“A Grande Eleanor” — Crítica
“A Grande Eleanor” é uma comédia dramática que promete incómodo, mas que se encolhe no colo da simpatia e que é salva pela energia luminosa de June Squibb, que aos 95 anos carrega o filme às costas. Estreia esta semana.
“A Grande Eleanor”, de Scarlett Johansson, é daquelas obras que chegam aos cinemas envoltas num véu de simpatia prévia: uma actriz muito querida que se estreia como realizadora e June Squibb (“Nebraska”), uma veterana lendária actriz como protagonista, um tema sério e um tom ligeiro. Mesmo, depois da recepção morna no Festival de Cannes 2025, onde se estreou na secção Un Certain Regard e a antestreia furtiva no Tribeca Lisboa Festival, a receita promete aos espectadores que admiram a actriz-realizadora. O trailer é muito bom e faz mesmo franzir o sobrolho de curiosidade, mas depois o filme de Scarlett Johansson, desemboca numa estrada muito mais plana e segura do que aquela que a premissa pedia. A história vem embrulhada em boas intenções, mas falta-lhe aquela centelha de insolência moral que transforma um filme simpático num filme necessário. Ainda assim, é impossível negar a presença luminosa de June Squibb, a verdadeira dona desta casa.

A Personagem e o Impulso de Pertencer
A narrativa gira à volta de Eleanor Morgenstein (Squibb), uma viúva judia de língua afiada e coração inquieto, que vive uma velhice relativamente pacata até à morte da melhor amiga (Jessica Hecht). Subitamente deslocada, sozinha e com aquele vazio emocional para o qual não há ibuprofeno nem chá de camomila que cheguem, Eleanor vai tentar encontrar companhia num grupo de idosos sobreviventes do Holocausto. Acontece que Eleanor não é sobrevivente, mas como a necessidade de pertencer é tão humana quanto a necessidade de respirar, ela faz aquilo que quase ninguém admite mas muitos fazem em menor escala: inventa. Ou, mais precisamente, apropria-se da história da amiga morta e veste-a como quem veste um casaco emprestado. Demasiado grande nos ombros, mas quentinho.
O Filme Que Não Quer Incomodar
A partir daqui o filme podia ter seguido para um território fascinante: o da fronteira ética entre a dor própria e a dor alheia, o das narrativas roubadas, da representatividade, da memória histórica. Tudo material explosivo. Só que a realizadora opta por um registo bem mais inofensivo, quase televisivo, como se tivesse medo de levar a tragédia demasiado a sério e o espectador demasiado longe. O resultado é um filme que sorri constantemente para nós, quando na verdade devia era gritar, sujar-se, empurrar-nos para o desconforto. Afinal, estamos a falar do Holocausto, uma das feridas mais profundas da história humana, e não de uma história ligeira passada numa padaria kosher.
VÊ TRAILER DE “A GRANDE ELEANOR”
June Squibb, a Salvação
June Squibb, aos 95 anos, — fez 96 em novembro passado — salva rigorosamente tudo o que pode ser salvo. A mulher é um prodígio tardio: cada gesto, cada pausa, cada ironia, estão calibrados com a precisão de quem já viu o mundo dar muitas voltas e já não tem paciência para delicadezas. A sua Eleanor é um poço de vulnerabilidade camuflada por frases secas e olhares faiscantes. É a avó que nunca tivemos e a que não sabemos se gostaríamos de ter. Com ela, o filme existe; sem ela, provavelmente nem estreava. O resto do elenco, num plot paralelo, funciona como apoio decorativo, com Erin Kellyman como jovem jornalista em processo de encantamento e Chiwetel Ejiofor a fazer de pai famoso, que inspira e ao mesmo tempo torna-se uma sombra para a rapariga, sempre com a sua serenidade habitual.
Quando a Mentira Vem ao de Cima
O problema é que quando a grande mentira vem ao de cima — e vem, claro — o filme escolhe o caminho do algodão. Nada de confrontos reais, nada de explosões morais, nada de consequências. Tudo se resolve com uma espécie de abraço colectivo e um discurso sobre honrar memórias. É bonito, é humano, mas é também uma fuga ao tema. Num mundo onde negacionistas estão à solta e onde a memória histórica é sistematicamente instrumentalizada por extremistas, a ideia de alguém inventar uma sobrevivência ao Holocausto não é apenas uma questão sentimental, é política, cultural e historicamente explosiva. O filme, porém, dá meia-volta e finge que não viu o precipício.

O Problema do Lar
Há ainda outro subplot sobre a possibilidade de internar Eleanor num lar. É introduzido, abandonado, ressuscitado e resolvido como se fosse uma checklist de guião mais do que um dilema dramático. Eleanor, lúcida e fisicamente impecável, resiste com razão. Depois, sem grande explicação, cede. Talvez por desgaste narrativo, talvez por conveniência temática, talvez porque alguém decidiu que era preciso um arco visual e narrativo de encerramento. O espectador fica a olhar para aquilo como quem vê uma porta fechar sem saber muito bem o que ficou do outro lado.
Um Filme Tímido
Dito tudo isto, convém dizer que “A Grande Eleanor” não é um mau filme. É um filme tímido. Um filme que prefere ser agradável em vez de ser verdadeiro, simpático em vez de incómodo. Scarlett Johansson, enquanto realizadora, mostra sensibilidade, um olhar amoroso para os seus actores e uma vontade evidente de tratar o envelhecimento com dignidade, o que, por si só, já a coloca acima de muitas abordagens contemporâneas. Mas falta-lhe o músculo crítico, a coragem moral e cinematográfica para transformar um bom tema num grande filme. No fim, fica o brilho tremelicante de June Squibb, o sorriso constrangido do público e a sensação de que esta história merecia umas rugas mais fundas, uns silêncios mais pesados e umas perguntas que não se resolvem com chá e afectos. “A Grande Eleanor” quer falar de memória, culpa, solidão e pertença — temas vastos e belíssimos — mas faz tudo para não nos magoar. E às vezes o cinema, como a vida, só nos transforma quando nos magoa, pelo menos um bocadinho.
JVM
A Grande Eleanora — Crítica
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José Vieira Mendes - 65
Conclusão:
“A Grande Eleanor” deixa-nos naquela zona morna entre o carinho e a frustração. Não é um filme que provoque alergias, nem um desastre criativo, mas também está longe de ser o objecto incómodo e memorável que o tema exigia. Scarlett Johansson revela delicadeza, sensibilidade e um afecto genuíno pelas suas personagens, mas falta-lhe o arrojo para aceitar o desconforto como matéria dramática e sobretudo quando o tema é o Holocausto, o envelhecimento e a apropriação da memória, o desconforto não é um acidente: é o caminho. O que salva o filme, o que o torna ponte de empatia em vez de produto de catálogo, é June Squibb, que aos 95 anos prova que o talento não envelhece, apenas se afina. E é por isso que “A Grande Eleanor” fica parado entre dois gestos: o de querer dizer algo e o de ter medo de o dizer. É nesse intervalo que o filme respira… e é também aí que se perde.
Overall
65User Review
( votes)Pros
O Melhor: June Squibb em estado de graça e um olhar terno sobre o envelhecimento que foge à condescendência e dá ao filme humanidade genuína.
Cons
O Pior: Medo de enfrentar o desconforto do tema, com o Holocausto e a impostura tratados a algodão, resultando num filme simpático mas que podia ter sido grande.

