Lamia (Banin Ahmad Nayef), uma menina de nove anos. ©Nitrato Filmes

“O Bolo do Presidente” — Crítica

O filme iraquiano “O Bolo do Presidente”, primeira obra de Hasan Hadi, fala do passado, mas acerta em cheio no presente, do Iraque à Venezuela. Uma miúda de nove anos, um bolo impossível e um país esmagado entre ditadura e sanções internacionais. Estreia nas salas esta semana.

“O Bolo do Presidente” (The President’s Cake), de Hasan Hadi, chega esta semana às salas de cinema não bem decorado nem com a elegância pomposa de um bolo de aniversário de pastelaria fina. “O Bolo do Presidente” mostra, antes de mais, como um presente de aniversário pode valer mais do que a democracia inteira de um país. Estamos no Iraque dos anos 90, era Saddam Hussein, período santificado pelas sanções internacionais que supostamente visavam punir o ditador, mas que na prática pousaram o pé inteiro em cima da população. No meio desse cenário, a jovem Lamia (Banin Ahmad Nayef), uma menina de nove anos, recebe a “honra” de fazer o bolo de aniversário do presidente. Não é metáfora: é mesmo bolo. Só que sem ovos, sem açúcar, sem nada, por causa da escassez provocada pelas sanções. É o absurdo total em forma de missão patriótica e é aqui que o filme começa a mostrar a sua força política e a sua inteligência narrativa.

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O Bolo do Presidente
Estamos no Iraque dos anos 90, era Saddam Hussein. ©Nitrato Filmes

 

Uma fábula iraquiana com jatos, pântanos e cartões de racionamento

Em “O Bolo do Presidente”, Hasan Hadi filma o Iraque como um país suspenso entre guerra e sobrevivência. No início, os jatos cortam o céu, os pântanos parecem postais turísticos passados de prazo e as pessoas alinham em fila para encher bidões de água. O grande circo geopolítico resume-se a isso: quem tem gasolina, quem tem farinha, quem tem coragem de roubar o que falta. Lamia vive com a avó nos pântanos do sul, leva o barco fino para a escola e volta para casa com a cabeça cheia de contas que não batem certo. Quando o professor — uma mistura de lambe-botas oficial e bully de recreio — lhe atribui a tarefa do bolo presidencial, o que está em jogo não é a nota final: é a segurança da família. Falhar o bolo de Saddam não é falhar um trabalho de casa; é brincar com a própria sobrevivência. A partir daqui, “O Bolo do Presidente” transforma-se numa road movie em miniatura: Lamia, a avó Bibi (Sajad Mohamad Qasem) e um galo chamado Hindi rumam à “cidade” à procura de ingredientes. Entre boleias, murais de Saddam e bazares onde tudo se compra e tudo se vende, o filme vai montando o retrato de um país apertado entre culto da personalidade, penúria e resignação. Hadi não se limita a ilustrar a miséria: organiza-a como sistema, uma economia política do desespero.

VÊ TRAILER DE “O BIOLO DO PRESIDENTE”

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Entre Kiarostami e o postal de guerra para festival

Ao ver, “O Bolo do Presidente”, é impossível não pensar em Abbas Kiarostami (e em “Onde Fica a Casa do Meu Amigo?”) quando seguimos uma criança a enfrentar a maquinaria absurda do mundo adulto. Hasan Hadi bebe dessa tradição iraniana da fábula política em miniatura: tudo parece simples, quase inocente, até percebermos que nada ali é ingénuo. A forma como a câmara acompanha Lamia, com paciência e rigor, lembra-nos que o olhar da criança é o único ponto de vista minimamente limpo num mundo estruturalmente sujo. Ao mesmo tempo, o filme também joga claramente para os festivais. As panorâmicas são de postal: barcos iluminados nos pântanos, ruas de Basra em caos coreografado, bazares a fervilhar. A miséria é fotogénica, a ruína é cuidadosamente enquadrada. Não é por acaso que ganhou a Caméra d’Or e o Prémio do Público na Quinzena dos Realizadores em Cannes 2025. A Europa adora ver a desgraça dos outros desde que venha com boa fotografia e uma criança de olhos grandes. A realização, porém, não é só verniz. Hadi sabe quando se afastar para mostrar o quadro geral e quando se aproximar da cara de Lamia, esse misto de tristeza precoce e teimosia, numa interpretação que nos fica na memória, mesmo depois de sair do cinema e pensar nas milhares de crianças obrigadas a sobreviver em cenários de guerra. O filme pode ser acusado de ceder ao “exotismo politicamente conveniente”? Pode. Mas, mesmo dentro desse quadro, encontra momentos de grande delicadeza na forma como filma o quotidiano, a relação com a avó, a candura e a dureza da infância em cenário de sanções. O resultado é um filme que tanto seduz o olhar ocidental como o confronta com a sua própria cumplicidade.

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O Bolo do Presidente
O Iraque como um país suspenso entre guerra e sobrevivência.©NItrato Filmes

Iraque, Venezuela, EUA: o bolo não chega para todos

O grande mérito de “O Bolo do Presidente” é pôr-nos a pensar nas sanções e nas “intervenções” sem precisar de nos desenhar gráficos no ecrã. Percebemos, pela via do bolo, aquilo que as estatísticas costumam esconder: quem paga a conta das aventuras militares e económicas são sempre os mesmos, os que vão de barco para a escola ou descalços pelos caminhos de terra batida e não os que aparecem nas bancadas da ONU. O paralelo com a Venezuela é inevitável. No Iraque, a desculpa era a ameaça das armas de destruição maciça. Na Venezuela, é a democracia, os direitos humanos, o petróleo. Em ambos os casos, a receita é parecida: primeiro isolam o país; depois estrangulam a economia; finalmente vêm dizer que “o povo precisa de ajuda”. No meio disto, o cinema aparece como registo de danos e, no melhor dos casos, como ato de acusação. “O Bolo do Presidente” mostra-nos o antes — o país sob Saddam e as sanções — mas nós já sabemos o depois: invasão, ocupação, desmantelamento do Estado, milícias, terrorismo, caos. Estrear este filme agora, com a Venezuela a arder (e o Irão na calha), é quase cruel. Fica a sensação de que aprendemos pouco ou nada com o Iraque e é aqui que o filme ganha peso jornalístico e político: lembra-nos que a história recente não é passado, é o caminho para o desastre.

