Do exorcismo à motosserra, dos pesadelos de Kubrick às bruxas da Disney, eis 13 clássicos para celebrar a noite mais assustadora do ano. Uma selecção de cinema de terror, suspense e humor negro, com monstros de todas as espécies, incluindo alguns que até podiam ser os nossos vizinhos do lado. E, convenhamos, os fantasmas continuam a ser bastante mais simpáticos do que certas pessoas da família vivas.
O Halloween aproxima-se e, uma vez por ano, os portugueses descobrem que afinal gostam de importar tradições americanas, sobretudo quando envolvem álcool, máscaras, abóboras, sangue falso e a possibilidade de assustar crianças e acordar velhinhos sem consequências judiciais. A noite de 31 de Outubro tornou-se uma espécie de Carnaval antecipado, mas com menos samba, mais mortos-vivos e uma quantidade preocupante de adultos vestidos de assassinos em série, embora, na verdade, já estejam todos a pensar nos dias de descanso do Natal. Nada contra. Entre as tradições que importámos, esta até parece relativamente inofensiva. Pelo menos, comparada com a Black Friday, que também anda por esta altura e consegue transformar pessoas perfeitamente normais em psicopatas saídos de um filme de terror, tudo por causa de uma televisão com 30% de desconto.
Mas o Halloween também serve para uma coisa bastante mais interessante: recuperar alguns dos melhores filmes de terror da história do cinema. Aqueles que nos fizeram dormir com a luz acesa, evitar banheiras, desconfiar de televisores desligados e olhar para o vizinho do terceiro esquerdo como possível protagonista de um filme de Wes Craven. E, já agora, demonstrar que o medo pode ser uma extraordinária forma de entretenimento, desde que permaneça do outro lado do ecrã.
Escolhi 13 filmes, naturalmente. Seria uma falta de respeito pelo género escolher 12 ou 14. O número 13 tem um significado especial nestas matérias e não vale a pena contrariar a superstição. Não é uma classificação científica, muito menos consensual. Misturei obras-primas indiscutíveis, clássicos populares, algumas deliciosas imbecilidades e comédias macabras que continuam a fazer-nos rir. Afinal, nem todos os monstros precisam de arrancar cabeças, transformar-se em zombies ou parecer extraterrestres com aspecto de polvo. Alguns limitam-se a aparecer ao jantar.
O Diabo, os fantasmas e os perigos da vida familiar

Comecemos por “O Exorcista” (1973), de William Friedkin, provavelmente o único filme da história capaz de fazer disparar as vendas de crucifixos e medicamentos para o estômago ao mesmo tempo. Linda Blair interpreta Regan, uma adolescente possuída por um demónio com péssimos modos, um vocabulário absolutamente incompatível com a educação católica e uma capacidade extraordinária para rodar a cabeça. A mãe, interpretada por Ellen Burstyn, procura ajuda médica, psiquiátrica e religiosa, numa sequência de acontecimentos que termina com dois padres a tentar resolver aquilo que hoje provavelmente seria discutido primeiro num grupo de WhatsApp. O filme continua aterrador, não tanto pelos vómitos verdes ou pelos efeitos especiais, mas pela forma como transforma o quotidiano familiar numa manifestação do Mal absoluto. E porque Friedkin percebeu uma coisa fundamental: o Diabo é muito mais convincente quando aparece numa casa de família americana do que num castelo gótico. Para rever, de preferência, antes de jantar. Disponível para aluguer ou compra no Prime Video.
Em “Poltergeist” (1982), realizado por Tobe Hooper e produzido por Steven Spielberg, descobrimos que comprar uma moradia num bairro residencial americano pode revelar-se uma experiência ainda mais desagradável do que adquirir um apartamento em Lisboa pelo preço de um palácio em Versalhes. Uma família instala-se numa casa aparentemente perfeita, até perceber que os antigos habitantes não chegaram propriamente a sair. Estão mortos, enterrados e muito pouco satisfeitos com as obras de urbanização. A pequena Carol Anne desaparece misteriosamente através do televisor e os pais descobrem que a assistência técnica não resolve todos os problemas. “Poltergeist” continua a ser um dos mais deliciosos filmes sobre o terror doméstico: cadeiras que se movem, árvores assassinas, palhaços sinistros e um aparelho de televisão que funciona melhor como portal sobrenatural do que algumas plataformas de streaming. Depois de o verem, talvez comecem a desconfiar das casas demasiado baratas. Para alugar na Apple TV Store ou na Rakuten TV.
