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Stanley Kubrick não fez apenas mais um filme de terror em 1980, criou um puzzle cinematográfico que, décadas depois, ainda intriga críticos, académicos e fãs. Para quem nunca viu, The Shining conta a história de Jack Torrance (Jack Nicholson), um escritor em busca de inspiração que aceita ser o cuidador de inverno de um hotel isolado nas montanhas. O que começa como um retiro torna-se um pesadelo de solidão, paranoia e fantasmas que talvez nem o sejam.

Mas o detalhe que nunca deixa o público em paz é a cena final: a fotografia de 1921, pendurada na parede do Overlook, em que vemos Jack a sorrir, como se sempre tivesse estado lá. E é aqui que a dúvida nasce: como é possível?

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Porque aparece Jack na fotografia de 1921 em The Shining?

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© 1980 – All rights reserved. Courtesy Warner Bros. Home Entertainment, Inc.

A cena derradeira de The Shining é tão breve quanto devastadora: Jack, que morre congelado nos jardins, surge afinal imortalizado numa festa de 4 de julho de 1921. O Overlook absorveu-o? Teria ele “sempre” sido parte da história do hotel?

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O Overlook funciona como uma entidade sobrenatural, um organismo vivo capaz de manipular tempo e memória. Isto é ainda mais aparente no livro original de The Shining, onde vemos o Hotel reagir emocionalmente quase como se estivesse vivo. É uma entidade com personalidade e objetivos. O hotel explora as vulnerabilidades de quem nele habita, e Jack, na sua espiral de loucura, acaba eternamente entrelaçado com os corredores do edifício.

Mas também vemos aqui ecos da própria obsessão de Stanley Kubrick com ciclos e loops temporais. Tal como em 2001: Odisseia no Espaço, o final não resolve nada: abre portas. A fotografia é menos uma resposta do que um enigma, a sensação não é de “explicação”, mas de vertigem.

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O que significa realmente “sempre foste o cuidador”?

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© Warner Bros

No meio da descida de Jack à loucura em The Shining, há uma conversa-chave: Delbert Grady, o antigo funcionário do hotel que assassinou as próprias filhas, garante-lhe, com calma perturbadora, que Jack “sempre foi o cuidador”. Uma frase que parece contradizer tudo o que vimos até esse ponto.

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Uma leitura possível é que se trata de manipulação pura: o hotel mina a sanidade de Jack, convencendo-o de que o seu destino está traçado. Trata-se de um espelho do próprio alcoolismo e do histórico de violência familiar de Jack. Ele é apanhado numa rede de abusos que se repetem geração após geração e o hotel apenas dá forma sobrenatural a essa maldição.

Assim, Jack não só é absorvido pelo hotel, como possivelmente “reescrito” retroativamente na sua cronologia. O Overlook não vive apenas no presente, estende-se no passado e no futuro, e cada novo fantasma altera o tecido da sua história. Por isso, quando Grady afirma que Jack sempre esteve lá, não é mentira… apenas uma verdade que ainda não aconteceu.

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Então, qual é o verdadeiro alvo do Overlook?

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Reconstituição das cenas originais de “Shining” (1980) |©NOS Audiovisuais

Apesar de toda a atenção em Jack, o verdadeiro alvo do Overlook não era ele, mas Danny. O “shining”, essa sensibilidade psíquica rara, tornava-o apetecível ao hotel, que parecia querer absorver o seu poder.

O próprio Halloran, o cozinheiro que também possui o “shining”, explica-lhe isso: Danny tem uma luz que o hotel deseja apagar. Jack seria apenas a ferramenta, o peão manipulado para que o hotel pudesse alcançar o verdadeiro prémio. Isto explicaria porque vemos tantas visões a cercar Danny: as gémeas, o quarto 237, o sangue nos corredores.

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E no entanto, o Overlook falha. Jack sucumbe, mas Danny escapa. Se o hotel o queria, nunca o conseguiu. Talvez seja isso que torna o final tão inquietante: o Overlook perdeu a batalha, mas venceu ao gravar Jack para sempre na sua tapeçaria. O terror continua, só mudou de moldura.

Conclusão

Kubrick deixou-nos um hotel onde o tempo não é linear, onde a morte é apenas o início de outra festa e onde uma fotografia pode valer mais do que mil gritos. Podes ver o filme na HBO Max, se quiseres reviver a loucura. Assim, quando olhares para aquela fotografia final… verás apenas Jack Torrance ou sentirás que também já estiveste naquele salão?

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Trailer | The Shining


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