10 Momentos mais Estranhos de Twin Peaks

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Passaram-se mais de duas décadas e a série que mudou a televisão para sempre está de regresso para (continuar a) fazer história. Em preparação para o grande reencontro, recordamos os 10 momentos mais estranhos, memoráveis e surreais de Twin Peaks.

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Nasceu como uma espécie de novela satirizada, mas desde o episódio piloto Twin Peaks galvanizou as infinitas possibilidades (até então desconhecidas) para o meio televisivo. Subitamente, um mistério, um thriller sobrenatural e um clássico de culto instantâneo esquivo às categorizações clássicas dominava as atenções do mundo que se descabelava para desvendar o enigma de quem teria morto Laura Palmer.

Mais de duas décadas depois, David Lynch e Mark Frost fazem regressar o clássico numa nova temporada, mais livre, mais surreal do que nunca, que passará nas televisões portuguesas no Canal Tv Séries todos os domingos, pelas 22:00. Em preparação para o grande momento, a MHD recorda alguns dos momentos mais estranhos, memoráveis e surreais das duas temporadas originais de Twin Peaks.

Let’s Rock!

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Cooper e o Llama

Episódio: Temporada 1, Episódio 5 (também conhecido por “The One-Armed Man“)

Descrição do Momento: O Agente Especial Dale Cooper e o Xerife Harry Truman visitam a clínica Veterinária de Lydecker em busca de uma pista sobre Philip Michael Gerard. Enquanto discutem o assunto na sala de espera, uma mulher passa entre eles acompanhada de um Llama que para e olha Cooper nos olhos durante um momento para depois prosseguir o seu caminho.

Por que razão é “damn fine & weird”: É possivelmente uma das questões mais colocadas sobre Twin Peaks e graças a um QA de Kyle MacLachlan no Twitter, tivemos finalmente a nossa resposta: sim, a cena do Llama não estava escrita no argumento e não foi mais do que um feliz acidente. Esta cena é um daqueles momentos hilariantes que caracterizam e epitomizam tudo o que Twin Peaks é – uma amálgama de acontecimentos estranhos que, em parte, até podiam acontecer no mundo real mas simplesmente nunca acontecem. MacLachlan e Michael Ontkean fazem os possíveis por manter uma cara séria e não arruinar a cena, mas se prestarmos atenção redobrada podemos ver que a rececionista no plano de trás não consegue a mesma proeza. Esta cena é a prova resoluta de que um acidente feliz (e a capacidade dos atores de suportarem a reação ao inesperado) pode tornar uma cena normal num momento absolutamente memorável.


A sanduíche do Jerry

Episódio: Temporada 1, Episódio 3 (também conhecido por “Zen, or the Skill to Catch a Killer“)

Descrição do Momento: A família Horne está a jantar quando é interrompida pelo irmão de Ben, Jerry, acabado de chegar de Paris que apresenta entusiasticamente a sua recente paixão assolapada por baguetes recheadas de manteiga e queijo brie.

Por que razão é “damn fine & weird”: É tremendamente fácil descartar esta estranhíssima interação entre os irmãos Horne como uma cena inocente, senseless ou até como um mítico “encher chouriços”, mas a verdade é que o hilariante absurdo dos dois personagens a darem em loucos por causa de uma sanduíche esconde muito mais subtexto do que podemos imaginar à vista desarmada. De facto, esta é a primeira vez que conhecemos Jerry Horne, e esta é uma cena perfeita para caracterizar o seu personagem em toda a sua excentricidade, obsessão com produtos de qualidade e completa desconsideração para com o cenário sereno familiar de Ben. A cena é também um excelente enquadramento da louca mas dedicada relação entre Ben e Jerry, que faz um contraste gritante com as suas outras relações familiares (com esposa e filhos) e que insinua ainda algum teor sexual e transgressor quando Ben se refere à memória de duas mulheres à beira do rio – uma possível referência ao bordel One Eyed Jack’s.