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Sajad Mohamad Qasem
A actriz Sajad Mohamad Qasem, interpreta a avò BiBi. ©Nitrato Filmes

A criança como bússola moral num país em ruínas

Lamia não é uma heroína “cute” para vender t-shirts. É uma miúda a quem tiraram o direito a ser simplesmente criança. Em “O Bolo do Presidente”, ela navega entre adultos exaustos, polícias corruptos, comerciantes oportunistas, burocratas histéricos. Tudo é escassez e chantagem: desde a água até ao afecto. Há uma sequência particularmente forte quando a avó, doente e sem dinheiro, considera entregá-la para adopção na cidade. Não para se desfazer dela, mas como alguém que já não acredita que aquele país possa dar futuro a uma criança. Mais do que a fome ou a guerra, o que o filme mostra é a erosão lenta da esperança. Quantos países, sob a capa de “pressão internacional legítima”, não estão a produzir as suas próprias Lamias? Crianças que crescem a ver sanções, blackouts, filas, inflação e aviões estrangeiros a sobrevoar-lhes o telhado. Depois espantamo-nos com o radicalismo, com o ressentimento, com o ódio ao Ocidente, como se tivessem aparecido do nada, num canto tóxico da internet, e não fossem o produto direto de políticas que tratam países inteiros como danos colaterais.

O Bolo do Presidente
Entre boleias, murais de Saddam e bazares onde tudo se compra. ©Nitrato Filmes

Cinema político com açúcar queimado

“O Bolo do Presidente” não é um filme perfeito. Há momentos em que o argumento carrega demais na caricatura, principalmente na forma como retrata a cidade como um poço de vícios e corrupção absoluta. Há também um lado “postal orientalista” que certamente agrada a um certo olhar europeu à procura de bazares sombrios e polícias bigodudos. Mas, mesmo quando exagera, o filme acerta mais do que falha. A forma como usa o pretexto do bolo para expor a lógica do sistema é brilhante: tudo é transacção, tudo é medo, tudo é teatro. O bolo não é só uma sobremesa para o ditador, é o símbolo de um país inteiro obrigado a fingir normalidade enquanto se desmorona. E é aqui que a primeira longa-metragem de Hasan Hadi se impõe como uma das obras políticas mais incisivas dos últimos anos vindas da região: não prega, não explica demais, limita-se a mostrar como é viver dentro da engrenagem. Banin Ahmad Nayef, no papel de Lamia, é o centro emocional do filme. Sem grandes discursos, sem sentimentalismo barato, carrega às costas o peso de um país e de uma época. O seu olhar diz mais sobre o Iraque dos anos 90 do que qualquer conferência de imprensa do Departamento de Estado dos EUA e essa talvez seja a maior vitória do filme: recuperar a narrativa para quem a viveu, não para quem a comentou à distância.

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O Bolo do Presidente
É impossível não pensar em Abbas Kiarostami (e em “Onde Está a Casa do Meu Amigo?”). ©Nitrato Filmes

No fim, o bolo é sempre deles, os escombros são dos mesmos

Em 2026, ver “O Bolo do Presidente” é olhar para o espelho partido da política internacional. O filme lembra-nos que, por trás de cada sanção “necessária” e cada intervenção “inevitável”, há cozinhas vazias, escolas esburacadas, hospitais a cair aos bocados e miúdos de nove anos a correr pela cidade para cumprir ordens absurdas. Do Iraque à Venezuela, passando por outros alvos de ocasião, da Ucrânia à Faixa de Gaza, a moral é tristemente parecida: o bolo, com velas e discurso, costuma ficar para os mesmos. O resto do mundo que vá lambendo as migalhas. Enquanto as houver.

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JVM

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O Bolo do Presidente — Crítica
  • José Vieira Mendes - 80

Conclusão:

“O Bolo do Presidente” do iraquiano Hasan Hadi é uma fábula política filmada com delicadeza e raiva. Parte de uma ideia quase absurda — uma criança encarregada de fazer o bolo de Saddam — para mostrar a engrenagem silenciosa das sanções, da propaganda e da escassez. Hasan Hadi evita o discurso académico e confia no quotidiano como acusação: filas, pântanos, barcos, bazares e rostos cansados. É um filme sobre o Iraque dos anos 90, mas que olha para 2026 como quem olha para um espelho rachado: Venezuela, Gaza, Sanaá, o mapa muda, a receita é a mesma. No fim, a grande força do filme é lembrar-nos que os grandes conflitos não se medem em tanques e aviões, mas nas cozinhas vazias e nas infâncias interrompidas.

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Overall
80
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Pros

O Melhor: a menina Banin Ahmad Nayef, num papel intenso e surpreendente; a realização de Hasan Hadi, sólida e politicamente afiada; e a forma inteligente como o filme usa um bolo para revelar o peso das sanções e do culto da personalidade, dialogando com o melhor cinema iraniano.

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Cons

O Pior: certos momentos caem no “postal orientalista” para consumo europeu, caricaturam a grande cidade sem nuance e transformam a miséria em estética de festival, criando distância em vez de confronto.

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