69º Festival de Cannes (Dia 9) | O Peso da Família

O romeno Cristian Mungiu apresentou Bacalaureat, um filme sobre os desafios do casamento e paternidade; o prodígio canadiano Xavier Dolan regressou com Just La Fin du Monde, um drama sobre os amores e rancores familiares.

bacalaureat

Bacalaureat de Cristian Mungiu (Roménia) com Adrian Titien, Maria Dragus, Lia Bugnar Vlad Ivanov (competição)

A história: Romeo (Adrian Titieni) é médico de uma pequena cidade da Transilvânia e o seu grande sonho é que a sua filha Eliza (Maria Dragus), seja aceite numa universidade inglesa. Mas para isso a rapariga, uma boa aluna e ajuizada, vai ter que terminar o seu ultimo ano do ensino secundário. Só que poucos dias antes do exame Eliza é agredida e quase violada não muito longe da sua escola, comprometendo aliás a sua mobilidade manual para efectuar a prova. A partir daí Romeo vai fazer tudo e nem sempre da forma mais ajustada, para que a filha cumpra o objectivo que há muito tem pensado na sua cabeça.

Vê trailer de Bacalaureat 

A análise: Cristian Mungiu, o cineasta romeno vencedor da Palma de Ouro, com impactante 4 Meses, 3 Semanas, e 2 Dias, regressou com um excelente filme intitulado Bacalaureat, mas não tão envolvente e forte como o premiado, em 2007 ou mesmo com o Au-delà des Collines (2012).

Bacalaureat

Bacalaureat é mais um retrato da Roménia,  sobre a pequena corrupção e como o passado do comunismo deixou marcas nas pessoas e nos seus afectos. Aliás como em  Sieranevada, de Cristi Piu, o outro romeno nesta competição, um filme familiar, onde a personagem principal é também um médico. Em Bacalaureat toda a história está centrada num médico (Adrian Titieni), um pai demasiado zeloso com os compromissos da paternidade, passada numa pequena cidade onde toda a gente se conhece. 

Bacalaureat

Bacalaureat é um filme semi-autobiográfico onde Mungiu, permite-se a questionar o papel de marido e sobretudo de pai: um pai que procura dar a melhor educação á filha, mesmo não sendo o melhor modelo para ela. De facto Mungiu é um especialista em fornecer valores às personagens (sejam eles bons ou maus), e estas estão muito bem vividas com naturalidade, pela generalidade do elenco sobretudo pelo curioso Romeo, interpretado por  Adrian Titieni.

Just la fin du monde

Juste La Fin du Monde de Xavier Dolan (Canadá) com Nathalie Baye, Vincent Cassel,  Marion Cotillard, Gaspard Ulliel, Léa Seydoux (competição)

A história: Depois de doze anos de ausência Louis (Gaspard Ulliel), regressa à sua casa natal na província, para anunciar à familia que vai morrer em breve devido a uma doença terminal. Neste reencontro com o seu circulo familiar mais próximo (mãe, irmão mais velho, cunhada e a irmão mais nova), leva-nos a pensar que existira o amor.  No fundo na discussão familiar acabam por vir ao de cima as velhas zangas, ciúmes, rancores, que demostram antes traumas, dúvidas e sobretudo um profunda solidão e afastamento.

Vê excerto de Juste La Fin du Monde 

A análise: Depois de ter passado o ano anterior pela cadeira do júri, Xavier Dolan (Mommy), o menino-prodígio do cinema do Quebeque, estreia em Cannes este Juste La Fin du Monde, com um elenco francófono de luxo (Baye, Cassel, Cotillard, Seydoux e Ulliel), e baseado numa peça de teatro de Jean-Luc Lagarce, dramaturgo francês que faleceu de SIDA, em 1995. A base do filme é datada, a um período onde a doença dizimava e numa altura em que apareceram muitas produções sobre o tema, sendo que a mais conhecida foi Anjos na América, que até deu mini-série de televisão. No entanto, não se pode dizer que Dolan tenta regressado ao tema, até porque a doença nunca é referida, pese embora o mau-estar constante e a nostalgia de Louis (Gaspard Ulliel).

Just la fin du monde

Juste La Fin du Monde é antes um extraordinário ensaio sobre a familia, esse circulo que tanto pode ser protector como marcante e foco de instabilidade na personalidade das pessoas. E onde por vezes acaba por vir ao de cima, sentimentos que estão bem longe dos afectos e do amor, como é o caso deste filme. Os diálogos e a construção podem pertencer à peça e são muitos bons.

No entanto, Dolan resgata o teatro para o cinema com grande mestria, mesmo que Juste La Fim du Monde, se passe praticamente só dentro da casa de familia: grandes planos dos rostos, travelings em rodopio, uma câmera agitando-se ou acalmando-se à medida do conflito e flashbacks que passam sempre pelas janelas, como se estas fossem um filtro entre o passado e o presente.

Just la fin du monde

É notável a direcção de actores, (com a qualidade destes quatro vedeta do cinema francês também mal seria), em Juste La Fin du Monde, na verdade um filme intimista, intenso, emotivo, (às vezes mesmo a roçar um pouco a histeria), que deixa preso o espectador até ao desfecho final. Aliás é apenas um pormenor, a cena final do cuco morto, na carpete de entrada da casa, não prima pelo bom gosto.   

JVM


José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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