A canção de James, Donna e Maddy

Episódio: Temporada 2, Episódio 3 (também conhecido por “The Man Behind the Glass“)

Descrição do Momento: James Hurley, Donna Hayward e Maddy Ferguson juntam-se para cantar uma canção – “Just You”.

Por que razão é “damn fine & weird”: Não há grande volta a dar: James Hurley é um dos personagens mais aborrecidos de Twin Peaks, talvez pela fatalidade de estar (quase) sempre envolvido nos seus subplots mais fastidiosos. No entanto, o quebra-corações de Twin Peaks protagoniza um momento inesquecível ao lado de Donna e Maddy quando juntos resolvem interpretar a canção que foi alvo das reações mais díspares na história da série. Se por um lado há quem a considere um puro espécime despoletador de vergonha alheia, outros há que consideram esta cena um ímpar retrato da adolescência do trio, enquanto estabelece claramente o tipo de relações entre os intervenientes: a indecisão nas paixonetas de James, o desejo no olhar de Maddy e o verdadeiro amor sentido apenas por Donna. É difícil ultrapassar a estranheza do falsete duvidoso de James, mas nada suplanta a delícia do choque de sentimentos e perceções que Lynch cria quando, contrasta uma cena melosa e palerma mas intensa e sincera com a reintrodução à fantasmagórica presença de Bob que paira sobre todos.

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O (pouco) fabuloso destino de Josie

Episódio: Temporada 2, Episódio 4 (também conhecido por “The Condemned Woman“)

Descrição do Momento: O agente Cooper vai até ao quarto de Josie e Andrew Packard e ouve uma discussão seguida de um tiro. Quando deita a porta abaixo, descobre ambos na cama e Andrew morre. Josie aponta a arma a Cooper enquanto o agente faz o mesmo. O Xerife Truman chega e implora-lhe que baixe a arma. Josie contorce-se e desmaia. Truman corre para ela e vê que está morta. Coop tem uma visão de Bob e do Man from Another Place antes de ver a cara de Josie em agonia na maçaneta da gaveta da mesa de cabeceira.

Por que razão é “damn fine & weird”: Depois da resolução do caso de Laura Palmer e da morte do pai Leland Palmer, é justo dizer que Twin Peaks andou à deriva até praticamente o fecho da sua segunda (e até então) última temporada, no entanto, havia alguns destinos por resolver na (já não tão) pacata cidade que conquistou Dale Cooper, incluindo o de Josie Packard e o seu complicado historial criminoso. A par de James Hurley, Josie era facilmente uma das habitantes menos interessantes de Twin Peaks, e por mais subenredos e histórias mirabolantes em que a tentassem envolver – recordemos que era simultaneamente uma empresária de sucesso, uma viúva, o interesse amoroso do Xerife, uma antiga prostituta e uma assassina – a personagem nunca conseguiu “colar” com a audiência. O seu único momento de redenção surgiu, surpreendentemente, no leito da sua morte completamente louca e desconcertante. Se quisermos ir ao fundo da interpretação deste peculiar óbito, podemos considerar que Josie ficou presa num limbo entre o Great Northern, o White Lodge e o Black Lodge – sendo que o medo (de ver a verdade descoberta, dos homens na sua vida) abre o Black Lodge e o amor (que sente por Harry) abre o White Lodge mas a sua “face” ficou aprisionada noGreat Northern. Como pistas adicionais deste destino dividido temos os murmúrios de Pete Martell na lareira da entrada do Great Northern dizendo “Josie, consigo ver a tua cara” e a confirmação de Frank Silva (que interpreta BOB) numa convenção de Twin Peaks em 1993 de que Bob levou Josie para o Black Lodge. Ou, alternativamente, este é simplesmente um daqueles mistérios excêntricos que nunca terão resposta certa.


A Guerra Civil de Ben

Episódio: Temporada 2, Episódios 20, 21 e 22 (também conhecidos por “Checkmate“,”Double Play” e”Slaves and Masters“)

Descrição do Momento: Depois de perder o projeto Ghostwood e de ter sido preso (ainda que fosse inocente), Ben Horne sucumbe temporariamente à loucura entrando numa fantasia onde encena a Guerra Civil Norte-Americana. Eventualmente, Jerry, Audrey e o Dr Jacoby juntam-se à encenação para ajudar Ben a regressar à sanidade, algo que só é conseguido depois da (historicamente imprecisa) vitória do Sul.

