Homem-Aranha: Regresso a Casa, em análise

Homem-Aranha: Regresso a Casa confirma Tom Holland como estrela, e oferece-nos o melhor retrato de Peter Parker até à data. Um miúdo bem-humorado, confiante e desejoso de fazer parte de algo. Vulnerável, em conflito, dividido entre os problemas de um adolescente normal e de um herói prestável, ausente e perdido. Desta vez, a Marvel decidiu dar-nos um super-herói na puberdade, em formação. E ainda bem que o fez.

É conhecida e reconhecida a capacidade da Marvel em conceber os seus filmes com régua e esquadro. A “fórmula Marvel” resulta. E existe desde que Kevin Feige identificou o potencial de construir um universo partilhado e faseado, lançado em 2008. Dezasseis filmes depois, impressiona a experiência como um todo e o pensamento integrado desta viagem. Em algumas das paragens temos sido mais felizes do que noutras. Mas o entretenimento é constante. Tomemos nós, espectadores, contacto com as histórias pela primeira vez, ou sejamos nós devotos fãs das vinhetas, tiras e pranchas onde nasceram todas estas personagens.

Felizmente, nota-se uma preocupação em combater a tendência de muitos dos filmes Marvel. Fáceis de mastigar, mas fáceis de esquecer. A continuidade de Anthony e Joe Russo em vários capítulos e o recrutamento de vozes muito próprias (casos de Ryan Coogler e Taika Waititi) atestam isso mesmo.

Homem de Ferro. Capitão América. Thor. Hulk. A este plantel, composto por muitas mais personagens cativantes, os filmes Marvel não podiam acrescentar os X-Men e o jovem Homem-Aranha, refém da Sony, proprietária dos seus direitos. Até que em 2015 a Marvel e a Sony acordaram a custódia partilhada do aranhiço amigo e vizinho de todos os nova-iorquinos. Depois de Tobey Maguire nos filmes de Sam Raimi e Andrew Garfield como O Fantástico Homem-Aranha, a Marvel confiou grandes poderes e grandes responsabilidades a Tom Holland.

Spiderman Homecoming

O regresso a casa do filho pródigo é imediatamente marcado por uma das melhores entradas do genérico Marvel. Tributo evidente aos desenhos animados dos anos 60. E desde cedo se percebe: Jon Watts e a extensa equipa de argumentistas conhecem e respeitam as origens do Homem-Aranha. À data das suas estreias como Peter Parker, Tobey Maguire e Andrew Garfield tinham 27 e 29 anos respetivamente. Tom Holland tem 21.

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E o melhor de Homem-Aranha: Regresso a Casa é mesmo o atrevimento com que deixa as características e personalidade da sua personagem principal ditarem o tom e o tipo de filme. O que a 20th Century Fox fez tão bem com Deadpool Logan, a Marvel consegue agora com a melhor versão de Peter Parker do grande ecrã.

O Homem-Aranha é um miúdo. Bem-humorado, confiante e desejoso de fazer parte de algo. Vulnerável, em conflito, dividido entre os problemas de um adolescente normal e de um super-herói em formação.

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Spiderman Homecoming elevador

Homem-Aranha: Regresso a Casa confirma Tom Holland como estrela. E começa a fazê-lo ao dar-lhe, depois de um pequeno prólogo que introduz o vilão Vulture (Michael Keaton), uma câmara para a mão. A azáfama e excitação de Peter, guiado por Happy (Jon Favreau) até dar uma mãozinha na Guerra Civil – filme que introduziu Holland, que precisou de poucos minutos para convencer a maioria dos fãs – contrasta com o regresso ao fastidioso e vulgar dia-a-dia de adolescente comum.

Tony Stark (Robert Downey Jr.) não o acha pronto, e lança assim Homem-Aranha: Regresso a Casa. Filme sobre um adolescente em efervescência, sobre um miúdo impaciente que quer crescer rápido e mostrar ao mundo que é um homem. Um super-herói na puberdade, um estagiário Stark à procura de aprovação. E desta vez não há a picada da aranha, ou a perda do tio Ben. Nem era preciso.

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Sempre acompanhado pelo melhor amigo Ned (Jacob Batalon), esta terceira versão do cinema de Peter Parker define-se como prestável, ausente e perdido. Prestável na quantidade de mensagens que envia a vincar a sua disponibilidade para voltar a ajudar os Vingadores, acabando por inicialmente só ter impacto como bom samaritano ao ajudar uma velhota. Este Homem-Aranha, que ainda não é homem, cria problemas com a ansiedade de salvar o mundo; e quase que podemos dizer que são mais as vezes em que é salvo do que aquelas em que salva alguém.

