Don Jon, em análise

Don Jon
  • Título Original: Don Jon
  • Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Scarlett Johansson, Julianne Moore
  • Género: Comédia, Romance
  • ZON Audiovisuais | 2013 | 90 min

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Pode ser demasiado redutor comparar um ser humano com um insignificante objeto, mas mesmo assim, não resistimos em dizer que Joseph Gordon-Levitt deverá ser uma espécie de canivete suíço. Daqueles que compramos para um propósito específico mas que, com o tempo, vai revelando todas as suas inúmeras funcionalidades.

O rapazito de “3.º Calhau a Contar do Sol” e “10 Things I Hate About You” está definitivamente crescido e é já um dos mais requisitados atores de Hollywood. A sua carreira demonstra o equilíbrio perfeito que faz entre participações em blockbusters (“A Origem”; “O Cavaleiro das Trevas Renasce”) e indies (“50/50”; “(500) Days of Summer”). Mas Gordon-Levitt é muito mais do que um dos mais promissores atores da sua geração. Agora, tal como o canivete suíço, demonstra todos os seus apetrechos.

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Requisita a mulher mais sexy do mundo e junta-lhe ainda uma das mais talentosas atrizes do século XXI. Protagoniza e escreve o argumento da sua estreia na realização e no fim, o resultado é muito mais do que satisfatório. Parece simples, mas só porque o versátil Joseph Gordon-Levitt assim o faz parecer.

Um pouco à semelhança do exagero patente em “Spring Breakers”, em “Don Jon” é criada uma trama que se ridiculariza na forma, sem nunca o fazer no conteúdo. De uma perspetiva obviamente inusitada, Joseph Gordon-Levitt (agora como argumentista) apresenta um Don Juan da era moderna que apesar de conquistar mulheres todas as semanas (o seu passatempo favorito é avaliá-las de 0 a 10), se vê viciado em pornografia. Jon (Joseph Gordon-Levitt, ator) está rodeado das coisas a que dá valor: a família, os amigos, a igreja, o corpo e claro, mulheres – é por isso que é tratado pelos amigos por Don Jon. Mas no caso de Jon, nada disto é mais importante do que a pornografia viciante que se torna sempre na sua experiência diária mais gratificante.

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Partindo deste ponto de vista, “Don Jon” envolve-se em exageros propositados que funcionam sempre como pertinentes críticas sociais. Reparamos rapidamente nessas referências ao modo de estar da sociedade porque estas ficam subtilmente inseridas na rotina diária de Jon: a sua irmã, até bem perto do fim, não diz uma única palavra, mantendo-se agarrada ao telemóvel; as relações sexuais que Jon mantém e os vídeos pornográficos que vê são pecados facilmente esquecidos com Avés Marias e Pais-Nossos na hora da confissão semanal; a tensão que Jon vive ao volante é replicada em gestos e palavras agressivas para com outros condutores; a sua mãe vive angustiada por ter estrutura física de “avó”, mas teme por ainda não ter netos; e até a pastilha elástica que a personagem de Scarlett Johansson vai mascando ao longo do filme serve como crítica à cultura da pastilha elástica – uma cultura plástica do experimentar e deitar fora.

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A vida de Jon muda quando conhece numa discoteca Barbara Sugarman (tão cliché e tão bem escolhido este nome para a personagem de Scarlett Johansson), uma mulher bem-sucedida, dotada de uma beleza ímpar e potencialmente capaz de fazer Jon esquecer a pornografia. As relações passageiras dão lugar a um namoro mais seguro e sexualmente controlado, mas tão hilariante de assistir do lado de fora. Quando Jon e Barbara vão ao cinema ver uma irreal história de amor (o típico enredo romântico que toda a gente “come” mas sabe que não é verosímil), Barbara fica deslumbrada com a ‘pureza’ do amor cinematográfico. Os cameos deliciosos de Anne Hathaway e Channing Tatum ajudam a criar uma das cenas que melhor ilustram o propósito de “Don Jon”: contar uma história de amor que usufrua dos clichés hollywoodescos mas que os usa como veículo para a sátira (seja da sociedade em geral, seja também dos estereótipos associados ao sexo masculino).

No fundo, para Jon, os seus filmes pornográficos são tão relevantes como os patéticos filmes que Barbara gosta de ver. E mesmo depois de ter encontrado Barbara, ‘coisa mais bonita que alguma vez viu’, o nosso Don Juan é incapaz de se ver livre do vício pela arte do porno. Porque para ele, o porno é diferente do sexo real. No sexo real não encontra a rapariga que lhe satisfaça os desejos sexuais mais profundos (Barbara ocupa a sua boca com a pastilha elástica… Jon tinha segundas intenções), e o porno – sempre de mãos dadas com os lenços de papel – é um exercício mais orgástico e até descartável. É na passagem onde Jon nos apresenta as diferenças entre estes dois tipos de apetites sexuais que nos desmanchamos no riso. Joseph Gordon-Levitt, para lá dos detalhes implícitos que já mencionámos, torna-se num entertainer de altíssimo gabarito.

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Mas tudo isto se passa até dois terços da duração do filme. Com a inevitável revelação da sua adoração do porno perante Barbara, Jon encontra apoio em Esther (Julianne Moore), uma mulher mais madura que vive as lacunas de um passado trágico. Nesse momento, “Don Jon” muda o seu tom drasticamente. Os risos param para darem lugar a situações mais dramáticas. O amor substitui o sexo, o sentimentalismo sobrepõe-se à pornografia.

A mudança é demasiado repentina e Gordon-Levitt, que tão bem criticara os clichés, agora rende-se a eles. O remate, ainda que bem executado do ponto de vista do trabalho de atores, não surpreende mais, deixando ficar no final uma mensagem previsível que já vimos em qualquer lado. Talvez seja um pormenor insignificante numa divertida e autêntica peça de entretenimento.

Já não tão passíveis de esquecimento estão as sucessivas repetições de conteúdo que apesar de oferecerem alguns gags interessantes, pouco ou nada acrescentam ao crescimento do enredo.

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O que mais sobressai, para além de um argumento vasto, são mesmo os desempenhos do trio de protagonistas. Joseph Gordon-Levitt é credível como um Don Juan pecador, mas sempre preocupado em remediar imediatamente os seus erros. É divertido, espontâneo, surpreendente. Ao seu lado tem Scarlett Johansson num papel que parece um cartoon das suas personagens nos filmes de Woody Allen: voluptuosa (o guarda-roupa ajuda muito neste pormenor), sensual nos movimentos e adocicada na voz. Johansson prova aqui que se dá sempre melhor quando faz de ela mesma (e que isso nem sempre é forçosamente mau, como aqui acontece). Ainda há espaço para a experiente Julianne Moore que vem dar consistência emocional ao lado mais dramático que se verifica no fim.

Para uma primeira incursão na realização, Joseph Gordon-Levitt faz mais do que aquilo que lhe era exigido. “Don Jon” é uma estreia auspiciosa atrás das câmaras que pretende cortar com o passado na forma como se concebem as comédias românticas. Divertido, profundamente original, sincero nos variadíssimos comentários sociais e sensual e provocador na forma como apresenta o vício da pornografia, “Don Jon” prova que o nosso ‘canivete suíço’ tem mais talento do que aquilo que imaginávamos.

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Sobre Daniel Rodrigues