Por que razão é “damn fine & weird”: A queda temporária na loucura de Benjamin Horne é um dos momentos mais emblemáticos da segunda temporada de Twin Peaks, ainda que nem todos os fãs concordem no que respeita à sua qualidade ou relevância para o enredo. O excêntrico proprietário do Great Northern Hotel atravessa uma fantasia introspetiva que o fará ressurgir como um homem “novo” – dependendo dos pontos de vista, é claro. Ainda que este subenredo faça parte de alguns dos piores episódios de Twin Peaks, não podemos negar que é uma reviravolta inesperada e adequadamente estrambólica no arco narrativo de uma das personagens mais carismáticas da série.


A visão de Sarah Palmer

Episódio: Temporada 1, Episódio 2 (também conhecido por “Traces to Nowhere“)

Descrição do Momento: Durante uma visita de Donna Hayward, Sarah Palmer tem uma visão desconcertante de Bob perto da cama de Laura e entra em pânico.

Por que razão é “damn fine & weird”: O piloto de Twin Peaks é manifestamente penetrante e regularmente sinistro, mas desenrola-se maioritariamente no reino da “normalidade”, ainda que haja alguns escassos vislumbres dos elementos sobrenaturais que estão para surgir na série. Um deles está precisamente na última cena, onde Sarah Palmer tem uma visão perturbadora das florestas de Twin Peaks à noite e temos o primeiro contacto com BOB. No entanto, o verdadeiro epicentro das visões de Sarah só surge no episódio seguinte, onde a mãe de Laura Palmer tem pela primeira vez um vislumbre claro da face do homem responsável pela morte da filha. É, essencialmente, um homem (mal) escondido atrás de uma cama, mas ainda assim é uma visão perfeitamente escabrosa e assustadora até ao dia de hoje – um testamento à capacidade de David Lynch de criar medo a partir das situações mais insólitas.

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Creme de Milho

Episódio: Temporada 2, Episódio 2 (também conhecido por “Coma“)

Descrição do Momento: Depois de Donna assumir o papel de Laura Palmer na rota solidária da Meals on Wheels, encontra-se com uma idosa e o seu jovem neto e tem uma peculiar interação com ambos em torno de… Creme de Milho.

Por que razão é “damn fine & weird”: Twin Peaks é uma série pejada de momentos e cenas estranhas, por vezes à primeira vista incompreensíveis. A sequência entre Donna e a senhora Tremond e o seu neto é definitivamente uma delas já que, no momento da sua exibição, tinha ainda pouco contexto para ser enquadrada. Com o avanço da série e o subsequente lançamento do filme Twin Peaks: Os Últimos Sete Dias de Laura Palmer (1992) ficamos a saber que a Garmonbozia (que significa dor e sofrimento) é uma substância sobrenatural que alimenta os espíritos do Black Lodge e que toma a forma física de Creme de Milho. Uma explicação inquietante para uma introdução particularmente bizarra.


A sequência de sonho no Quarto Vermelho

Episódio: Temporada 1, Episódio 3 (também conhecido por “Zen, or the Skill to Catch a Killer“)

Descrição do Momento: Cooper adormece no seu quarto no Great Northern e começa a sonhar com um homem de um só braço que recita um poema sinistro. BOB aparece e confirma que matará de novo. Num segundo momento, Cooper vê-se numa sala vermelha e conversa com um anão vestido de vermelho que diz ser primo de Laura Palmer, que também está presente na sala. Laura sussurra algo inaudível ao ouvido de Cooper enquanto o anão sai a dançar pela sala.