E chegamos a “Shining” (1980), de Stanley Kubrick, uma obra-prima sobre os perigos de passar demasiado tempo fechado com a família. Jack Nicholson interpreta Jack Torrance, um escritor que aceita trabalhar como vigilante de um hotel isolado durante o Inverno. Excelente oportunidade, pensa ele, para finalmente escrever o seu romance. Péssima ideia, percebe a mulher, interpretada por Shelley Duvall, quando descobre que o marido prefere conversar com fantasmas a cumprir os deveres conjugais. O Hotel Overlook transforma-se num labirinto de violência, repressão e loucura, enquanto Nicholson vai perdendo progressivamente a compostura e aquilo que lhe restava de cabelo penteado. A célebre sequência da porta destruída à machadada continua exemplar. E Kubrick consegue o impossível: fazer-nos ter mais medo de um homem a escrever à máquina do que de um exército de zombies. Stephen King, autor do romance original, nunca apreciou particularmente esta adaptação. Felizmente, Kubrick também não parecia muito preocupado com a opinião dos outros, muito menos de King. Disponível na Netflix e na HBO Max, além de opções de aluguer digital.
Assassinos profissionais, adolescentes incompetentes e outras desgraças
Mudemos de categoria. Sai o sobrenatural, entram os psicopatas. Em “Massacre no Texas” (1974), Tobe Hooper demonstra que umas férias pelo interior dos Estados Unidos podem acabar bastante pior do que uma viagem organizada por uma agência particularmente incompetente. Um grupo de jovens encontra uma família de canibais com hábitos alimentares pouco recomendáveis e um membro especialmente entusiasta das motosserras: Leatherface. O filme é sujo, claustrofóbico, brutal e extraordinariamente eficaz, apesar de mostrar muito menos violência explícita do que a memória colectiva costuma sugerir. A imaginação dos espectadores faz grande parte do trabalho, confirmando que Hooper conhecia perfeitamente os mecanismos do medo. A famosa motosserra, aliás, dispensou qualquer publicidade adicional à Black & Decker. Continua a ser uma obra fundamental e uma excelente razão para nunca aceitar convites de desconhecidos para jantar no Texas. A versão de 1974 não tem, actualmente, disponibilidade digital confirmada em Portugal. Podem experimentar procurar no YouTube, embora isso não garanta encontrar uma cópia legal e integral.
Em “Sexta-Feira 13” (1980), Sean S. Cunningham leva-nos até ao campo de férias de Crystal Lake, onde um grupo de adolescentes demonstra uma extraordinária incapacidade para compreender sinais de perigo. O acampamento tem uma história de assassinatos, acontecimentos inexplicáveis e uma reputação desastrosa, mas isso não impede ninguém de voltar a abrir as instalações. Afinal, a indústria turística tem de funcionar. Um a um, os monitores desaparecem, geralmente depois de cometerem o erro fatal de se afastar do grupo ou iniciar uma actividade sexual. O filme deu origem a uma das mais rentáveis sagas de terror e à popularidade de Jason Voorhees, embora o assassino do primeiro filme não seja aquele que muitos espectadores imaginam. Uma lição importante: nunca confiar num campo de férias que parece ter sido recomendado pelo departamento de marketing de uma funerária. A disponibilidade da versão original de 1980 em Portugal não está confirmada; algumas sequelas encontram-se na HBO Max.
Já “Pesadelo em Elm Street” (1984), de Wes Craven, resolveu um problema que ninguém sabia ter: como tornar o acto de dormir numa actividade de alto risco. Freddy Krueger, interpretado por Robert Englund, aparece nos sonhos dos adolescentes para os assassinar com uma luva equipada com lâminas metálicas. Convenhamos que não é propriamente o candidato ideal para apresentar um programa nocturno de meditação transcendental. Craven transforma o sono num território de ameaça permanente, mistura realidade e pesadelo e oferece-nos um assassino com um sentido de humor tão perverso como eficaz. Freddy foi-se tornando progressivamente mais cómico nas sequelas, até parecer um apresentador televisivo particularmente maldisposto. Mas o original mantém intacta a sua capacidade de nos perturbar. Johnny Depp faz aqui uma das suas primeiras aparições cinematográficas e descobre, da pior maneira, que adormecer pode ser fatal. Disponível para aluguer ou compra no Prime Video.
