10 características inconfundíveis de um filme de Wes Anderson

Wes Anderson celebrou no início deste mês o seu 47º aniversário, e por ocasião da celebração da vida e arte de um dos nossos realizadores contemporâneos favoritos, entramos no navio mágico para velejar entre as dez características que tornam um filme de Wes Anderson… num filme de Wes Anderson.

 

Simetria

A simetria é um dos mais reconhecíveis e reconhecidos apanágios da estética de Wes Anderson, mas o seu escrupuloso posicionamento de personagens, edifícios ou panos de fundo nada tem de inconsequente. De facto, esta natureza firmemente simétrica e geométrica dos seus planos é bastante propícia à evocação do humor inexpressivo (deadpan, como é chamado usualmente). Curiosamente, o realizador já confessou várias vezes que se não tivesse sucesso na carreira cinematográfica teria optado por uma carreira na arquitetura, o que, com o seu profundo afeto à retidão das linhas direitas e dos espaços centrados, é totalmente compreensível.

 

 

Paleta de Cores

Uma das mais visíveis e distintivas características estéticas do Cinema de Wes Anderson são as suas meticulosamente controladas paletas e esquemas de cores, que demonstram uma profunda reverência pelos tons saturados e pastel. Com o monopólio absoluto da cor na sua obra, Anderson imprime-lhe um riquíssimo significado nas entrelinhas, mudando assim a forma como interpretamos os seus mundos. Torna-se assim totalmente compreensível a adoração que tantos designers nutrem pelas suas criações.

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Bill Murray… e atores recorrentes

Se Bill Murray fosse nosso amigo também o colocávamos em todos os nossos filmes, snapchats e vídeos familiares com gatinhos – é isso que faz Wes Anderson, mas ao artisticamente respeitado nível da sua filmografia. Murray participou em todas as suas longas-metragens à exceção da primeira (Bottle Rocket), mas não é ele o único colaborador recorrente do realizador americano: Owen e Luke Wilson, Jason Schwartzman, Willem Dafoe e Adrien Brody fazem também parte da sua cada vez mais longa e deleitosa lista de repetentes.

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Tracking Shots

O perfecionismo técnico e artístico que Wes Anderson imprime a cada um dos seus filmes é inacreditavelmente minucioso, e não há nada como um delicioso tracking shot (ou travelling) para  deslizar de cenário em cenário e mostrar o que de melhor o realizador tem para oferecer. Com a câmara fixada e estabilizada esta é movimentada sobre trilhos por um ou vários espaços com o principal objetivo de descrever um ambiente ou um personagem.

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Diálogo peculiar

Nos filmes de Wes Anderson ninguém fala de uma forma normal, natural ou organicamente aceitável, e isso é ótimo. A teatralidade dos seus enredos e personagens tatua igualmente os seus diálogos que tantas vezes convém uma espécie de humor inexpressivo que se manifesta com uma enorme subtileza emocional. Situações ridículas são apresentadas como normais, e promove-se a inversão de linhas de diálogo divertidas ditas sem qualquer expressão com porções de diálogo sério exposto de forma ridícula.

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Tipografia

Confesso apaixonado pela fonte Futura (que utilizou para honrar a sua paixão pelos filmes italianos antigos), Anderson atribui um papel de extrema importância à tipografia e às passagens de texto nas suas produções, particularmente, e além da utilização óbvia em créditos e títulos, em transições – muitas vezes efetuadas com texto enquadrado em adereços, livros, locais, cartas, edifícios, entre outros.

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Temas recorrentes

Acima do seu estilo, técnica ou repetição de atores, é a ternura de Wes Anderson pelas histórias que tem para contar que mais nos atrai para a sua obra. Chefes entre os seus grandes temas são a família na sua maior glória disfuncional e o amor e as suas aventuras e desventuras de perda e descoberta. O final, mais ou menos resoluto, traz sempre um calor de esperança aparente para os seus aventureiros personagens.

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Direção Artística

Percorrer o set de um filme de Wes Anderson é entrar virtualmente num novo mundo que não o nosso e estar um passo mais perto das inocentes fantasias que habitam a genial mente do realizador americano. De facto, a direção artística, guarda-roupa e design de produção dos seus filmes é, em si mesma, uma arte – meticulosamente construída, sem que um único recanto fique entregue ao acaso. Este traço foi, desde o início, particularmente distintivo na filmografia de Anderson, mas tem-se tornado cada vez mais carregado nas produções recentes como Moonrise Kingdom e Grand Budapest Hotel que tiveram enormes sets fictícios construídos de propósito para acompanhar as gravações.

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Nostalgia

Wes Anderson é apaixonado pelo passado e pela romantização de eras sociais e culturais que já não existem, e essa idealização nostálgica é, não só transportada para a estética (visual, musical e textual) das suas obras mas também para os seus protagonistas, que têm tantas inclinações anacrónicas quanto o próprio realizador. Consequentemente, cada um dos seus filmes é um puro e inocente regresso à saudade de um lugar, uma pessoa, um sentimento, uma arte que já não lá está – ou provavelmente até nunca esteve – mas que carrega consigo o melancólico charme de outros tempos.

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Paixão pela Arte

Não é apenas pelos signos que utiliza que Wes Anderson explicita a sua paixão pelas Artes na sua própria obra. De facto, o realizador faz repetidas referências a literatura, quadros, fotografia e música que lhe divertidamente lhe conferiram o estatuto de hipster – mesmo antes desta designação existir.

 

 

Catarina Oliveira

Licenciada em Ciências da Comunicação e com formação complementar em Design Gráfico, além de editora e diretora criativa da MHD é também uma das sócias fundadoras da mais recente face da empresa. Colaboradora de Cinema na Vogue Portugal. Gestora de conteúdo na Lava Surf Culture e NOS Empresas - Criar uma Empresa. Autora do blog de Cinema Close-Up.

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