Do Livro à Tela – O Jogo Final

 

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Do Livro à Tela

O Jogo Final

de Orson Scott Card

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Com esta poderosa saga Orson Scott Card conseguiu algo inédito: Vencer em anos consecutivos, com livros da mesma saga, os prémios Hugo e Nebula Awards. A estes 4 prémios em 1985 e 1986, o autor juntou muitos outros, tornando a saga Ender’s numa das mais premiadas de sempre dentro do género e arrecadando uma legião de fãs monstruosa.

Infelizmente em Portugal o livro passou completamente “ao lado”, muito provavelmente por não estar na moda e assim se perdeu uma leitura única.  Se olharmos para alguns tops de renome dentro do fantástico, podemos ver este livro a figurar nos primeiros 3 lugares em muitas ocasiões, e mais significativo ainda se torna quando vemos que deixou para trás outros estrondosos êxitos mundiais como a poderosa saga “A Guerra dos Tronos”.

Olhando, finalmente, para a enorme legião de fãs espalhado pelo mundo, aparece agora a adaptação cinematográfica. O elenco é de luxo, os gráficos também e algumas interpretações estão em grande nível, onde devemos destacar Harrison ford e Asa Butterfield. No entanto estamos perante um filme que entretém, com alguns momentos de grande espetáculo, mas que nunca será um marco como é, e será, este livro. Então onde está a diferença?

O Jogo Final Imagem

Se olharmos em termos de enredo, o que está presente no filme é quase sempre fiel ao livro, mas apesar de fiel, há muito conteúdo que é omitido e a intensidade da narrativa também se perde. Em primeiro lugar está a própria “intensidade” da personalidade de Ender. Apesar da muito boa interpretação de Asa, é notório que o argumento foi feito para gostarmos o mais possível de Ender num curto espaço de tempo enquanto que por outro lado a adaptação também não nos deixa criar a empatia que o livro nos oferece enquanto vemos o que vai acontecendo. Tal é óbvio pelo facto de no filme tudo parecer demasiado rápido e fácil. Por vezes fica a ideia que Ender chega à Escola de Guerra e em pouco tempo já é o líder de todos. Esta é uma das grandes diferenças, pois no livro estamos perante um constante massacre psicológico, indiretamente oferecido por Graff, e que dá ao livro uma intensidade raramente alcançada numa obra literária, e que este filme não consegue, nem de longe, tocar.

Outro ponto a evidenciar é o facto de o filme estar perante uma grande dificuldade, pois o livro passa-se durante vários anos. Começamos o livro com Ender aos 6 anos e vamos vendo a sua evolução até aos 13. No filme, para garantir a permanência dos mesmos atores, ficamos perante um enredo que parece demorar algumas semanas/meses.

Enders Game game

Um aspeto já esperado de ser cortado, pois influencia mais os próximos livros do que este, é o facto de no filme não sabermos nada do que acontece na Terra. No livro existe toda uma política e manipulação de massas que é explorada, onde os irmãos (também génios) de Ender, ganham grande protagonismo, e onde aparece uma das maiores genialidades do autor: a invenção das redes sociais (num livro lançado em 1985 onde quase não existiam computadores, muito menos internet).

Infelizmente, outro ponto muito pouco presente neste filme é o jogo mental (onde o gigante aparece com o seu desafio). No livro este é o refúgio de Ender e o jogo ganha uma importância impossível de omitir, principalmente no fim. No entanto, novamente por questões de tempo, no filme ficamos perante um desafio demasiado fácil para Ender, e tal não acontece no livro, e quem o ler, perceberá que a diferença é significativa para todo o filme, principalmente na forma como Ender enfrenta o desafio do gigante e da cobra. Aconselho-vos a ler o livro e a pensar sobre as mensagens escondidas neste aspeto.

enders-game-movie

Existem ainda muitas outras diferenças mas sem grande relevância, como por exemplo a raça invasora se chamar Formics no filme e Buggers no livro, a relação entre Ender e algumas personagens, como Bonzo, Bernard ou Bean, que estão um pouco alteradas, ou o facto de no livro Ender ser loiro ou o Major Anderson ser um homem de pele bastante clara. No entanto nada disto causa diferenças significativas entre as obras.

O facto de os irmãos de Ender quase não aparecerem é compreensível, mas perde-se uma forte noção do que se passa fora da Escola de Treino. A narrativa está cortada, fica muito para se ler e descobrir. No livro o autor, novamente genial, dá-nos vários conceitos sobre gravidade, como viver sem ela e como nos deslocarmos. Oferece ainda várias explicações sobre tecnologia presente no livro, como por exemplo o ansible, que no filme passa ao lado de uma explicação, sendo necessário alterar muita coisa mais à frente.

Para finalizar, temos o final, o grande momento do livro e que perde fulgor no filme devido a vários aspetos, como o notório apressar do ritmo do filme, o facto de o ansible não ser explicado e, claro, o conhecimento que no livro temos sobre os Formics faz a diferença no último momento. para além disso, existe todo um peso na decisão final de Ender e que está omitida no filme. Tal fator era essencial para criar um final realmente portentosa e que não tem o mesmo impacto no filme.

enders-game ender

Para todos aqueles que leiam este texto pode ficar a ideia que o filme é mau. Na realidade não o é, mas está muito longe de uma obra tão genial e visionária como é este livro. Esta obra de Orson Scott Card merecia um filme que se tornasse num épico do fantástico como se conseguiu, por exemplo, com O Senhor dos Anéis, 2001: Odisseia no Espaço ou Blade Runner (título do livro: Do androids dream of electric sheep?”).

A obra prima de OSC é um verdadeiro épico que levanta várias questões, que explora a condição humana, a ganância, a ignorância/ingenuidade das massas e até onde nos pode levar o nosso medo e o nosso instinto de sobrevivência. O livro faz-nos perguntar sobre o poder das redes sociais (realmente impressionante ler este livro atualmente e ver como o autor adivinhou o poder das redes sociais) e a nossa incapacidade de falar com o próximo enquanto nos leva por uma viagem onde percebemos a facilidade que uma criança tem para passar do amor ao ódio (e vice-versa) durante a sua inocência.

 

Quer tenham visto, ou não, o filme, o livro de Orson Scott Card é obrigatório, mesmo para quem não aprecie o género, pois a realidade é que não estamos perante um livro de FC, mas perante um livro que explora vários temas, alguns muito atuais, que quebra as barreiras do género e sobre o qual todos os leitores devem pensar quando o acabarem de ler. A mensagem, cada um tirará a sua, mas é inevitável perceber que o autor nos tenta, constantemente, mostrar que sem diálogo não iremos ter um futuro risonho.

Obrigatório!

LP

 

 

Sobre Luis Pinto

Software developer - Autor do blog Ler y Criticar - Apaixonado por jogos desde o tempo do Spectrum!