. São imagens de juventude esbelta, nua na praia, em festa pela noite e em bares que já existem eternos e fantasiados na memória daqueles que viveram para os recordar. Há um sentido de perda tão grande aqui, uma melancolia para com toda uma juventude e sua efémera felicidade, como se sua existência tivesse sido tão passageira como o verão que, mais tarde ou mais cedo, definha em outono.

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A felicidade e a esperança de expandir os laços de sangue murcham e novas questões se levantam. Será que partilhar o mesmo sangue – essa substância sempre tão forte no pensamento, ora pela doença que se abateu sobre os pais toxicodependentes, ou pelo carmesim de um vestido novo que a tia lhe costura – nos faz pertencer à mesma família? Qual o significado de família? Qual o sentido dela? Na tormenta dessas dúvidas, Simón acompanha a protagonista, seu reflexo, numa viagem noturna além da realidade corriqueira, levando-a a ela e a nós para umas outras festas em Vigo, quase vinte anos antes, quando a mãe e o pai se conheceram e apaixonaram num daqueles sobressaltos de amor tóxico, insustentável, mas não por isso menos forte.

Depois de uma carreira focada em realismo estético, prestações naturalistas e uma técnica quase documental, Simón rompe com tudo isso e faz de “Romaria” a sua proposta mais arriscada. A filha faz de mãe nessa incursão pela memória que só a terra preserva, dando papel duplo à jovem Llúcia Garcia. O primo faz do pai, seu tio que jamais conheceu. E Vigo faz de si mesma, apesar do aspeto ser muito diferente. Porque a realizadora e a diretora de fotografia Hélène Louvart engendraram um esquema maravilhoso, pelo qual a aparência digital com que a ação de 2004 foi registada se transfigura numa emulação de celuloide. As câmaras são as mesmas, sendo tudo isto uma magia de pós-produção.

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“Romaria” marca uma nova etapa na carreira de Simón.

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Assim, as cineastas reforçam a ideia do presente a tentar imaginar um passado a que não tem acesso, a distância entre estilos definido a distância intransponível entre Marina e seus pais. O resultado é meio onírico e melancólico também, especialmente quando a narração tirada dos escritos da mãe se impõe sobre imagens da relação em colapso, dos corpos em suplício quando a droga acaba e o desmame se torna em autêntica tortura. “Romaria” expõe tudo isso sem nunca perder a gentileza que definiu as primeiras passagens, tentando um equilíbrio tonal muito delicado. Em jeito metafórico, parece que testemunhamos Simón a tentar passar um qualquer farrapo de papel crepe pelo gume de uma faca sem o cortar.

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Se “Romaria”, conhecido como “Romería” no original, não é tão imaculado como “Verão 1993” ou “Alcarràs”, isso deve-se à sua maior ambição e alto teor de risco, especialmente a nível estrutural. Mesmo assim, a obra valeu a Carla Simón a seleção para a Competição Oficial em Cannes, onde concorreu pela Palma de Ouro. Em termos de palmarés, o filme não ganhou nada na Croisette, mas as premiações espanholas deram-lhe o devido mérito. Nos Goyas, recebeu seis nomeações, inclusive para Melhor Realização, Atriz e Ator Revelação. Nos Gaudí, mais específicos do cinema catalão, foi indicado para muitas mais categorias, com a jovem Garcia saindo vitoriosa por aquela que foi a sua estreia no grande ecrã. Uma estreia muito auspiciosa, há que dizer.

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Romaria

Conclusão:

Entre a biografia, a poesia e a autoficção, “Romaria” é mais uma viagem de Carla Simón ao passado e a conturbada história da sua família. Desta vez, o realismo que tem marcado a obra dá lugar a um registo mais sonhador, com o filme a se transformar numa viagem pelo tempo, na direção de um passado perdido, onde mãe e pai são imaginados pela filha orfanada que os tenta recordar.

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