300: O Início De Um Império | Blu-ray Em Análise

 

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  • Título Original: 300: Rise Of An Empire
  • Realizador: Noam Murro
  • Elenco: Sullivan Stapleton, Eva Green, Lena Headey
  • Género: Ação, Drama, Fantasia, Guerra
  • NOS | Warner | 2014 | DTS-HD 7.1 | 2.40:1 | 102 min

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300: O Início de um Império, apesar de ter passado algo despercebido do público cinéfilo, é um dos grandes blockbusters deste primeiro trimestre do ano. Com o dobro do orçamento do filme de estreia, eleva ainda mais a fasquia de todos os “bells and whistles” que tornaram Leónidas e os seus trezentos soldados espartanos tão famosos. Isso equivale a dizer que teremos mais efeitos especiais, mais cenas de combate, mais storytelling, mais tudo…

E para congregar em torno desta ceia épica, a Warner Brothers oferece-nos uma versão blu-ray que respeita os seus pergaminhos visuais. Quer isto dizer que, a transição para vídeo – neste formato -, consegue proporcionar a mesma experiência visual alcançada na grande tela. Cores vivas e saturadas contrastam com jogos de luz e sombra que saltam para o ecrã televisivo como pinceladas de emoção. A coreografia das cenas de ação apresenta-se em todo o seu esplendor graças a um bit rate generoso em formato 2.40:1.

A sonoplastia, canalizada em Dolby DTS-HD 7.1 faz-se sentir imperialmente no canal auditivo com rugido e fervor. Os diálogos são límpidos e lúcidos e, as faixas editadas por Junkie XL, brilham ao sabor dos arrufos do momento entranhando-se na cabeça à medida que a tensão escala o próximo nível. Para uma análise mais pormenorizada da soundtrack, remetemos para o artigo do João Peste.

Em matéria de “goodies” estamos bem servidos com os habituais “making of” da praxe e uma série de contextualizações históricas. Confiram a lista em baixo!

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EXTRAS

  • 3 Dias No Inferno
    • Descubra como as histórias de 300 e 300: O Início de um Império, convergiram para criar “3 Dias No Inferno”.
  • Levar A Batalha Para O Mar
    • Encaminhar a máquina de guerra para um novo campo em “Levar A Batalha Para O Mar”.
  • Líderes, Lendas E Mulheres Guerreiras
    • Conheça os verdadeiros génios militares e as destemidas e vingativas rainhas que mudaram a história em “Líderes, Lendas E Mulheres Guerreiras”.


Disponivel em DVD e Blu-ray a partir de 25 de Junho.

 

 

“Better we show them, we chose to die on our feet, rather than live on our knees!”

 

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É com a promessa estóica digna de um verdadeiro guerreiro, que Temístocles (Sullivan Stapleton) – o herói ateniense de Maratona – moraliza as suas tropas com jantar marcado na taberna dos imortais. E se da primeira vez eram trezentos contra centenas de milhares, é seguro continuar a afirmar, que a união faz a força independentemente do valor numérico per capita do adversário. Mais sentido faz essa filosofia de vida, quando o destino de um soldado lhe é revelado naquele fotograma nirvânico de uma morte bela.

Mas, não se pense que só de golpes fatais e flechas quebradas se constrói um novo império. Já dizia António Gedeão que “sempre que um Homem sonha o Mundo pula e avança como uma bola colorida entre as mãos de uma criança”. De facto, para Xerxes (Rodrigo Santoro) invadir a Grécia seria como um capricho imaturo e infantil, sobretudo quando a força bruta é colocada ao serviço da tirania. E é no âmago deste espírito altruísta de dever e honra, que Noam Murro e Zack Snyder recusam entregar as armas tal como Leónidas no seu derradeiro suspiro vital: Molon labe (Vinde buscá-las).

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Aproveitando o trocadilho anterior, 300: O Início de um Império vai resgatar muita coisa ao baú de recordações da sua primeira iteração. Basta o Rei-Deus pavonear a sua sobranceria saturada de cores cintilantes e contrastes sombrios para reconhecermos a assinatura excêntrica e bizarra do seu criador. E enquanto o filme de 2007 atribuía a Xerxes um direito divino à nascensa, é na génese da sua ascenção ao Olimpo mundial, que reside a justificação artisticamente grotesca do simbolismo glorioso das Termópilas.