Mas é essa vulnerabilidade que nos faz ter empatia pelo rapaz que, entre estar numa festa com os amigos e estar a combater o crime, acaba por não estar em lado algum. Fica no limbo, perdido, à procura de compreender os seus próprios poderes.

Spiderman Vulture

O filme de Jon Watts capta bem a onda teenager do Homem-Aranha, apresenta um bom ritmo, refresca a relação da personagem com a tia May (Marisa Tomei) e, sem grandes pretensões, acaba por ser um filme simpático. Robert Downey Jr. apadrinha, entre sermões e abraços que não eram para o ser, a carreira a solo de Tom Holland no universo Marvel. Já Michael Keaton, depois de ir buscar as asas ao armário, contribui bastante para que o filme tenha substância. O seu Adrian Toomes ou Vulture não é um antagonista vazio, oferece um twist interessante à ação, e gera alguma tensão no último ato. Alfred Molina e Willem Dafoe têm nova companhia no leque de bons adversários do Homem-Aranha na sétima arte.

De resto, o elenco transborda talento. Jennifer Connelly dá voz a Karen, e Donald Glover, Bokeem Woodbine, Martin Starr e Logan Marshall-Green têm pequenos papéis. O filme prepara ainda terreno para mais Zendaya ou para um eventual regresso de Michael Mando. E reúne um brutal conjunto de valores emergentes: Tony Revolori (The Grand Budapest Hotel), Angourie Rice (The Nice Guys), Abraham Attah (Beasts of No Nation) e Michael Barbieri (Little Men).

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Spiderman Homecoming Iron Man

No centro da constelação, está Tom Holland. Não restam dúvidas de que a Marvel acertou em cheio. E o seu background de dança, ginástica e até parkour só ajudam a esmorecer a linha que separa o ator da personagem.

Com influências claras dos filmes de John Hughes (Ferris Bueller’s Day Off ou The Breakfast Club), o mais recente filme da Marvel dá-nos um Peter Parker com o coração a mil, as hormonas aos saltos e o potencial e paixão para mudar o mundo. Peter Parker é um adolescente como os outros. No entanto, para ele o baile é outro.

Embora Homem-Aranha: Regresso a Casa não tenha momentos tão emblemáticos como alguns dos filmes de Sam Raimi, Tom Holland emerge como o melhor retrato de Peter Parker. E é de saudar a decisão final da personagem. A coragem de reconhecer que o sonho não pode ser já realidade. A maturidade de saber esperar.

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Homem-Aranha: Regresso a Casa estreou nas nossas salas de cinema no dia 6 de julho. Não podes perder!

Homem-Aranha: Regresso a Casa, em análise
spiderman poster

Movie title: Homem-Aranha: Regresso a Casa

Director(s): Jon Watts

Actor(s): Tom Holland, Michael Keaton, Robert Downey Jr., Jacob Batalon, Marisa Tomei, Jon Favreau

Genre: Ação, Aventura, Sci-Fi

  • Miguel Pontares - 75
  • Cláudio Alves - 70
  • Ângela Costa - 85
  • Rui Ribeiro - 70
  • José Vieira Mendes - 60
  • Daniel Rodrigues - 60
70

CONCLUSÃO

Homem-Aranha: Regresso a Casa é um filme simpático. Destaca-se por explorar um adolescente que por acaso também é um super-herói, e fá-lo com uma versão de Peter Parker à qual é impossível sermos indiferentes.

O MELHOR: Tom Holland consegue carregar um franchise! O filme sabe como beber as características do seu protagonista, e a leveza global faz sentido. Este Homem-Aranha fica-se pela rua, com dramas e sarilhos em pequena escala, e Michael Keaton acrescenta qualidade e tensão.

O PIOR: Embora seja bom entretenimento e transmita uma boa mensagem sobre a adolescência, tem poucos momentos emblemáticos e poderia utilizar melhor alguns dos incríveis atores secundários do elenco. Este é definitivamente o melhor Peter Parker, mas é discutível se será o melhor filme do Homem-Aranha.

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Sobre Miguel Pontares

Licenciado em Comunicação Empresarial, estudou ainda Escrita de Argumento para Cinema e Televisão. É um dos autores do blog Barba Por Fazer.