Por que razão é “damn fine & weird”: É uma das cenas mais absurdas, simbólicas e emblemáticas de Twin Peaks. Até aqui, a série poderia muito bem passar como um geralmente normal mistério de homicídio, mas subitamente, eis um setting surrealista, um anão dançante com uma espécie de linguagem invertida e a falecida Laura Palmer: tentem imaginar como terá sido ver esta sequência de sonho pela primeira vez, ainda sem qualquer contexto do universo de David Lynch e Mark Frost… Captando na perfeição a lógica e imaginário do sonho, Lynch desvenda algumas pistas crípticas naquela que é democraticamente uma das cenas mais inesquecíveis da história das séries televisivas.

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A Senhora do Tronco

Episódio: Presença recorrente em vários episódios da 1ª e 2ª Temporada

Descrição do Momento: Essencialmente, todas as deliciosas interações que tem com qualquer um dos outros personagens

Por que razão é “damn fine & weird”: Sabemos o que estás a pensar: é uma personagem, não é um momento ou uma cena… mas a verdade é que todas as aparições da Senhora do Tronco são tão memoráveis que é impossível escolher apenas uma e decidimos guardar este espaço para celebrar uma das mais excêntricas, originais e adoradas personagens de Twin Peaks. Para esta ocasião especial escolhemos a sua primeira interação com o Agente Cooper no RR, uma irresistível introdução a uma personagem que, numa cidade de gloriosa bizarria, eleva a estranheza a um novo e inacreditável nível.

 


As visitas a Cooper

Episódio: Temporada 2, Episódio 1 (também conhecido por “May the Giant Be with You“)

Descrição do Momento: Depois de ter sido baleado no final da primeira temporada, o Agente Dale Cooper está no chão do seu quarto quando um empregado do Grand Northern Hotel chega com o seu pedido de um copo de leite. Segue-se uma interação bizarra antes aparecer um gigante que oferece três pistas crípticas a Cooper, em relação ao mistério da morte de Laura Palmer.

Por que razão é “damn fine & weird”: A primeira temporada de Twin Peaks tem a sua dose saudável de momentos bizarros e surreais, mas é incapaz de bater os pontos de loucura que se instalaram na segunda temporada – para os melhores e piores episódios. Assim foi desde o arranque: o primeiro episódio é marcado por um dos momentos mais hilariantes, anticlimáticos e estranhos da saga quando o agente Cooper, logo depois de ser alvo de vários tiros à queima-roupa, recebe no quarto aquele que é possivelmente o pior empregado de hotel no mundo e que acha que nada de estranho se passa com o agente, pedindo-lhe inclusivamente, a fatura decorrente do serviço prestado enquanto este continua deitado no chão com uma enorme mancha de sangue à sua volta. Vale a pena dizer que, após o cliffhanger da primeira temporada, esta é literalmente a primeira cena a que assistimos, e David Lynch deleita-se a si próprio (e aos verdadeiros fãs de Twin peaks) no facto de perder cinco minutos seguindo o empregado velhote numa das cenas mais nonsense de toda a série. Este acontecimento bastaria para a cena entrar na nossa lista, mas logo depois segue-se mais um dos momentos inesquecíveis e surreais da série, onde Cooper recebe a primeira visita do Gigante.

 


Resolver crimes à maneira do Tibete

Episódio: Temporada 1, Episódio 3 (também conhecido por “Zen, or the Skill to Catch a Killer“)

Descrição do Momento: Com a ajuda de Andy, Hawk, Lucy e do Xerife Truman, o agente Cooper usa uma estranha técnica de dedução para tentar identificar um dos possíveis envolvidos no homicídio de Laura Palmer.

Por que razão é “damn fine & weird”: Como já pudeste reparar por esta lista, o 3º episódio da 1ª temporada de Twin Peaks é inequivocamente um dos grandes símbolos da série e evidentemente também um dos melhores. Além da sanduíche de Jerry e do Sonho de Cooper, incluiu ainda esta sequência bizarra que demonstra os métodos pouco ortodoxos do nosso protagonista de resolver os seus casos. É Twin Peaks quintessencial: divertida, estranha, surpreendente, e puro deleite a contrapor com as temáticas mais negras da série. Da mesma forma, é uma cena memorável que marca encontro com o hoje bem conhecido entusiasmo, excentricidade e espiritualidade do Agente Cooper.

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