E tal como Paris cravou a sua revolta no calcanhar de Aquiles, Temístocles rubricou a sua ira no coração de Dário (pai de Xerxes). Previsivelmente, é na face salgada de Artemísia (Eva Green), que Xerxes vai aceitar a metamorfose da sua desumanização, partilhando o seu monstro vingativo com o olhar impiedoso da sua comandante naval. Mas, tal como recomenda a hierarquia do poder, o rei manda e os súbditos executam, reduzindo as aparições fugazes de sua majestade ao apadrinhamento da causa. Contudo, Santoro não deixa de impressionar pela sua envergadura titânica e discurso contundente, conferindo o louvor mitológico decorrente da obra de Frank Miller.

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Quando os trezentos espartanos deixaram de o ser e a Acrópole tombou nas bocas do inferno, Temístocles empurrou as tropas inimigas para as fortes correntes da baía de Salamina. Ali, os frágeis trirremes gregos agigantaram-se na vastidão da armada persa, enquanto Poseidon petiscava com o seu tridente a sobremesa sátrapa. É nessa imagem panorâmica de navios infinitos que vão ao encontro de uma pequena fação de protestantes, que 300: O Início de um Império eleva a escala da geostratégia militar relativamente ao seu antecessor.

Temístocles é o líder da rebelião grega, o último reduto de esperança para todos os filhos da Grécia. E mesmo que, Sullivan Stapleton, não possua o mesmo carisma arrebatador e presença vigorosa de um Gerard Butler, cumpre com pujança e competência o propósito de um herói que carrega um país às costas. As sandálias escorregam no sangue que jorra como um aguaceiro meteorológico, enquanto o balançar da espada arrepia caminho no adágio da obliteração. O impacto de cada músculo no limite da exaustão é sentido como se o nosso corpo reagisse pela vez de outrem, numa evidência demasiado cruel e visceral da condição humana, entendida agora como uma forma de arte.

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E por falar nessa valia cultural, certamente que Artemísia terá a sua forma artística de entender a guerra. Orfã em tenra idade, encontrou conforto na mão generosa de Dário, que a treinou para combater como um homem e defender-se como tal. Aliás, Eva Green bem poderia ter sido essa criança abandonada prematuramente, justificando isoladamente o visionamento de toda esta campanha bélica. O seu rosto monocromático vende convincentemente o papel idílico de uma guerreira destemida e corajosa numa época de déspotas selvagens. A réplica das suas emoções enche por completo a arena de batalha, classificando-a como uma das maiores vilãs femininas de que há memória. O lema da mulher máscula transita inevitavelmente para a rainha Gorgo de Esparta (Lena Heady), pese embora a sua participação pontual.

Mas, se Green vs Stapleton é um festim para os olhos, todo o ambiente envolvente está ao nível do espétaculo sangrento que ambos irão proporcionar. E se pensarmos por um segundo, que 300: O Início de um Império foi concebido e coreografado numa tela verde, é maravilhoso constatar que um génio com recursos é um génio ainda melhor. A quantidade maciça de elementos visíveis em movimento no ecrã é algo surreal, como se estivéssemos a jogar a uma batalha naval a partir do céu. Por seu turno, a tecnologia envolvida na edição digital de cada confronto coletivo e individual, dá-nos a ilusão de que estamos sentados numa poltrona mesmo no meio da ação, enquanto puxamos do comando para fazer parar ou avançar o frame desejado. E eis que se dá o arrepio na espinha com as batidas fulgurantes de Junkie XL.

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300: O Início de um Império posiciona-se algures entre a sequela e a prequela, mas é tudo aquilo que um segundo filme deve ser. E embora seja superior em todos os aspetos à rendição anterior, deve ser entendido como um complemento da história iniciada há sete anos a esta parte. O enredo é mais complexo e com maior backstory das personagens, contemplando uma noção histórico visual mais abrangente de um dos eventos mais marcantes do arquivo grego. Aqui, não se pretende realizar uma aproximação fidedigna sem que a imaginação não solte os seus laivos mais loucos e perversos.

Não é perfeito, se considerarmos algumas inconsistências e redundâncias do guião em comunhão com “overproduction” de algumas cenas. Não obstante essas anotações, enquanto produto de entretenimento oferece-nos uma experiência verdadeiramente épica e memorável do princípio ao fim.

P.S – Seize Your Glory!!!

MS

Miguel Simão

Jurista e Poeta em algumas horas vagas. Cinéfilo incurável com forte pancada pelo sci-fi, que se perde algures pelo vício noturno de umas quantas séries televisivas de renome; amaldiçoado pelo perfecionismo estético de uma resma de palavras mais ou menos caras. Podem encontrar-me a divagar entre a Terra e o Espaço no meu blogue premiado Última Transmissão Humana.

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