69º Festival de Cannes (Dia 2): Lobos e Homens

O romeno Cristi Puiu (‘A Morte do Senhor Lazarescu’) e o francês Alain Guiraudie (‘O Desconhecido do Lago’), premiados na secção Un Certain Regard em edições anteriores tiveram o privilégio de abrir a competição. ‘Sieranevada’ de Puiu, conta a história do reencontro de um médico com a sua familia em Bucarest, depois da morte do pai; ‘Rester Vertical’, de Guiraudie, é um road movie de um cineasta em crise criativa, à procura de lobos pelas paisagens do sul de França.

Sieranevada de Cristi Puiu (Roménia), com Mimi Branescu, Dana Dogaru, Bogban Dumitrache,  Andi Vasluianu (competição)

A história: Depois do regresso de uma viagem profissional a Paris, um médico (Mimi Branescu) aparentemente no auge da sua carreira vai apanhar a casa a sua esposa, para que possam participar numa refeição em família para evocar o seu pai, que morreu um ano antes. No apartamento da mãe, junta-se todo o clã familiar, esperando o padre e a hora da ceia. E enquanto isso vão discutindo sobre questões ligadas à família e outras como as guerras no mundo e terrorismo como o atentado ao Charlie Hebdo e 11-S.

Sieranevada

A análise: Sieranevada é sem dúvida uma grande estreia (e logo a abrir) na competição para o realizador Cristi Puiu, um dos responsáveis pela renovação e principais matrizes estéticas do renovado cinema romeno. Em 2005, ganhou o Prémio Un Certain Regard com A Morte do Senhor Lazarescu, uma tragicomédia política que marcou esse ponto de ruptura com o passado. Puiu voltou à Croisette com Aurora, em 2010 (Un Certain Regard) e mais tarde com o filme colectivo Pontes de Sarajevo, em 2014, em sessão especial. Este longo e obsessivo drama familiar, com quase três horas de duração é estranha e misteriosamente intitulado Sieranevada.

Sieranevada

No entanto, passa-se todo em Bucareste, algo que o realizador mesmo nas notas de produção, metes os ‘pés pelas mãos’ para tentar explicar. Em síntese o filme remete sobretudo para as convulsões do presente e traumas do comunismo romeno, que deixou muitas marcas nas pessoas e nos seus afectos. Em Sierranevada, um filme que começa até com alguma serenidade, a câmera é colocada sobretudo no hall de entrada de um vulgar apartamento. E vai girando sobre planos apertados dos quartos e os rostos dos protagonistas, (umas das tais marcas estéticas deste novo cinema romeno), revelando aos poucos as tensões, paixões e rancores, dessa familia que se reuniu, para evocar a morte do seu patriarca. Nesta realização de proximidade há depois o desenvolvimento de uns diálogos brilhantes e uma notável direcção de actores onde se destacam Mimi Branescu (num médico que passa de um tipo equilibrado a um farrapo humano) e Dana Dogaru, no papel da carismática matriarca da familia.

Rester Vertical

Rester Vertical de Alain Guiraudie (França), com Damien Bonnard, India Hair, Basile Meilleurat (competição)

A história: Léo (Damien Bonnard), um realizador à procura de si próprio enquanto observa um lobo, num grande planalto de Lozère, no sul de França, conhece uma pastora, chamada Mary (India Hair). Juntam-se e poucos meses têm uma criança. Repentinamente ela parte sem sem aviso abandonando os dois. Leo fica com um bebé  nos seus braços e vai-se afundando gradualmente na insanidade e degradação social.

Vê trailer de Rester Vertical

A análise: Depois da sua afirmação com thriller sexual O Desconhecido do Lago, na secção Un Certain Regard em 2013, o caótico e sempre provocador realizador francês Alain Guiraudie, chega finalmente à divisão principal. Em Rester Vertical, Guiraudie segue a mesma trajetória estética com uma epopeia (homo)sexual de um realizador falhado que começa a pensar mais com a ‘cabeça-de-baixo’ e acaba por cair no isolamento e degradação social. Mas Rester Vertical é igualmente uma história poética, que conduz para uma metáfora e um debate de quem nesta sociedade são afinal os lobos e os carneiros. E depois de que afinal isto de ser um ‘gajo’ firme e porreiro, depende muito das arbitrariedades da vida amorosa e social de cada um.

Rester Vertical

Mesmo assim e duma forma um tanto caótica Rester Vertical debate ainda questões sociais recorrentes nas sociedades actuais como: as barrigas de aluguer, a fluidez dos géneros masculino e feminino, a reintrodução de espécies animais quase em extinção, como os lobos, a transformação da natureza pelo homem e o fim do campesinato tradicional. A fotografia é sempre eloquente e delicada mesmos nas cenas mais provocadoras e os diálogos desconcertantes para todo um elenco notável onde se destaca Léo, um herói altruista, interpretado por um magnífico Damien Bonnard. Com toda a sua carga sexual Rester Vertical, é afinal também um filme ecologista e defende o ambiente e a natureza.

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colabora no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’, ( 2014). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’,(2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’, (2012) Mostras de Cinema da América Latina 2010 e 2011, 'Vamos fazer Rir a Europa', 2014 e Mostra de Cinema Dominicano, 2014 e Cine Atlântico, Terceira, Açores. É o Director de Programação do Cine’Eco- Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela desde 2012. É membro da FIPRESCI.

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