E, para terminar esta pequena reunião de assassinos, claro que temos “Scream – Gritos” (1996), novamente de Wes Craven, que conseguiu reinventar o cinema de terror enquanto se divertia a desmontar todas as suas regras. Ghostface telefona às vítimas, faz perguntas sobre filmes de terror e depois persegue-as com uma faca, numa espécie de concurso televisivo em que perder significa morrer. Neve Campbell interpreta Sidney Prescott, uma adolescente com uma vida sentimental complicada e uma taxa de sobrevivência superior à média do género. O argumento de Kevin Williamson é inteligente, irónico e cheio de referências cinéfilas, demonstrando que o terror também pode rir de si próprio sem perder eficácia. “Scream – Gritos” é uma deliciosa sátira ao cinema slasher e talvez o único filme em que conhecer a história do género pode aumentar as probabilidades de sobrevivência. Quanto à versão de 1996, não foi possível confirmar uma plataforma portuguesa onde possam vê-la na noite de Halloween, mas fica a referência. Afinal, nem todos os crimes se resolvem com uma pesquisa na Internet.
Monstros de outros mundos e pequenas criaturas com muito mau feitio
Em “Alien – O 8.º Passageiro” (1979), Ridley Scott decidiu provar que o espaço não era apenas um lugar para aventuras heróicas, naves luminosas e princesas intergalácticas. Também podia ser um pesadelo industrial, húmido, escuro e habitado por uma criatura com hábitos reprodutivos pouco recomendáveis. A tripulação da Nostromo responde a um sinal misterioso e regressa à nave sem saber que traz consigo um passageiro clandestino, que transforma a viagem de regresso num verdadeiro inferno. Sigourney Weaver cria uma das personagens femininas mais extraordinárias do cinema, Ellen Ripley, enquanto o desenho da criatura, inspirado no universo de H. R. Giger e concretizado fisicamente com a contribuição de Carlo Rambaldi, continua a ser uma maravilha de imaginação biomecânica. A sequência do nascimento do alienígena permanece entre as mais perturbadoras da história do cinema. Um filme sobre o medo, a sobrevivência e as consequências desastrosas de não respeitar as normas de quarentena. O que, depois da pandemia, até ganhou um interesse suplementar. Disponível no Disney+.
Os monstros de “Gremlins” (1984), de Joe Dante, são bastante mais pequenos, embora não necessariamente mais simpáticos. Tudo começa com Gizmo, um adorável mogwai oferecido como presente de Natal, acompanhado por três regras fundamentais: evitar a luz intensa, não o molhar e nunca o alimentar depois da meia-noite. Naturalmente, todas serão desrespeitadas. O resultado é uma invasão de pequenas criaturas verdes, agressivas, destrutivas e aparentemente possuídas pelo espírito de um grupo de adeptos de futebol depois de uma derrota particularmente humilhante. “Gremlins” mistura comédia, terror e sátira ao consumismo americano, numa extraordinária demonstração do talento de Joe Dante para transformar a banalidade suburbana num caos absoluto. É também um filme de Natal que funciona perfeitamente no Halloween, provando que o calendário é uma convenção relativamente dispensável quando existem monstros a destruir electrodomésticos. Também não foi possível confirmar a disponibilidade actual de uma cópia para visionamento em Portugal.
Bruxas, mortos bem-dispostos e a família que ninguém convidaria para jantar

Depois de tanto sangue, convém desanuviar. “Três Bruxas Loucas” (1993), de Kenny Ortega, é uma comédia que o tempo transformou num dos rituais cinematográficos de Halloween mais populares. Bette Midler, Sarah Jessica Parker e Kathy Najimy interpretam as irmãs Sanderson, três bruxas ressuscitadas em Salem que regressam ao mundo moderno com a firme intenção de recuperar a juventude. O problema é que passaram demasiado tempo afastadas da civilização e descobrem uma sociedade onde os costumes mudaram consideravelmente. Entre vassouras, feitiços e adolescentes pouco colaborantes, a Disney construiu uma comédia familiar deliciosamente disparatada, com três actrizes que parecem divertir-se ainda mais do que os espectadores. Bette Midler, sobretudo, transforma cada aparição num pequeno espectáculo de histeria teatral. O original e a sequela de 2022 fazem parte do universo Disney+.
