Jennifer Lawrence é Grace uma jovem mãe em combustão. Crítica

Mata-te, Amor — Crítica

Em “Mata-te, Amor”, Lynne Ramsay transforma a maternidade num terror íntimo de raiva e desejo, trocando a alegria bucólica do campo pelo abismo psicológico. Jennifer Lawrence brilha no papel que lhe valeu a nomeação aos Golden Globes, num filme vindo da Competição de Cannes que agora chega às salas.

Quem já levou com discursos sobre “vida simples no campo”, “bom ar do interior” e “o milagre da maternidade” devia ver “Mata-te, Amor” (“Die, My Love”), com um calmante à mão. A escocesa Lynne Ramsay (“Temos de Falar Sobre Kevin”) volta às salas de cinema como quem esfrega uma lixa na pele: sem piedade, sem explicações e com aquele nervo cinematográfico que só ela domina desde “O Lixo e o Sonho” (“Ratcatcher”), em 1999. Aqui não há glow materno, brunch com amigas ou bebés sorridentes com fraldas ecológicas. Há um bebé que grita, um cão que ladra, um marido que dorme demais e uma mulher ou uma jovem mãe, à beira do colapso.

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Mata-te, Amor
O casal tóxico formado por Jennifer Lawrence e Robert Pattinson. ©MUBI

Essa mulher chama-se Grace e tem corpo, suor e caos na pele de uma Jennifer Lawrence completamente arrasadora na sua interpretação. Em “Mata-te, Amor”, não há a diva, não há a esbelta figura da red carpet, não há a aventureira da saga “The Hunger Games”. Há olheiras, sexo compulsivo, raiva e um desejo mal resolvido de desaparecer e deixar tudo para trás. Grace era uma aspirante a escritora antes de trocar a cidade por uma casa perdida no  numa paisagem bucólica no interior dos EUA, naquela fantasia burguesa do “vamos viver no campo e ser felizes”. Resultado? Ela ficou com a fralda, o cão e o bebé; o marido ficou com o sono, o privilégio de sair de casa para ir trabalhar e, já agora, com uma amante algures entre turnos e desculpas.

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A Psicose Como Manual do Espectador

Em “Mata-te, Amor”, Ramsay filma este drama de uma jovem família, como se fosse um thriller de sobrevivência mental. Nada é contextualizado, nada é explicado e ainda bem. O filme não está ali para fazer psicologia de sofá. Entramos directamente na mente de Grace, e se a mente dela está partida, o espectador que se aguente. O som — bebés, cães, respirações, música hard rock em altos berros e silêncios que doem — funciona como tortura sensorial. A certa altura, quem está na sala também quer matar o cão, largar tudo e fugir para uma clínica psiquiátrica com wi-fi e ar condicionado. Falando no cão: o gesto radical de Grace ao disparar uma espingarda contra o pobre animal podia ser gratuito em mãos menos competentes. Aqui é um verdadeiro manifesto. O filme avisa: “não há santas, não há mães perfeitas, não há pedagogia emocional”. Há impulso, desespero e um grito que não cabe no berço e não precisa de ser embalado.

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O Marido Que Não É Mau Rapaz

Robert Pattinson interpreta Jackson, o marido que não é monstro, mas quase pior: é o tipo distraído, culpado, bonzinho de catálogo, que acorda tarde, trabalha fora, ignora dentro e trai no intervalo. A culpa paira sobre ele como pólen primaveril, mas nunca se transforma em responsabilidade. Ramsay destrói assim o mito do “rapaz bonzinho que só precisa de comunicar melhor”. É precisamente essa falta de presença — física, emocional e ética — que em “Mata-te, Amor” empurra Grace para o precipício. A violência às vezes não é só física.

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Die My Love
Robert Pattinson tem um papel um pouco apagado. ©MUBI

Enquanto ele dorme, ela vigia a criança, limpa o vómito, imagina escrever livros que nunca escreverá e fantasia com sexo como última forma de sentir que ainda está viva. É tão desconfortável que chega a ser cómico. Cómico no sentido Ramsay: um humor que vem da crueldade, de um reconhecimento triste, pois a maternidade real nunca coube nos momentos mais divertidos para uma jovem mãe que tem de abdicar de muita coisa.

Natureza Morta com Hormonas

“Mata-te, Amor” é de uma beleza irritante. Planos largos em tons pastel, chroma suave, campos idílicos ao pôr-do-sol…e, por cima disso, uma Grace em combustão. É a grande ironia de Ramsay: quanto mais bonita a paisagem, mais feia se torna a mente da protagonista. As cores parecem anestesia, mas o som acorda qualquer um. A influência do livro “Mata-me, Amor” de Ariana Harwicz está lá, estrutura fragmentada, sensualidade obsessiva, narrativa sem freio moral. Ramsay não adapta, incorpora: o cinema vira prótese da literatura e a literatura vira motor para um cinema feito de carne.

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Mata-te, Amor
Jennifer Lawrence num dos papéis mais corajosos da sua carreira. © MUBI

A Depressão Pós-Parto

“Mata-te, Amor” é sobretudo um filme sobre depressão pós-parto, transtorno bipolar e sexualidade feminina em curto-circuito. Mas é também sobre o silêncio cúmplice das famílias, o machismo soft dos “bons rapazes” e a romantização tóxica da maternidade. E todas estas palavras — depressão, bipolar, trauma — parecem grandes demais para o comum dos espectadores, mas Ramsay faz o contrário, daquilo que é esperado: reduz tudo ao corpo, ao gesto, à respiração. Não há diagnóstico verbalizado. Há o que se vê: olhos, mãos, suor, leite, sangue, saliva. A clínica psiquiátrica surge tarde, quase como piada burocrática. O dano já está feito. Se o espectador espera catarse, esqueça. Se espera mensagens inspiradoras escolha antes uma comédia romântica. Se espera boas mães e maus maridos, vá ver telenovela. “Mata-me, Amor” é outra coisa, cinema como bisturi: corta e não dá pontos. E isso, por estranho que pareça, é um acto de libertação feminina.

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JVM

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Mata-te, Amor — Crítica
  • José Vieira Mendes - 75

Conclusão:

“Mata-te, Amor” não é um filme para ser “entendido” ou “explicado”, é um filme para ser sentido na pele, na garganta e, de preferência, sem distrações. Lynne Ramsay obriga-nos a olhar para uma maternidade que raramente tem direito a representação: suja, sexual, furiosa, exausta e longe daquela mitologia cor-de-rosa que a publicidade insiste em vender. Grace (Jennifer Lawrence) não é mártir nem vilã, é apenas um corpo em curto-circuito entre desejo, culpa e hormonas, e é justamente aí que o filme encontra a sua brutalidade e a sua beleza. Há quem ache excessivo, há quem ache perturbador, mas é difícil ficar indiferente. Se o cinema ainda serve para desmontar mitos e devolver humanidade ao que preferimos varrer para debaixo do tapete, então “Mata-te, Amor” cumpre a sua missão com uma precisão quase cruel. É um filme que dói, mas há dores que valem a pena.

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Overall
75
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Pros

O melhor: Jennifer Lawrence num dos papéis mais corajosos da sua carreira e na forma como Ramsay filma a loucura feminina sem moralismo, usando o som como arma sensorial. O retrato cru da depressão pós-parto, sem filtro nem panfleto, dá ao filme uma força rara e desconfortável.

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Cons

O pior: o filme é tão sensorialmente agressivo que alguns espectadores vão fugir, e a falta de contexto pode afastar quem espera uma “mensagem” inspiradora. Zero conforto: quem procura catarse ou explicação clara, talvez morra na praia.

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