Tim Burton entra na festa com “Beetlejuice – Os Fantasmas Divertem-se” (1988), uma das suas mais extraordinárias comédias negras. Alec Baldwin e Geena Davis interpretam um casal de fantasmas que descobre, depois de morrer, que a vida após a morte também está cheia de problemas imobiliários. A casa onde habitavam foi ocupada por uma família insuportável e nem a condição de defuntos lhes garante o direito de expulsar os novos residentes. Contratam então Beetlejuice, interpretado por Michael Keaton, uma espécie de especialista em assombrações, burlas e comportamento socialmente inaceitável. O resultado é um festival de humor macabro, efeitos especiais maravilhosamente artesanais e imaginação visual, numa altura em que Burton ainda não parecia determinado a transformar todos os seus filmes numa exposição permanente de decoração gótica. Disponível para aluguer ou compra na Apple TV Store.
Em “O Estranho Mundo de Jack” (1993), realizado por Henry Selick a partir de uma história de Tim Burton, encontramos Jack Skellington, o rei da Cidade do Halloween, que atravessa uma profunda crise existencial. Está farto de assustar pessoas, cansado de repetir as mesmas tradições e decide apropriar-se do Natal. É provavelmente a primeira personagem da história do cinema a tentar mudar de profissão porque já não aguenta mais reuniões com monstros. A extraordinária animação em stop-motion, acompanhada pelas canções e músicas de Danny Elfman, transforma esta aventura numa fantasia musical sobre identidade, ambição e os perigos de tentar organizar festas para as quais não fomos convidados. É simultaneamente um filme de Halloween e de Natal, o que o torna particularmente rentável do ponto de vista do calendário doméstico. Disponível no Disney+, também para aluguer ou compra na Apple TV Store, Rakuten TV e Amazon Video.
Fechamos com “A Família Addams” (1991), de Barry Sonnenfeld, talvez a demonstração mais convincente de que a verdadeira normalidade é uma questão de perspectiva. Gomez, Morticia, Wednesday, Pugsley, Tio Fester e a restante família vivem numa mansão macabra, cultivam interesses pouco convencionais e apresentam uma relação com a morte consideravelmente mais descontraída do que a maioria das pessoas. Mas também são afectuosos, leais e extraordinariamente unidos. Anjelica Huston e Raúl Juliá formam um casal apaixonado, Christopher Lloyd diverte-se com o tio Fester e Christina Ricci transforma Wednesday numa das crianças mais deliciosamente sinistras da história do cinema. O filme é uma sátira brilhante à família americana tradicional, demonstrando que aqueles que parecem monstros podem afinal ser os únicos seres verdadeiramente civilizados. E, depois de observarmos algumas famílias normais, somos obrigados a reconhecer que os Addams até parecem bastante equilibrados. Disponível na SkyShowtime, também para aluguer no Prime Video.
O verdadeiro terror começa quando acaba o filme
Estão escolhidos os 13 filmes. Uns fizeram história, outros revolucionaram o género e alguns limitam-se a divertir-nos com uma eficácia que muitos títulos pretensamente sérios nunca conseguirão alcançar. Todos provam que o cinema de terror é bastante mais interessante do que a simples acumulação de cadáveres, sustos sonoros e adolescentes com dificuldades intelectuais evidentes. O melhor terror fala dos nossos medos, obsessões, angústias e contradições. Da família, da sexualidade, da religião, da morte, da solidão e da incapacidade humana para compreender aquilo que desconhece. E consegue fazê-lo recorrendo a um homem com uma motosserra, uma criança possuída, um extraterrestre com duas bocas ou uma família que decora a sala com instrumentos de tortura. Por isso, no próximo Halloween, dispensem por uma noite os concursos televisivos, as discussões políticas e os debates intermináveis sobre o preço das casas. Escolham um destes filmes, apaguem as luzes e preparem as pipocas. E se ouvirem um barulho estranho na cozinha, não se preocupem demasiado. Pode ser apenas o frigorífico. Ou o Freddy Krueger. Mas, conhecendo o estado actual do país, é mais provável que seja um fantasma ou um pesadelo do senhorio a anunciar uma actualização da renda.
JVM


